                                          O Peregrino
                                          John Bunyan

                                          Um dos autores mais influentes do Sculo 17,
                                          John Bunyan (1628 - 1688) foi um fenmeno
                                          cultural singular cuja apario na historia das
                                          idias crists possui um carter surpreendente
                                          se levarmos em conta quem Bunyan era e sua
                                          historia de vida, o contexto histrico em que
                                          vivia e o ambiente cultural e teolgico ao qual
                                          pertencia. Apesar de todas estas foras
                                          adversas e contra qualquer expectativa,
                                          Bunyan produziu uma obra literria, no s de
                                          grande repercusso e influncia no mundo
                                          protestante como tambm de reconhecido valor
                                          literrio.

                                           Sua obra - prima, O Peregrino, s perde para
                                           a Bblia em numero de exemplares vendidos e
influncia nos crculos cristos mais conservadores.

Todas as obras alegricas de Bunyan, incluindo esta, j foram livros muitos populares nos
pases de lngua inglesa, notadamente na Esccia e nos Estados Unidos. Os tempos
mudaram, os gostos mudaram, as idias mudaram, e os livros de Bunyan caram no
esquecimento. Vale a pena, entretanto, ler estas antigas alegorias no s pela sua beleza
literria, reconhecida pelos crticos desde o movimento romntico, mas tambm pela
natureza edificante das idias aqui presentes. Bunyan emociona e motiva, provoca a
reflexo e eleva o esprito humano  contemplao dos mistrios da f crist.
                                     John Bunyan
                                _____________________


Captulo 1
Comea o sonho do autor  Cristo, convencido do pecado, foge  ira vindoura e
Evangelista o dirige a Cristo.


Caminhando pelo deserto deste mundo, parei num stio onde havia uma caverna; ali deitei-
me para descansar. Em breve adormeci e tive um sonho.

Vi um homem coberto de andrajos, de p, e com as costas voltadas para a sua habitao,
tendo sobre os ombros uma pesada carga e nas mos um livro (Isaas 64:6; Lucas 14:33;
Salmo 38:4; Habacuque 2:2). Olhei para ele com ateno e vi que abria o livro e o lia; e, 
proporo que o ia lendo, chorava e estremecia, at que, no podendo conter-se por mais
tempo, soltou um doloroso gemido e exclamou: "Que hei de fazer?" (Atos 2:37 e 16:30;
Habacuque 1:2-3).

Neste estado voltou para sua casa, diligenciando reprimir-se o mais possvel, a fim de que
sua mulher e seus filhos no percebessem sua aflio. Como, porm, o seu mal
recrudecesse, no pde por mais tempo dissimul-lo, e, abrindo-se com os seus, disse por
esta forma:

"Querida esposa, filhos do corao, no posso resistir por mais tempo ao peso deste fardo
que me esmaga. Sei com certeza que a cidade em que habitamos vai ser consumida pelo
fogo do cu, e todos pereceremos em to horrvel catstrofe se no encontrarmos um meio
de escapar. O meu temor aumenta com a idia de que no encontre esse meio."

Ao ouvir estas palavras, grande foi o susto que se apoderou daquela famlia, no porque
julgasse que o vaticnio viesse a realizar-se, mas por se persuadir de que o seu chefe no
tinha em pleno vigor as suas faculdades mentais.

E, como a noite se avizinhava, fizeram todos com que ele fosse para a cama, na esperana
de que o sono e o repouso lhe sossegariam o crebro. As plpebras, no entanto, no se lhe
cerraram durante toda a noite, que passou em lgrimas e suspiros.

Pela manh, quando lhe perguntaram se estava melhor, respondeu negativamente, e que a
molstia cada vez mais o afligia. Continuou a lastimar-se, e a famlia, em lugar de se
compadecer de tanto sofrimento, tratava-o com aspereza. Esperava, sem dvida, alcanar
por este modo o que a doura no pudera conseguir at ali: algumas vezes zombavam dele;
outras repreendiam-no;e quase sempre o desprezavam.

S lhe restava o recurso de se fechar no seu quarto para orar e chorar a sua desgraa, ou o
de sair para o campo, procurando na orao e na leitura lenitivo a to indescritvel dor.



                                           -2-
                                       O Peregrino
                                  _____________________

Certo dia, em que ele andava passeando pelos campos, notei que se achava muito abatido
de esprito, lendo, como de costume, e ouvindo-o exclamar novamente: "Que hei de fazer
para ser salvo?"

O seu olhar desvairado volvia-se para um e outro lado, como em busca de um caminho para
fugir; mas, no o encontrando de pronto, permanecia imvel, sem saber para onde se
dirigir.

Vi, ento, aproximar-se dele um homem chamado Evangelista (Atos 16:30-31; J 33:23)
que lhe dirigiu a palavra, travando-se entre ambos o seguinte dilogo:

Evangelista  Por que choras?

Cristo  (Assim se chamava ele).  Porque este livro me diz que eu estou condenado 
morte, e que depois de morrer, serei julgado (Hebreus 9:27), e eu no quero morrer (J
16:21-22), nem estou preparado para comparecer em juzo! (Ezeq. 22:14).

Evangelista  E por que no queres morrer, se a tua vida  cheia de tantos males?

Cristo  Porque temo que este pesado fardo que tenho sobre os ombros, me faa enterrar
ainda mais do que o sepulcro, e eu venha a cair em Tofete (Isaas 30:33). E, se no estou
disposto a ir para este tremendo crcere, muito menos para comparecer em juzo ou para
esse suplcio. Eis a razo do meu pranto.

Evangelista  Ento, por que esperas, agora que chegaste a esse estado?

Cristo  Nem sei para onde me dirigir.

Evangelista  Toma e l. (E apresentou-lhe um pergaminho no qual estavam escritas estas
palavras: "Fugi da ira vindoura"). (Mateus 3:7).

Cristo  (Depois de ter lido). E para onde hei de fugir?

Evangelista  (Indicando-lhe um campo muito vasto). Vs aquela porta estreita? (Mateus
7:13-14).

Cristo  No vejo.

Evangelista  No avistas alm brilhar uma luz? (Salmo 119:105; II Pedro 1:19).

Cristo  Parece-me avist-la.

Evangelista  Pois no a percas de vista; vai direito a ela, e encontrars uma porta; bate, e l
te diro o que hs de fazer.


                                             -3-
                                      John Bunyan
                                 _____________________


Captulo 2
Vendo-se abandonado por Obstinado e Flexvel, prossegue Cristo a sua viagem. O
Pntano da Desconfiana.


Cristo deitou a correr na direo que lhe havia sido indicada; mas a mulher e os filhos, ao
verem-no fugir, seguiram atrs dele, suplicando que voltasse para casa. Cristo no lhes deu
ouvidos, e, continuando a carreira com mais velocidade, gritava em altas vozes: "Vida,
vida, vida eterna!" (Lucas 14:26). E, sem olhar para trs (Gn. 19:17; II Corntios 4:18),
continuou at ao meio da plancie. Acudiram tambm os seus vizinhos (Jeremias 20:10).
Uns zombavam dele, outros ameaavam-no, e outros ainda gritavam-lhe que voltasse. Entre
estes ltimos havia dois que estavam resolvidos a ir agarr-lo e traz-lo

 fora para casa. Chamavam-se Obstinado e Flexvel. Apesar da considervel distncia a
que se achava o fugitivo, os dois vizinhos, redobrando esforos, conseguiram alcan-lo.

 Que pretendeis de mim? Perguntou-lhes Cristo.

 Queremos que voltes conosco.

  impossvel, respondeu Cristo. A cidade em que habitais, e onde eu tambm nasci,  a
cidade da Destruio. Se l morrerdes, sereis enterrados num lugar mais fundo do que o
sepulcro, onde arde fogo e enxofre. Eia, pois, vizinhos, tomai bom nimo e vinde comigo.

Obstinado  Que dizes? Havemos de deixar os nossos amigos e as nossas comodidades?

Cristo  Certamente, amigo: porque tudo isso nada , em comparao com a mais
diminuta parte do que eu procuro gozar (Romanos 8:18). Se me acompanhardes, gozareis
de tudo isto juntamente comigo, porque no lugar para onde me dirijo h muito, e para todos
(Lucas 15:17). Vinde, e tereis a prova.

Obstinado  Mas que coisas so essas que procuras, em troca das quais abandonas tudo o
que h no mundo?

Cristo  Procuro uma herana incorruptvel, que no pode contaminar-se nem murchar (I
Pedro 1:4), reservada com segurana no cu (Hebreus 11:16), para ser dada, no devido
tempo, aos que a buscam diligentemente. Assim o declara o meu livro; lede, se quereis, e
convencer-vos da verdade.

Obstinado  Ora, deixa-te l dessa questo de livro; queres voltar para a tua casa, ou no?

Cristo  Isso nunca; porque j pus a mo no arado. (Luc 9:62).


                                            -4-
                                      O Peregrino
                                 _____________________


Obstinado  Nesse caso, vizinho Flexvel, deixemo-lo partir, e vamos ns para casa. H
muita gente a quem falta o juzo, em cuja cabea, encasquetando-se algo,  bastante para
que se julgue mais atilado do que os sete sbios da Grcia reunidos.

Flexvel  Nada de injrias. Se o que ele diz  verdade, no pode haver dvida de que as
coisas que busca alcanar so incomparavelmente superiores s que possumos. Diz-me o
corao que ele est muitssimo certo no que afirma, e eu me sinto inclinado a acompanh-
lo.

Obstinado  Ento, enlouqueceste tambm? Ora, toma o meu conselho, e vem para casa
comigo. Sabes l onde esse doido seria capaz de te levar? Anda da.

Cristo  Deixa-o falar, amigo Flexvel; acompanha-me e ters no s a prova do que j te
disse, mas ainda muito mais. Se duvidas da minha palavra, l este livro; daquele que  seu
Autor (Hebreus 9:17-21).

Flexvel  Amigo Obstinado, a minha resoluo est tomada; vou acompanhar este homem
e unir a minha sorte  sua. Mas sabes tu (dirigindo-se a Cristo) qual  o caminho que
conduz ao lugar que buscamos?

Cristo  Quem me indicou o caminho foi um homem chamado Evangelista. Segundo o
que me disse ele, havemos de encontrar uma porta estreita, l, mais adiante, e a nos diro o
caminho que havemos de seguir.

Flexvel  Ento, marchemos!

E ambos se puseram a caminho. Obstinado voltou sozinho para a cidade, censurando os
erros e as fantasias dos dois vizinhos. Estes continuaram a caminhar pela plancie afora e
conversavam nestes termos:

Cristo  Amigo Flexvel, ainda no tive ocasio de me informar da tua sade. No
imaginas quanta satisfao me causa a tua companhia. Se o pobre Obstinado sentisse, como
eu, o poder e os terrores do invisvel, e a grandeza das coisas que nos esperam, por certo
no se teria apartado de ns to levianamente.

Flexvel  Agora que estamos ss, explica-me o que so essas coisas de que me falas, como
havemos de as gozar e para onde  que nos dirigimos.

Cristo  Tenho mais facilidade em compreend-las com o entendimento do que em
express-las por palavras. Todavia, se tens grande desejo de saber o que penso a respeito
delas, ler-te-ei o meu livro.

Flexvel  E tens certeza de que as palavras do livro so verdadeiras?


                                            -5-
                                     John Bunyan
                                _____________________

Cristo  Tenho sim; porque o seu Autor  Aquele que no pode mentir (Tito 1:2).

Flexvel  Ento, l-mo.

Cristo  Entraremos na posse dum reino que no ter fim, e seremos dotados de vida
eterna, para podermos possu-lo para sempre (Isaas 65:17; Joo 10:27-29).

Ser-nos-o dadas coroas de glria, e vestidos to resplandecentes como o sol no firmamento
(II Tim.4:8;

Apocalipse 22:5; Mateus 13:43). No haver ali pranto nem dor (Isaas 25:8; Apocalipse
7:16-17, e 21:4), porque o Senhor daquele reino limpar todas as nossas lgrimas.

Flexvel  Quadro belo e magnfico! E a quem teremos por companheiros?

Cristo  Estaremos com os querubins e serafins (Isaas 6:2; I Tessalonicenses 4:16-17;
Apocalipse 5:11), criaturas cujo brilho nos deslumbrar; tambm encontraremos milhares e
milhares que para ali foram antes de ns, todos inocentes, amveis e santos, que vivem na
presena de Deus para sempre. Veremos os ancios com suas coroas de ouro (Apocalipse
4:4), as santas virgens entoando suaves cnticos ao som das suas harpas de ouro
(Apocalipse 14:1-5), homens a quem o mundo esquartejou, outros que foram queimados em
autos de f ou devorados pelas feras, ou lanados nas profundezas dos mares, por amor do
prncipe daquele reino; vivendo todos felizes, revestidos da imortalidade (Joo 12:25; II
Corntios 5:2, 3, 5).

Flexvel  A simples descrio arrebata-me de entusiasmo. E havemos de gozar esses bens?
Que faremos para conseguir partilhar deles?

Cristo  O Senhor do reino declara neste livro (Isaas 55:1-2; Joo 4:37; e 7:37;
Apocalipse 16:6; 22:17) quais so os requisitos; eles se resumem nestas palavras: "Se
verdadeiramente os desejamos, Ele no-los conceder de graa".

Flexvel  Muito bem, amigo. O meu corao exulta de alegria; continuemos o nosso
caminho e apressemos o passo.

Cristo  Infelizmente no posso andar to depressa como desejo, porque este fardo que
tenho s costas  pesadssimo.

Conversavam ambos nestes termos, quando os vi chegar  beira dum lodoso pntano, que
havia no meio da plancie, onde ambos caram por no o terem visto, entretidos como iam
na conversa. Era o pntano da Desconfiana. Coitados! Atolaram-se no lodo, e Cristo
atolava-se cada vez mais por causa do seu pesado fardo.  Onde  que ns estamos
metidos? Exclamou Flexvel.

 Ignoro, respondeu Cristo.

                                          -6-
                                     O Peregrino
                                _____________________


 Ento, replicou Flexvel, esta  a felicidade de que tens estado a falar? Se assim
comearmos a viagem, no posso agourar-lhe bom fim. Mas eu prometo que, se me vejo
livre desta, dispensarei de bom grado a parte que poderia pertencer-me do tal decantado
pas.

E fazendo um pequeno esforo, conseguiu alcanar a margem do pntano que ficava para o
lado de sua casa. Logo que se viu fora do perigo, deitou a correr na direo de sua casa, e
Cristo no mais tornou a v-lo.

Entretanto, debatia-se Cristo no meio do lodo, diligenciando por chegar  margem oposta;
mas o pesado fardo, que transportava, embaraava-o sobremaneira e ele teria
irremediavelmente perecido, se no tivesse chegado ali, muito a propsito, um sujeito
chamado Auxlio, que lhe perguntou o que fazia naquele lodaal.

Cristo  Senhor, um homem chamado Evangelista ensinou-me esta estrada para eu chegar
 porta estreita, dizendo que l me livrariam da ira vindoura. E, quando vinha caminhando,
aqui ca inesperadamente.

Auxlio  Bem. Mas por que no seguiste pelas alpendras, aquelas pedras que ali esto
colocadas para se atravessar o pntano com mais facilidade?

Cristo  Foi tal o receio que de mim se apoderou que, sem reparar em coisa alguma, segui
pelo caminho mais curto e ca no lodaal.

Auxlio  Vamos. D-me, pois, a tua mo.

Cristo viu os cus abertos. Apoderou-se da mo de Auxlio, saiu daquele terrvel lugar, e,
uma vez em terreno firme, continuou o seu caminho, conforme o seu libertador lhe havia
indicado.

Acerquei-me, ento, de Auxlio, e perguntei-lhe: Ora, sendo este caminho direito entre a
cidade da Destruio e essa porta, por que no mandam arranjar este lugar com mais
decncia para comodidade dos pobres caminhantes?

  impossvel, respondeu ele; este  o lodaal para onde afluem todas as fezes e
imundcies dos que se dirigem para a convico do pecado, por isso se chama o Pntano da
Desconfiana. Quando o pecador desperta no conhecimento das suas culpas e do seu estado
de perdio, surgem em sua alma dvidas, temores, apreenses desconsoladoras que se
ajuntam e se condensam neste lugar. Eis a razo por que ele  to esquecido e to
impossvel de ser melhorado. Por certo que no foi da vontade de el-rei que ele ficou em
to mau estado (Isaas 35:3-4). Muitos operrios tm, por ordem de Sua Majestade, e sob a
direo dos seus superintendentes, durante muitos sculos, envidado todos os seus esforos
para o melhorarem.  incalculvel o nmero de carro e os milhes de saudveis lies que
para aqui tm sido enviados de todas as partes e domnios de Sua Majestade. Mas, apesar

                                           -7-
                                      John Bunyan
                                 _____________________

da opinio dos entendidos que asseveram ser estes os melhores materiais para a obra do
almejado saneamento moral, ainda no foi possvel realiz-lo, nem o ser para o futuro. O
Pntano existe e continuar a existir! Fez-se quanto se podia fazer. Por ordem do
Legislador, foram colocadas no meio do pntano umas pedras fortes e slidas, por onde se
possa passar mais facilmente; mas, quando o lodaal se agita, o que sempre acontece nas
mudanas de tempo, exala miasmas que sufocam os viandantes, e estes, no vendo as
pedras, caem no atoleiro. O que lhes vale  que, quando conseguem alcanar a porta, j
encontram terreno bom e firme.

Depois vi que Flexvel chegava  sua casa e que os seus vizinhos acudiam, em tropel, para
o verem. Uns chamavam-no sbio, porque abandonara a tempo a empresa; censuravam-no
outros por se haver deixado iludir por Cristo, e alguns chamavam-no de covarde porque,
uma vez no caminho, no deveria ter retrocedido pelo fato apenas de lhes haverem
levantado umas pequenas dificuldades. Flexvel sentiu-se abatido e envergonhado, mas
pouco depois, achava-se senhor de si, e, ento, todos em coro escarneciam de Cristo, na sua
ausncia.

E assim sendo, creio que no tornarei a falar mais de Flexvel.




                                            -8-
                                     O Peregrino
                                _____________________

Captulo 3
Cristo abandona o caminho enganado por Sbio-Segundo-o-Mundo; mas Evangelista sai-
lhe ao encontro, e indica-lhe de novo o caminho a seguir


Cristo, apesar de se achar s, empreendeu a sua marcha resolutamente, e viu caminhar
para ele, no meio da plancie, um sujeito com quem pouco depois se encontrou no ponto em
que se cruzavam as diferentes direes em que marchavam. Este novo interlocutor
chamava-se Sbio-Segundo-o Mundo, e habitava numa cidade conhecida por Prudncia-
Carnal, situada a pouca distncia da cidade da Destruio. Tinha ele ouvido falar de
Cristo, pois a sua partida da terra natal tinha sido muito falada, e vendo-o agora caminhar
to fatigado devido ao fardo que conduzia, e ouvindo-lhe os gemidos e os suspiros, dirigiu-
se-lhe nos seguintes termos:

Sbio  Bem-vindo sejas, amigo! Aonde vais com este fardo to pesado?

Cristo  Dizes bem.  to pesado que nunca pessoa alguma carregou um peso assim.
Dirijo-me para a porta estreita, que vs alm, porque, segundo me disseram, l  onde me
comunicaro o modo de ver-me livre deste fardo.

Sbio  Tens mulher e filhos?

Cristo  Tenho, sim; mas este fardo preocupa-me e aflige-me tanto que j no sinto por
eles o prazer que possua outrora, e apenas tenho conscincia de os possuir. (I Corntios
7:29).

Sbio  Vamos; escuta-me, que posso dar-te muitos bons conselhos.

Cristo  Receb-los-ei com o maior gosto, pois preciso muito de bons conselhos.

Sbio  Em primeiro lugar, sou de parecer que te desfaas, quanto antes, desse peso.
Enquanto assim no fizeres, a tua alma no estar tranqila, nem poders gozar, como
deves, as bnos que o Senhor derramou sobre ti.

Cristo  Disso mesmo  que eu vou em busca, visto ser-me impossvel faz-lo por mim
mesmo, e no haver no pas quem seja capaz de o conseguir. Foi s com esse fim que eu
empreendi esta viagem.

Sbio  Quem te aconselhou a empreend-la?

Cristo  Um cavalheiro que me parece muito digno de respeito e de considerao.
Lembro-me de que se chamava Evangelista.



                                           -9-
                                      John Bunyan
                                 _____________________

Sbio  Maldito seja quem tais conselhos d! Este caminho  exatamente o mais difcil e
perigoso que h no mundo. No comeaste j a experiment-lo? Bem te vejo cheio de lodo
do Pntano da Desconfiana. E olha que esse no  seno o primeiro elo da cadeia de males
que por esse caminho te esperam. Sou mais velho do que tu, e tenho ouvido muitas pessoas
darem testemunho prprio de que por a afora s h fadigas, penas, fome, perigos, nudez,
lees, drages, trevas, em suma a morte com todos os seus horrores. Dize-me francamente,
para que se h de perder um homem por dar ouvidos a estranhos?

Cristo  Da melhor boa vontade sofreria todos os males que acabas de enumerar, em troca
de me ver livre deste fardo que  para mim mais pesado e mais terrvel do que todos eles.

Sbio  E como veio esse fardo para cima de ti?

Cristo  Lendo eu este livro que tenho na mo.

Sbio  Logo me quis parecer. s um desses imbecis que se metem em coisas elevadas
demais para eles, e que por fim encontram tantas dificuldades e perdem o juzo e so
arrastados a desesperadas aventuras para alcanarem um coisa que nem mesmo sabem o
que .

Cristo  Quanto a mim, sei perfeitamente o que quero: ver-me livre deste pesado fardo.

Sbio  Compreendo isto. Mas para que hs de ir por um caminho to perigoso, se eu posso
indicar-te outro em que no h nenhuma dessas dificuldades? Tem um pouco de pacincia,
e ouve-me: o meu remdio est  mo, e em vez de perigos, achars segurana, amigos, e
satisfao.

Cristo  Ento fala; peo-te com muita insistncia; descobre-me esse segredo.

Sbio  Olha: nessa aldeia prxima, que se chama Moralidade, vive um homem de muito
juzo e grande reputao, cujo nome  Legalidade, o qual  muito hbil em tratar pessoas
como tu, o que tem sido provado com numerosos exemplos; alm disso, tambm sabe curar
os indivduos que padecem do crebro. A casa dele fica daqui a um quarto de lgua, quando
muito, e, se ele no estiver em casa, seu filho, Urbanidade, que  um mancebo de grande
talento, poder servir-te to bem como seu pai. No deixes de l ir. E se no ests disposto,
como no deves estar, a voltar  tua cidade, manda buscar tua mulher e teus filhos, porque
na aldeia de que te falo h muitas casas devolutas, e podes arranjar uma por preo muito
mdico. Outra coisa boa a encontrars: vizinhos honrados, de fino trato e bons costumes.
A vida ali  muito barata e cmoda.

Ao ouvir estas palavras, Cristo ficou indeciso durante alguns momentos, mas logo lhe
acudiu este pensamento: - Se  verdade o que ele diz, a prudncia manda-me seguir as suas
palavras.

Cristo  Por onde  que se vai  casa desse honrado homem?

                                           - 10 -
                                     O Peregrino
                                _____________________


Sbio  Depois de passares aquela alta montanha, a primeira casa que encontrares  a dele.

Cristo mudou imediatamente de resoluo, para dirigir-se  casa do Sr. Legalidade, em
busca do remdio apetecido. Quando chegou s abas da montanha, pareceu-lhe esta to
elevada, e tanto a prumo no stio por onde tinha de passar, que teve medo de prosseguir,
temendo que ela se despenhasse sobre sua cabea. Parou sem saber que partido toMarcos
Sentiu, ento, mais do que nunca, o peso do seu fardo, vendo sair da montanha relmpagos
e chamas que ameaavam devor-lo (xodo 19:16-18). Assaltaram-no grandes temores e
estremeceu de terror (Hebreus 12:21). Ai de mim! Exclamava ele, para que havia eu de
fazer caso dos conselhos de Sbio-Segundo-o-Mundo? E, quando estava possudo destes
temores e remorsos, viu Evangelista que se aproximava. Que vergonha! Que
estremecimentos senti ao encontrar o olhar severo de Evangelista!

Evangelista  Que fazes por aqui?

Cristo no achou palavras para responder. A vergonha paralisara-lhe a lngua.

Evangelista  No foi a ti que eu encontrei a chorar fora dos muros da cidade da
Destruio?

Cristo  Foi a mim, sim, senhor.

Evangelista  Ento, como te perdeste to depressa do caminho que te ensinei?

Cristo  Assim que passei o Pntano da Desconfiana, encontrei um homem que me
persuadiu de que na aldeia vizinha encontraria um sujeito que me livraria do meu fardo.
Pareceu-me excelente pessoa, e tantas coisas me disse que eu cedi e vim at este lugar; mas
quando me aproximei do sop da montanha, e a vi to alta e to a prumo sobre a estrada,
parei subitamente, temendo que ela desabasse sobre mim.Este sujeito perguntou-me para
onde eu ia, ao que lhe respondi com a maior sinceridade. Quis tambm saber se eu tinha
famlia, e eu o afirmei, acrescentando, porm, que este fardo pesado me impedia de
encontrar nela a satisfao que outrora me proporcionava. Pois  disse-me ele   preciso
que, quanto antes, te livres desse tormento, e, em vez de te dirigires a essa porta estreita
onde esperas que te indiquem a maneira de conseguires esse rduo desejo, seguirs por uma
estrada mais direita e melhor, onde no encontrars tropeos, a cada passo, com menos
dificuldades que no outro caminho se encontram, como o sabes por experincia. Se
marchares nesta direo, chegars em pouco tempo  casa de um homem que  muito
entendido em tirar pesados fardos. Acreditei. E, de pronto, abandonei a estrada que tu me
havias indicado, e segui por esta, mas quando cheguei a este lugar em que nos achamos,
tive medo, estou indeciso e sem saber o que hei de fazer.

Evangelista  Espera um momento e ouve as palavras do Senhor (Cristo escutava-o, de p,
e tremendo): "Olhai, no desprezeis ao que fala; porque se no escaparam aqueles que
desprezavam ao que lhes falava sobre a Terra, muito menos ns outros, se desprezarmos ao

                                           - 11
                                       John Bunyan
                                  _____________________

que nos fala do cu." (Hebreus 12:25). "O justo viver da f; mas se ele se apartar, no
agradar  minha alma." (Hebreus 10:38). E aplicando estas palavras a Cristo, disse: Esse
homem que se ia precipitando na runa eras tu. Comeaste a pr  parte o conselho do
Altssimo, e a retirar o teu p do caminho da paz, a ponto de te expores a perder-te.

Cristo caiu-lhe aos ps, quase desfalecido, exclamando: Ai de mim, que estou morto!

A estas palavras Evangelista estendeu-lhe a mo, dizendo-lhe: "Todo o pecado e blasfmias
sero perdoados aos homens." (Mateus 12:31). "No sejas incrdulo, mas crente." (Joo
20:27).

Algum tanto mais animado, Cristo levantou-se, mas sempre envergonhado e trmulo.

Evangelista prosseguiu: Presta ateno ao que vou dizer-te: vais saber quem foi que te
enganou, e para quem te ias dirigindo. O primeiro era Sbio-Segundo-o-Mundo, nome que
muito apropriadamente usa: antes de tudo, porque s gosta das doutrinas deste mundo (I
Joo 4:5), pelo que vai sempre  igreja da cidade da Moralidade, e gosta dessa doutrina,
porque ela o livra da cruz (Glatas 6:2); em segundo lugar, porque sendo carnal o seu
temperamento, procura perverter os meus retos desgnios. Por isso h trs coisas nos
conselhos que esse homem te deu, as quais devem ser execrandas para ti:

1.  Haver-te desviado do caminho;

2.  Haver-te tentado fazer com que aborreas a cruz;

3.  Haver-te encaminhado por essa vereda que conduz  morte.

Deves, portanto:

1.  Repudiar a quem te desviou do caminho, erro em que caste, e que equivale a
desprezar o conselho de Deus para seguir o do homem. O Senhor disse: "Porfiai em entrar
pela porta estreita." (Lucas 13:24). Para essa porta  que te dirigias. "Porque estreita  porta
que conduz  vida, e poucos so os que acertam com ela." (Mateus 7:13-14). Esse malvado
desviou-te daquela porta, e do caminho que a ela vai ter, para lanar-te na perdio. Odeia,
pois, o seu procedimento, odianto-te tambm a ti mesmo por lhe haveres prestado ouvidos.

2.  Detestar aquele que diligenciou que a Cruz te repugnasse, porque deves preferi-la a
todos os tesouros do Egito (Hebreus 11:25-26). Alm do que, o Rei da Glria disse-te que
"aquele que salvar a sua vida perd-la-" e "se algum vem aps mim e no aborrece seu
pai e sua me, filhos, irmos e mulher e irms, e a sua prpria vida, no pode ser meu
discpulo" (Marcos 8:35; Lucas 14:26-27; Joo 12:25; Mateus 10:37-39). Por isso te digo
que uma doutrina que busca persuadir-te de que  morte aquilo que a Verdade disse que 
indispensvel para se obter a vida eterna,  uma doutrina abominvel e que deves detestar.



                                             - 12 -
                                      O Peregrino
                                 _____________________

3.  Aborrecer aquele que te encaminhou para a senda que conduz ao mistrio da morte.
Agora podes calcular se a pessoa a quem te dirigias, seria capaz de te livrar do teu fardo.

Essa pessoa chama-se Legalidade, e  um dos filhos da escrava, que ainda est na
escravido, assim como seus filhos (Glatas 4:21-27), misteriosamente representada pelo
monte Sinai, que tu receaste iria cair sobre ti. Ora, se ele e seus filhos esto na escravido,
como poderias tu esperar que te dessem a liberdade? Oh! Nunca! No seria capaz
Legalidade de te libertar, de livrar-te do fardo. Nunca livrou pessoa alguma, nem poder
jamais faz-lo. No podes ser justificado pelas obras da lei, porque por elas nenhum vivente
pode ser aliviado da sua carga. Fica, pois, sabendo que Sbio-Segundo-o-Mundo  um
embusteiro e Legalidade, apesar do seu sorriso afetado, no passa de um hipcrita, sem
prstimo para coisa alguma. Cr que tudo quanto ouviste a esses insensatos no foi mais do
que uma tentativa para te afastar da salvao, desviando-te do caminho que te havia
indicado.

Assim falou Evangelista, e, erguendo a voz, pediu aos cus que confirmassem quanto havia
dito. No mesmo instante saram palavras de fogo da montanha de que se aproximara
Cristo, cujos cabelos se eriaram.As palavras que ele ouviu eram estas: "Porque todos
quantos so das obras da lei esto debaixo da maldio; porque est escrito: Maldito todo o
que no permanecer em todas as coisas que esto escritas no livro da lei, para faz-las."
(Glatas 3:10).

Ao ver e ouvir isto, Cristo no esperava seno a morte. Comeou a lamentar-se em altos
gritos, e a maldizer a hora em que encontrara Sbio-Segundo-o-Mundo, chamando-se
mesmo de nscio por ter dado ouvido aos seus conselhos destruidores e perversos.

Era imensa a sua vergonha ao lembrar-se que os conselhos daquele insensato, sendo
nascidos da carne, tinham podido prevalecer sobre o seu modo de pensar, a ponto de se ter
resolvido a abandonar o caminho do Bem. Voltando ento para Evangelista, falou-lhe nos
seguintes termos:

Cristo  Senhor, haver alguma esperana para mim? No poderei voltar para trs e tomar
de novo o caminho da porta estreita? No serei abandonado e expulso dali com infmia?
Pesa-me, sobretudo, haver escutado as palavras desse homem. Poderei, todavia, obter
perdo para o meu pecado?

Evangelista  Na verdade que o teu pecado  bem grande. Levou-te a praticar duas aes
ms: apartaste-te do caminho do bem, e entraste nas veredas proibidas. No obstante, o
homem que est  porta, receber-te-, porque h nele boa vontade para com os homens.
Uma s coisa advirto: toma cuidado em no te extraviares outra vez, para que no suceda
pereceres no meio do caminho (Salmo 2:12).

Cristo disps-se a partir e, tendo beijado Evangelista, despediu-se dele com um sorriso de
felicidade, dizendo: Deus seja contigo.


                                             - 13
                                    John Bunyan
                               _____________________

E comeou a andar apressadamente, no falando com pessoa alguma no caminho, nem
ainda mesmo respondendo s perguntas que lhe dirigiam.

Parecia que pisava terreno inimigo, e s se considerou a salvo quando tornou a entrar no
caminho que havia abandonado por conselho do enfatuado Sbio-Segundo-o-Mundo.




                                         - 14 -
                                       O Peregrino
                                  _____________________

Captulo 4
Cristo chega  porta estreita; pede o cumprimento da promessa evanglica, bate e 
recebido com afabilidade


Pouco depois chegava Cristo, felizmente, ao p da suspirada porta estreita, sobre a qual
estava escrito o seguinte dstico: "Bata que eu abro". (Mateus 7:7).

Bateu repetidas vezes, dizendo: Ser-me- permitido entrar agora? Aquele que est dentro
ter vontade de receber-me, a mim, miservel pecador? Apesar de eu ter sido rebelde,
cantarei eternamente os seus louvores nas alturas.

Por fim veio  porta uma pessoa chamada Boa-Vontade, e perguntou: Quem s? Donde
vens? Que pretendes?

Cristo  Senhor, sou um pecador, cansado e carregado. Venho da cidade da Destruio, e
dirijo-me ao Monte Sio para escapar  ira vindoura. Disseram-me, honrado homem, que
para seguir o meu caminho devia entrar por esta porta; e desejo saber se ds licena que
entre.

Boa-Vontade  Ora essa! Com todo o gosto. - E, dizendo isto, abriu-lhe a porta.

Quando Cristo ia entrando, Boa-Vontade puxou-o com fora para dentro.

Cristo  Que significa isto?

Boa-Vontade  H aqui perto um castelo, cujo governador  belzebu, que juntamente com
os seus soldados, est continuamente despedindo setas contra aqueles que se aproximam
desta porta, a fim de os matar antes que entrem.

Cristo  Alegro-me tanto quanto tremo em saber que estive em tamanho risco.

Boa-Vontade  Agora que j ests livre e sossegado, responde ao que te pergunto:Quem te
mandou para aqui?

Cristo  O senhor Evangelista, que me disse: Vai ali, e bate  porta; l ensinar-te-o o que
te convm fazer.

Boa-Vontade  Tens aberta uma porta que ningum poder fechar-te.

Cristo  Quo venturoso sou! Comeo a colher o fruto da minha ousadia.

Boa-Vontade  Ento, vieste s?


                                            - 15
                                     John Bunyan
                                _____________________


Cristo  Vim; porque nenhum dos meus vizinhos conheceu, como eu, o perigo em que se
achava.

Boa-Vontade  Mas souberam alguns da tua vinda?

Cristo  Primeiro dela souberam minha mulher e meus filhos, que no queriam deixar-me
partir; e s vozes destes acudiram vrios vizinhos que tambm em altos gritos me
chamavam; mas eu tapei os ouvidos e segui o meu caminho.

Boa-Vontade  E ningum te seguiu para te aconselhar a voltares para casa?

Cristo  Seguiram-me Obstinado e Flexvel, mas quando se convenceram da inutilidade
dos seus esforos, deixaram-me  o primeiro, cobrindo-me de improprios e o segundo
pouco depois.

Boa-Vontade  E por que no veio esse contigo?

Cristo  Quando chegamos ao Pntano da Desconfiana, camos ambos no lodo, e foi tal o
susto do meu vizinho que no se atreveu a expor-se a outros perigos. Saiu da lagoa pela
banda que ficava mais prxima de sua casa, dizendo-me que me deixava a posse plena do
bendito pas. Depois seguiu nas pisadas de Obstinado e eu continuei o meu caminho na
direo desta porta.
Boa-Vontade  Quo desgraado  este teu vizinho! A glria celestial tem para ele to
diminuto valor que lhe parece no valer a pena arriscar-se a alguns perigos para a alcanar.

Cristo  Senhor,  verdade quanto eu disse de Flexvel; mas se compararmos o seu
procedimento com o meu... no sei qual deles ser o pior. Eu tambm me apartei deste
caminho para seguir o da morte, porque dei ouvidos aos argumentos carnais dum sujeito
chamado Sbio-Segundo-o-Mundo.

Cristo  Segui-o, enquanto tive foras. Ia em busca do tal senhor Legalidade; mas quando
cheguei ao p da montanha que fica prxima de sua casa, tive medo de que ela desabasse
sobre mim e detive-me.

Boa-Vontade  Ah!  incalculvel o nmero de mortes que essa montanha tem  sua conta!
E quantas causar ela ainda! Feliz s tu, que escapaste de ser esmagado por ela.

Cristo  Verdade, verdade, quem sabe o que teria sido de mim, se naquele momento de
incerteza e receio, no me tivesse aparecido Evangelista. Se no fora ele, nunca aqui eu
teria chegado. Mas, por felicidade, aqui me acho tal qual sou, e certamente mais digno de
ter sido esmagado pela montanha do que estar falando contigo. Grande favor me fizeste em
abrir a porta, depois de tudo quanto te hei contado.



                                           - 16 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

Boa-Vontade  A ningum levantamos dificuldades, qualquer que tenha sido a sua vida
anterior. A ningum lanamos fora (Joo 6:37). Vou dar-te alguns esclarecimentos acerca
do caminho que hs de seguir. Olha l para diante. Vs um caminho estreito?  por ali que
deves ir. Por ele passaram os Patriarcas, os Profetas, Cristo e os Apstolos:  um caminho
to direito como uma linha reta.

Cristo  Ento no tem voltas e desvios por onde se perca um forasteiro?

Boa-Vontade  Sim, tem muitas encruzilhadas, e muitos atalhos bastante largos; mas a
regra para distinguir o verdadeiro caminho  esta: sempre reto e estreito (Mateus 7:14).

Segundo observei no meu sonho, perguntou-lhe depois:

Cristo  No poderei ser aliviado do peso deste fardo que trago s costas? Se algum no
me ajuda, no me ser possvel ir adiante.

Boa-Vontade  No desanimes. Continua a levar o teu fardo alegremente, at chegares ao
lugar em que hs de ver-te livre dele, pois que por si mesmo te cair dos ombros.

Cristo comeou a cingir-se, preparando-se para a marcha. Boa-Vontade avisou-lhe de que
brevemente encontraria a casa de Intrprete, onde devia bater e ouvir coisas muito teis e
excelentes; e despediu-se carinhosamente de Cristo, desejando-lhe prspera viagem e a
companhia do Senhor.




                                           - 17
                                      John Bunyan
                                 _____________________

Captulo 5
Cristo em casa de Intrprete. Coisas que l viu; um bom ministro do Evangelho;
regenerado pela f dum corao por natureza corrompido; a melhor escolha; a vida
espiritual sustentada pela graa; a perseverana; a apostasia; o juzo final.


Ps-se Cristo a caminho com muito nimo, e dentro de pouco tempo, chegava  casa de
Intrprete. Bateu  porta repetidas vezes, at que lhe perguntaram quem era.

Cristo  Sou um viajante enviado por um conhecido do dono desta casa, a fim de saber
coisas proveitosas. Desejava, portanto, falar ao dono da casa.

Este apareceu imediatamente, e dirigindo-se ao viajante, perguntou-lhe:

Intrprete  Que pretendes?

Cristo  Senhor, eu venho da cidade da Destruio e dirijo-me para o monte Sio. O
homem que est  porta da entrada do caminho disse-me que eu devia passar por esta casa,
e que me ias mostrar muitas coisas excelentes e proveitosas para a minha viagem.

Intrprete  Podes entrar. Sero cumpridos os teus desejos.

Em seguida ordenou a um de seus criados que acendesse uma luz, e tomando pela mo o
viajante, introduziu-o numa sala. Abriu depois uma porta, e Cristo viu, pregado na parede,
o retrato duma personagem grave e majestosa dos livros na mo e a lei da verdade escrita
nos seus lbios; voltava as costas ao mundo, e estava na atitude de instar com os homens;
uma coroa de ouro estava pendente sobre a sua cabea. Dirigindo-se a Cristo, que no
percebia o que significava aquele quadro, disse-lhe:

Intrprete  Este  um entre mil. Este pode tomar para si aquelas palavras do Apstolo:
"Porque, ainda que tenhais dez mil aios em Cristo, no tereis, todavia, muitos pais; pois eu
sou o que vos gerou em Cristo pelo Evangelho. Filhinhos meus, por quem eu de novo sinto
as dores de parto." (I Corntios 4:15; Glatas 4:19). E o apresentar-se com os olhos
levantados para o cu, o melhor dos livros na mo, e lei da verdade escrita em seus lbios, 
para te mostrar que se ocupa em conhecer e explicar coisas obscuras para os pecadores; e
por isso est de p, na atitude de quem trata de convenc-los. Tem o mundo atrs das
costas, e uma coroa de ouro pendente sobre sua cabea para te significar que, desprezando e
fazendo pouco caso das coisas deste mundo, por causa do servio do seu Senhor, ter como
recompensa, no sculo futuro, uma coroa de glria. Principiei por te mostrar este quadro,
porque a personagem aqui representada  a nica autorizada pelo Senhor do lugar para onde
te diriges, para te guiar em todos os passos difceis que hs de encontrar no teu caminho.
No te esqueas do que te ensinei nem do que viste, porque talvez encontres na tua viagem
algum que, inculcando-se guia, te queira encaminhar para a morte.


                                           - 18 -
                                     O Peregrino
                                _____________________


Depois pegou-lhe na mo e conduziu-o a uma sala cheia de poeira, porque nunca fora
varrida, e, tendo ordenado a um dos criados que a varresse, levantou-se tal nuvem de poeira
que Cristo ia ficando sufocado. Disse Intrprete ento a uma jovem, que os acompanhava,
que borrifasse a casa com gua, e assim pde varrer-se a casa sem dificuldade.

Cristo  Que significa isto?

Intrprete  A sala representa um corao que nunca foi santificado pela doce graa do
Evangelho; a poeira  o pecado original e a corrupo interior, que contamina todos os
homens; o que principiou a varrer  a lei, e a jovem que trouxe a gua e borrifou a sala  o
Evangelho. Certamente notaste, quando o primeiro comeou a varrer, que se levantou tanto
p que foi absolutamente impossvel continuar, e estiveste quase a ser asfixiado: isto
significa que a lei, em lugar de limpar os coraes do pecado, f-lo reviver cada vez mais
(Romanos 7:9), d-lhe fora (I Corntios 15:16), e f-lo medrar na alma (Romanos 5:20), ao
mesmo tempo que o denuncia e o prescreve, sem dar a fora necessria para o vencer. O
fato de ter sido possvel varr-lo e limp-lo depois de o ter a jovem regado, significa que,
quando o Evangelho entra no corao, vence e subjuga o pecado com a sua doce e preciosa
influncia. Limpa a alma que nele cr e torna-a digna de ser habitada pelo Rei da Glria
(Joo 15:3; Romanos 3:25-26; Efsios 5:26; Atos 15:29).

Vi mais em meu sonho, que o Intrprete tomou, em seguida, a mo do Peregrino e
conduziu-o a um pequeno quarto onde estavam dois meninos sentados; o mais velho
chamava-se Paixo e o mais novo Pacincia; o primeiro estava muito inquieto, e o segundo
muito sossegado. Aquele, disse Intrprete, no se resigna a esperar, at ao princpio do ano
futuro, pela posse das coisas que mais estima, como lhe aconselha o seu preceptor; queria
possu-las j, e como no pode consegui-lo, est inquieto. Pacincia, porm, resigna-se e
espera.

Naquele momento vi entrar um homem com um saco de dinheiro, que colocou aos ps de
Paixo. Este recebeu-o com grande interesse e alegria, dirigindo a Pacincia um sorriso de
escrnio, mas a sua alegria foi pouco duradoura, porque o dinheiro depressa se gastou; nada
mais restou a Paixo do que uns miserveis andrajos.

Intrprete  Paixo  a imagem dos homens deste mundo, e Pacincia a dos homens do
sculo futuro. Paixo quer possuir e gozar tudo agora, neste mesmo ano, isto , neste
mundo,  semelhana dos homens que querem gozar tudo quanto se lhes afigura melhor, e
nada desejam para o mundo futuro, ou para a outra vida. O conhecido provrbio  mais vale
um pssaro na mo que dois voando,  para eles de muito mais valor do que todos os
testemunhos divinos acerca da felicidade futura. E que lhes acontece? Assim como a Paixo
s ficaram uns andrajos depois de gasto o dinheiro, assim a eles suceder.

Cristo  Compreendo perfeitamente que Pacincia  muito mais sensato: 1. Porque aspira
as coisas mais excelentes, e 2 porque h de goz-las e ter nelas a sua glria, quando aos
outros s restarem andrajos.

                                           - 19
                                      John Bunyan
                                 _____________________


Intrprete  E, ao que disseste, deves acrescentar que a glria do sculo futuro ser eterna,
enquanto que os bens deste sculo se dissipam como fumo. Quem tem incontestvel direito
para se rir de Paixo  Pacincia: porque ter finalmente a sua felicidade, ao passo que
Paixo a tem agora. O primeiro h de ceder necessariamente o campo ao ltimo, enquanto
que este a ningum ter que ceder, porque ningum se lhe segue. O que recebe o seu
quinho do presente gasta-o no tempo, at que nada lhe reste, e o que o recebe no final
conserva-lo- para sempre, porque no h haver mais tempo em que possa gast-lo.

Assim como dito ao rico avarento: "Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua
vida, e que Lzaro no teve seno males; mas por isso est ele agora consolado e tu em
tormentos." (Lucas 16:25).

Cristo - Visto isso, percebo que  melhor no cobiarmos as coisas presentes, e ter
esperana nas futuras.

Intrprete - Assim : "As coisas que se vem so temporais, mas as que se no vem so
eternas" (II Corntios 4:18). Acontece, porm, que, havendo grande afinidade entre as
coisas presentes e os nossos apetites carnais, prontamente se tornam amigos; o que no
sucede com ais coisas futuras, que to longe esto do sentido da carne (Romanos 7:15-25).




                                           - 20 -
                                      O Peregrino
                                 _____________________

Captulo 6
Cristo chega  cruz. Cai-lhe o fardo dos ombros,  justificado, e recebe um vesturio e um
diploma de adoo na famlia de Deus.


O meu sonho continuava. Vi Cristo marchando por uma estrada que, de ambos os lados,
era protegida por duas muralhas, chamadas Salvao (Isaas 26.1).  certo que ia
caminhando com muita dificuldade, por causa do fardo que levava s costas, mas o seu
passo era rpido e seguro; vi-o chegar a um pequeno monte onde se erguia uma cruz, junto
 qual, e um pouco mais abaixo, estava uma sepultura. Ao chegar  cruz, soltou-se-lhe o
fardo, instantaneamente, de sobre os ombros, e, rolando, foi cair na sepultura, donde no
tornar jamais a sair.

Quo aliviado e jubiloso ficou Cristo! Bendito seja Aquele que, com os seus sofrimentos,
me deu descanso, e com a sua morte me deu a vida! Exclamou ele, e ficou por alguns
momentos como exttico, ao ver o grande benefcio que a cruz acabava de fazer-lhe; olhava
para um e para outro lado, cheio de assombro, at que o seu corao se expandiu em
abundantes lgrimas (Zacarias 12.10). Chorava, quando diante dele apareceram trs seres
resplandecentes, que o saudaram com: a Paz seja contigo! E logo o primeiro dos trs lhe
disse: "Perdoados te so os teus pecados" (Marcos 2.5). O segundo, despojando-o dos
vestidos imundos que trazia, vestiu-lhe um traje de gala (Zacarias 3.4), e o terceiro, pondo-
lhe um sinal na fronte (Efsios 1.13), entregou-lhe um diploma selado, sobre o qual deveria
pensar pelo caminho, e entreg-lo quando chegasse  Cidade Celestial. Ao ver todas estas
coisas, Cristo experimentou imensa alegria, e continuou o seu caminho cantando, pouco
mais ou menos, estas palavras:

Oprimido andei sempre sob o peso de meus pecados, sem encontrar lenitivo ao meu
sofrimento, at que cheguei a este lugar. Onde estou eu? Oh! Aqui  por certo o princpio
da minha bem-aventurana, visto que aqui se quebraram os laos que me prendiam aos
ombros o fardo que me oprimia. Eu te sado,  cruz bendita! Bendito sejas, santo sepulcro!
Bendito seja para sempre Aquele que em ti foi sepultado pelos meus pecados.




                                            - 21
                                      John Bunyan
                                 _____________________

Captulo 7
Cristo encontra Simples, Preguia e Presuno, entregues a profundo sono;  desprezado
por Formalista e por Hipocrisia; sobe o Desfiladeiro da Dificuldade; perde o diploma e
torna a ach-lo.


Terminada esta cena, Cristo continuou o seu caminho, e, ao descer a encosta do monte em
cujo cimo tiveram lugar os acontecimentos que deixou relatados, viu, a pequena distncia
da estrada, trs indivduos chamados Simples, Preguia e Presuno, entregues a profundo
sono e com os ps ligados por cadeias de ferro. Dirigiu-se a eles para os acordar, e bradou-
lhes: Despertai, que sois como os que dormem no topo dum mastro (Provrbios 23.24),
tendo aos ps o mar morto, que  um abismo sem fundo. Erguei-vos e vinde comigo, que
vos ajudo a livrar-vos dessas cadeias, porque, se passa por aqui o leo rugidor, caireis por
certo nas suas terrveis garras (I Pedro 5.8). Todos os trs acordaram; olharam para Cristo,
mas nenhum caso fizeram do que ele dizia. No vejo que haja perigo algum, disse Simples.
Deixe-me dormir um bocado, acrescentou Preguia, e Presuno disse-lhe que no se
metesse com a sua vida e deixasse estar quem estava sossegado. E continuaram a dormir,
deixando Cristo seguir estrada em fora. Este continuou a andar, posto que triste e pesaroso
por ver aqueles homens, em perigo to iminente, recusaram-se, com tal pertincia, a aceitar
o generoso oferecimento que lhes fizera, de os ajudar a livrar-se das cadeias, depois de os
haver acordado do seu funesto sono e de lhes dar conselhos salutares.

Entregue a estes pensamentos, caminhava Cristo: eis seno quando, com grande surpresa
sua, viu saltar do muro que protegia o caminho estreito, dois homens que, aparentemente,
se dirigiam para ele; chamavam-se Formalista e Hipocrisia. Chegados que foram ao p de
Cristo, travou-se entre eles o seguinte dilogo:

Cristo - Donde vindes, senhores, e para onde ides?

Formalista e Hipocrisia - Somos naturais da terra da Vanglria, e vamos em busca de
louvores ao monte Sio.

Cristo - Mas como no entrastes pela porta que est no princpio da estrada? Ignorais que
est escrito: O que no entra pela porta, no aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte,
esse  ladro e salteador? (Joo 10.1).

Formalista e Hipocrisia - O povo do nosso pas considera, e com razo, que  preciso fazer
um grande rodeio para chegar  porta, e sabe que  mais fcil saltar o muro.  verdade que,
procedendo deste modo, transgridem a vontade revelada do Senhor, mas esto nesse
costume h mais de mil anos, e bem sabeis que o costume faz a lei. No pode haver dvida
de que se esta questo fosse levada perante um tribunal, um juiz imparcial seria a nosso
favor. Demais, do que se trata  de entrar no caminho; por onde se entra  o de menos. Vs



                                           - 22 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

entrastes pela porta, ns saltamos o muro: mas o certo  que todos estamos no caminho, e
no compreendemos que haja vantagem do vosso lado.

Cristo - No posso concordar convosco. Eu sigo a regra estabelecida pelo Amo, e vos
deixais guiar pelo impulso dos vossos caprichos, sendo considerados, com toda a razo,
pelo Senhor do caminho, como uns salteadores. Estou certssimo de que no fim da vossa
viagem no sereis tidos na conta de homens de f e de verdade. Entrastes sem a anuncia do
Senhor, saireis sem a sua misericrdia.

Formalista e Hipocrisia - Pode ser muito verdade tudo quanto dizeis, mas o melhor  cada
um tratar de si e deixar os outros em paz. Ficai sabendo que guardamos as leis e os
mandamentos, to escrupulosamente como vs, e a nica diferena que entre ns existe 
apenas esse vestido que trazeis, provavelmente porque algum vo-lo deu, para cobrir a
vergonha da vossa nudez.

Cristo - Enganai-vos redondamente, se supondes que vos salvaro as leis e os
mandamentos, e no entrastes pela porta estreita (Glatas 2.16). Este vestido, que chamou a
vossa ateno, deu-mo o Senhor, para com ele cobrir a minha nudez, e tenho-o por uma
grande prova da sua bondade, pois dantes no possua seno andrajos. Quando chegar 
porta da cidade, Ele h de reconhecer-me como bom e merecedor de l entrar, por este
vestido de que me fez presente no dia em que me limpou da minha misria. Alm disso,
trago na fronte um sinal, que talvez ainda no notastes, o qual me foi imposto por um dos
amigos mais ntimos do Senhor, no dia em que dos meus ombros caiu o fardo que to
oprimido me trazia. E tambm tenho um diploma selado, que igualmente me deram, com o
duplo fim de me consolar a sua leitura durante a jornada e de me servir de apresentao
para ser admitido na Cidade Celestial. Desconfio que todas estas coisas vos ho de fazer
falta, e no as tendes porque no entrastes pela porta.

Eles no responderam a estas observaes de Cristo; to somente olharam um para o outro
e sorriram. Depois que todos os trs seguiram pelo caminho, Cristo ia na frente, falando
consigo mesmo, ora triste, ora consolado e satisfeito, e lendo de vez em quando o diploma
que recebera e que tanto vigor lhe proporcionava.

Assim chegaram ao p dum desfiladeiro onde havia uma fonte e, alm do caminho que
comea na porta, mais duas veredas, chamadas Perigo e Morte Eterna. O caminho que
atravessava o desfiladeiro chamava-se Dificuldade. Cristo chegou-se  fonte (Isaas 55.1),
bebeu e refrigerou-se. Comeou depois a subir o desfiladeiro pelo caminho Dificuldade,
dizendo: O caminho  ngreme e spero, mas vai direto  vida:  preciso envidar nesta
empresa todo o esforo e deciso. nimo, corao meu, no te assustes nem vaciles; 
melhor seguir pelo caminho verdadeiro, apesar de escabroso, do que tomar pelo mais fcil,
que conduz  eterna desgraa!

Os outros caminhantes chegaram tambm ao princpio do desfiladeiro, mas quando
contemplaram aqueles penhascos e alcantis, e viram que havia mais dois caminhos muito
mais fceis, que provavelmente iam terminar ao mesmo stio em que acabava aquele por

                                           - 23
                                     John Bunyan
                                _____________________

onde Cristo seguia, resolveram tomar cada um pelo seu. Assim, foi um pelo caminho
Perigo, indo enterrar-se num tenebroso bosque; o outro foi por Morte Eterna, que o
conduziu a um extenso campo, cheio de negras montanhas, onde tropeou e caiu para no
mais se erguer.

Volvi o meu olhar para Cristo, a fim de o contemplar na sua perigosa ascenso.

Que trabalhos! Que fadiga a sua! No podia correr, e ocasies havia em que at o andar lhe
era difcil, tendo de ajudar-se com as mos. Por felicidade, havia,  meia-encosta, um lugar
de descanso, preparado pelo Senhor do caminho para o conforto e refrigrio dos viajantes
fatigados. Chegando ali, Cristo sentou-se a descansar. Tirou do bolso o seu diploma, para
se recrear e consolar com a sua leitura, e para examinar o vestido que lhe tinham dado ao p
da cruz. Mas, enquanto descansava, sobreveio-lhe o sono, durante o qual o diploma lhe caiu
das mos, e s acordou perto da noite. Ainda estava adormecido, quando algum se
aproximou e lhe disse: "Vai ter,  preguioso, com a formiga, e considera os seus
caminhos, e aprende dela a sabedoria!" (Provrbios 6.6). A esta advertncia acordou e
levantou-se imediatamente, continuando a sua marcha, com maior pressa, at chegar ao
cume do monte.

Quando l ia chegando, saram-lhe ao encontro Timorato e Desconfiana, que retrocediam,
correndo. Por que voltais para trs? Perguntou-lhes Cristo.

Timorato  Ns amos para a cidade de Sio, tendo j vencido as dificuldades deste
desfiladeiro; mas,  medida que avanvamos, amos encontrando as maiores dificuldades,
a ponto de nos parecer mais prudente retroceder e abandonar a empresa.

Desconfiana   a pura verdade. A pequena distncia daqui encontramos dois lees na
estrada; se dormiam ou velavam no sabemos, mas tememos aproximar-nos, porque
poderiam fazer-nos em pedaos.

Cristo  As vossas palavras atemorizam-me; mas para onde irei fugir, com segurana? Se
volto para o meu pas,  certa a minha desgraa, porque aquela terra est condenada ao fogo
e ao enxofre; mas, se consigo alcanar a Cidade Celestial, ficarei seguro para sempre.
Avante, pois, tenhamos confiana! Retroceder  ir ao encontro da morte certa; avanar 
apenas temer a morte, mas com a vida eterna em perspectiva. Avante, pois!

E continuou seu caminho, ao tempo que Timorato e Desconfiana iam j monte abaixo.

As palavras, porm, daqueles dois indivduos preocupavam-no, e, para se animar e
consolar, procurou no peito o diploma, mas no o encontrou! Grande foi a sua aflio e
embarao, por lhe faltar aquele diploma que tanto o consolava e era o seu salvo-conduto
para entrar na Cidade Celestial. Recordou-se, ento, de ter dormido no caminho e, caindo
de joelhos, pediu perdo ao Senhor, e voltou atrs, em busca do documento que perdera.
Pobre Cristo! Quem poder exprimir a amargura que ia na alma? Suspirava, derramava
abundantes lgrimas, e a si mesmo se exprobava por haver cometido a loucura de se ter

                                           - 24 -
                                      O Peregrino
                                 _____________________

deixado vencer pelo sono num lugar unicamente destinado a descanso e refrigrio. Olhava
cuidadosamente para um e outro lado do caminho, procurando o seu diploma, e assim
chegou ao stio onde adormecera. Ali, a sua dor tornou-se mais intensa, e agravou-se a
chaga do seu pesar, contemplar o local que lhe recordava uma desgraa to sensvel
(Apocalipse 2.4-5; I Tessalonicenses 5.6). Prorrompeu nos seguintes lamentos: Miservel e
desgraado que sou! Deixar-me adormecer durante o dia! Adormecer no meio de tantas
dificuldades! Condescender assim como a carne, e dar-lhe descanso num lugar unicamente
destinado para o repouso momentneo dos viajantes! Assim aconteceu aos israelitas, que,
pelos seus pecados foram obrigados a voltar pelo caminho do Mar Vermelho! Infeliz de
mim! Que me vejo na necessidade de dar estes passos com tanto sofrimento, o que no
aconteceria se no tivesse cedido a esse sono do pecado! Como eu iria a esta hora adiantado
no meu caminho! Ver-me obrigado a percorrer trs vezes o espao que s uma vez devia ter
andado; e, o que  pior ainda, ser provavelmente surpreendido pela noite, porque o dia est
quase a findar! Quanto mais til me teria sido haver resistido ao peso do sono!

Absorto nestes pensamentos, ei-lo chegado ao lar de descanso. Sentou-se por alguns
momentos, para dar mais livre curso ao seu pranto, at que, por fim, permitiu a Providncia
que, volvendo o olhar em torno do banco em que estava sentado, se lhe deparasse o
diploma: apanhou-o pressurosamente e tornou a guard-lo junto ao peito.

Ser-me-ia impossvel descrever o jbilo que se apoderou deste homem, ao ver-se de novo
na posse daquele precioso documento, garantia da sua vida e salvo-conduto para o porto
que anelava. Guardou-o no peito, repetimos, deu graas a Deus por haver permitido que o
encontrasse, e, chorando de alegria, tornou a pr-se a caminho, j risonho e ligeiro, mas no
tanto que o ocaso do sol no viesse surpreend-lo antes de chegar ao cume do monte.

Funesto sono, dizia Cristo, no meio de sua dor, tu foste a causa de eu ter agora de fazer a
minha jornada de noite. O sol deixou-me de alumiar-me. Os ps no sabero que caminho
pisam, e aos meus ouvidos s chegaro os rugidos dos animais noturnos. Ai de mim!  de
noite que os lees que Timorato e Desconfiana encontraram no caminho vo em busca da
sua presa. Se os encontro no meio das trevas, quem me salvar das suas garras?
(Apocalipse 3.2; I Tessalonicenses 5.7-8).

Tais eram os pensamentos de Cristo. Levantando, porm, a vista, deparou com um
magnfico palcio, situado na frente da estrada, o qual se chamava o Palcio Belo.




                                            - 25
                                     John Bunyan
                                _____________________

Captulo 8
Cristo passa inclume por entre os lees, e chega ao Palcio Belo, onde  acolhido
afavelmente e tratado com a maior ateno e carinho.


Vi, em meu sonho, que ao avistar o palcio, Cristo apressou o passo, na esperana de
encontrar ali pousada. Mas antes de chegar encontrou uma passagem muito estreita, a uns
cem passos do palcio, e viu, de cada lado da estrada, um terrvel leo. Eis aqui o perigo,
disse Cristo consigo mesmo, que obrigou Timorato e Desconfiana a retroceder. (Os lees
estavam amarrados com grossas correntes, mas Cristo no deu por isso). E eu tambm
devo retroceder, porque vejo que aqui s a morte me espera. Mas o porteiro do palcio,
cujo nome era Vigilante, tendo percebido a indeciso de Cristo, bradou-lhe:

To poucas foras tens? (Marcos 4.40). No temas os lees, porque esto acorrentados, e s
a esto para provar a f ou a incredulidade; passa pelo meio da estrada, e nenhum mal te
sobrevir.

Cristo resolveu, ento, a passar. Ainda que transido de medo, cumpriu  risca as instrues
de Vigilante, e, conquanto ouvisse os rugidos das feras, nenhum dano recebeu delas. Bateu
as palmas de alegria, e, em quatro pulos, chegou  portaria do palcio, e assim interrogou a
Vigilante:

Cristo  A quem pertence este palcio? Dar-me-o licena para pernoitar aqui?

Vigilante  Este palcio pertence ao Senhor do Desfiladeiro, e foi construdo
expressamente para servir de descanso e asilo aos viandantes. E tu, donde vens, e para onde
vais?

Cristo  Venho da Cidade da Destruio e dirijo-me para o monte Sio; fui surpreendido
pela noite, e desejava pass-la aqui, caso no houvesse inconveniente.

Vigilante  Como te chamas

Cristo  Chamo-me agora Cristo; outrora chamei-me Privado-da-Graa. Sou da linhagem
de Jaf, a qual Deus persuadiu a habitar nos tabernculos de Sem (Gnesis 9.27).

Vigilante  Muito tarde chegas. H muito que o sol chegou ao seu ocaso.

Cristo  Aconteceram-me grandes infortnios. Em primeiro lugar, deixei-me vencer pelo
sono no lugar do descanso, que est na encosta do desfiladeiro. Apesar disso, poderia ter
chegado aqui mais cedo se, enquanto dormia, no tivesse deixado cair das mos o meu
diploma, de que s dei pela falta quando cheguei ao alto do monte. Tive de voltar atrs, e



                                           - 26 -
                                      O Peregrino
                                 _____________________

graas dou a Deus por haver permitido que eu encontrasse o precioso documento. Eis as
causas da minha demora.

Vigilante - Bem est. Agora vou chamar uma das virgens que habitam o palcio, para falar
contigo e para te apresentar ao resto da famlia, segundo o costume da casa, se a tua
conversao lhe agradar.

Tocou uma campainha, ao som da qual apareceu uma donzela, grave e formosa, que se
chamava Discrio, e que tratou de perguntar para que a chamavam.

Vigilante  Este homem  um viandante que, da cidade da Destruio, se dirige para o
monte Sio. A noite surpreendeu-o no caminho, e est muito fatigado; deseja saber se lhe
podero dar agasalho aqui esta noite.

Discrio interrogou-o acerca da sua jornada e dos acontecimentos que se haviam dado
durante ela, e como recebesse respostas satisfatrias a tudo quanto desejara saber,
perguntou-lhe:

Discrio  Diga-me o seu nome.

Cristo  Chamo-me Cristo. E, como me disseram que este edifcio foi construdo
expressamente para segurana e abrigo dos viandantes, desejava que me permitsseis passar
aqui a noite.

Discrio sorriu, o mesmo tempo que algumas lgrimas deslizavam pelas suas faces, e
acrescentou: Deixe-me chamar algumas pessoas da minha famlia. E chamou Prudncia,
Piedade e Caridade, que depois de terem falado com ele durante alguns momentos, o
introduziram no palcio. Muitos dos seus habitantes saram a receber Cristo, cantando:
Entra, bendito do Senhor, que para viandantes como tu  que este palcio foi edificado.
Cristo fez-lhe uma reverncia, e seguiu-as para o interior da casa. Assentou-se, e serviram-
lhe uma ligeira refeio, enquanto se aprontava a ceia. E, para aproveitar o tempo, entraram
no seguinte dilogo:

Piedade  Bom Cristo, presenciaste o nosso carinho e a benevolncia com que te temos
tratado: conta-nos pois, para nossa edificao, algumas aventuras da tua viagem.

Cristo  Com muito gosto. E folgo em vos ver em to boa disposio para comigo.

Piedade  Conta-me qual foi a causa que te moveu a empreender esta peregrinao.

Cristo  O que me obrigou a deixar a minha ptria foi uma voz tremenda aque me bradava
aos ouvidos: Se no sares daqui, infalivelmente perecers.

Piedade  Por que escolheste este caminho?


                                            - 27
                                      John Bunyan
                                 _____________________

Cristo  Porque Deus assim o quis. Eu estava trmulo e chorando, sem saber para onde
fugir, quando me saiu ao encontro um homem, chamado Evangelista, que me encaminhou
para a porta estreita, que eu sozinho, nunca teria encontrado, e me indicou a estrada que
diretamente me trouxe a este lugar.

Piedade  E passaste pela casa de Intrprete?

Cristo  Passei, e por muito que eu viva jamais esquecerei as coisas que l aprendi,
principalmente trs:

1) Como Cristo mantm no corao a obra da graa, a despeito dos esforos de Satans;

2) Como o homem, pelo excesso dos seus pecados, chega a desesperar da misericrdia de
Deus;

3) A viso do que, sonhando, presenciava o julgamento universal.

Piedade  Ouviste-lhe contar este sonho?

Cristo - Ouvi, e era, na verdade, terrvel. Agora, porm, muito folgo de o ter ouvido
contar.

Piedade - E nada mais viste em casa de Intrprete?

Cristo  Vi um magnfico palcio, cujos habitantes estavam vestidos de ouro.  entrada do
palcio vi um homem ousado que, abrindo caminho por entre a gente armada que se lhe
opunha, conseguiu entrar, ao mesmo tempo que ouvia as vozes dos habitantes, que o
animavam a conquistar a glria eterna. De bom grado teria ficado um ano inteiro naquela
casa, mas ainda tinha muito que andar, e por isso parti dali e continuei o meu caminho.

Piedade  E depois, que viste?

Cristo  Pouco tinha andado, quando vi um homem pregado numa cruz, todo cheio de
feridas e de sangue. Ao avist-lo, caiu dos meus ombros um peso muito incmodo, sob o
qual eu ia gemendo. Foi grande a minha surpresa, porque nunca tinha visto coisa
semelhante. E, enquanto eu, admirado, olhava para aquele homem, acercaram-me de mim
trs personagens resplandecentes; um disse-me que os meus pecados ficavam perdoados;
outro tirou-me os andrajos que me cobriam, e deu-me este esplndido vestido que vs, e,
finalmente, o terceiro selou-me na fronte e me deu este diploma.

Piedade  Continua. Mais alguma coisa hs de ter visto.

Cristo  J vos referi o principal e o melhor. Tambm encontrei trs indivduos, Simples,
Preguia e Presuno, adormecidos fora da estrada, com cadeias aos ps e a quem debalde
tentei acordar. Encontrei depois Hipocrisia e Formalista, que saltaram por cima do muro,

                                           - 28 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

pretendendo ir para Sio; mas perderam-se pouco depois, por no quererem dar-me
ouvidos. Tambm achei muito penosa a subida do desfiladeiro, e ainda mais terrvel a
passagem por entre as bocas dos lees. Se no fosse o porteiro que me animou com as suas
palavras, talvez tivesse voltado para trs. Mas, graas a Deus, eis-me felizmente aqui e
agradeo-vos a bela hospedagem que me dispensais.

Prudncia, tomando ento a palavra, perguntou-lhe:

Prudncia  No pensas algumas vezes no pas que deixaste?

Cristo  Sim, senhora, posto que com muita repugnncia e vergonha. Se eu o tivesse
desejado poderia ter voltado para trs, porque bastante tempo e bastante ocasio tive para o
fazer; aspiro todavia, a uma ptria melhor, a ptria celestial (Hebreus 11:15-16).

Prudncia  No trazes contigo algumas das coisas com que estavas familiarizado antes de
partir?

Cristo  Trago, sim, senhora; mas bem contra a minha vontade, especialmente os meus
pensamentos carnais, que tanto me agradavam e aos meus patrcios. Agora, porm, estas
coisas me pesam tanto que, se apenas dependesse da minha vontade nunca mais pensaria
nelas. No entanto, quanto mais quero fazer o que  melhor, tanto mais pratico o pior
(Romanos 7:15-21).

Prudncia  E no sentes, algumas vezes quase vencidas as coisas que em outras ocasies,
te enchiam de confuso?

Cristo  Sinto, mas poucas vezes; apesar disso, quando tal me sucede, parece-me que as
horas so para mim de ouro.

Prudncia  E te recordas dos meios pelos quais vences esses males em tais ocasies?

Cristo  Se me recordo? Quando medito no que vi, e no que se passou junto  Cruz;
quando contemplo este vestido bordado; quando me alegro em olhar para este diploma, e
quando penso no que me espera, se tiver a felicidade de chegar ao lugar para onde me
dirijo, oh! Ento parece-me que esses males que tanto me afligem, todos desaparecero
para mim.

Prudncia  E por que motivos tanto anelas por chegar ao monte Sio?

Cristo  Oh! Porque espero encontrar, vivo, Aquele que h pouco vi pregado na cruz;
espero, quando l chegar, ver-me livre do que tanto me oprime agora, porque ali no entra a
morte, e porque terei nesse lugar a companhia, que mais me agrada (Isaas 25.8; Apocalipse
21.3-4). Amo muito Aquele que, com sua morte, me livrou do fardo que me
sobrecarregava. As minhas enfermidades interiores tm-me afligido muito. Desejo chegar


                                           - 29
                                       John Bunyan
                                  _____________________

ao pas onde no haver mais morte, e anseio ter por companheiros aos que esto cantando
sem cessar: Santo, Santo, Santo!

Caridade tomou ento a palavra:

Caridade  Tens famlia? s casado?

Cristo  Tenho mulher e quatro filhos.

Caridade  Ento por que no os trouxeste contigo?

Cristo  (chorando). Da melhor boa vontade os teria trazido; mas, infelizmente, todos
cinco eram contrrios  minha viagem, e opuseram-se a ela com todas as suas foras.

Caridade  Mas tu devias ter-lhes falado, e te esforado por convenc-los do perigo que
corriam.

Cristo  Fiz, patenteando-lhes tambm o que Deus me havia declarado acerca da runa da
nossa cidade. Mas julgaram-me louco, e no me prestaram ouvidos (Gnesis 19.14);
advertindo que juntei a este conselho uma fervorosa orao ao Senhor, porque eu queria
muito  minha mulher e a meus filhos.

Caridade  Suponho que lhes falarias com bastante energia da tua dor e do medo que tinhas
da destruio, porque creio que verias bem claramente quo iminente estava a tua runa.

Cristo  E, na verdade, assim o fiz, no uma mas muitas vezes, e, alm disso, o meu temor
era bem patente no meu semblante, nas minhas lgrimas e no receio que me infundia a idia
do julgamento que pesava sobre nossas cabeas. Mas nada foi bastante para os persuadir a
que me seguissem.

Caridade  E que alegaram para no te seguirem?

Cristo  Minha mulher temia perder este mundo, e meus filhos estavam inteiramente
entregues aos prazeres da juventude; eis o motivo por que, tanto aquele como estes, me
deixaram empreender, sozinho, a minha viagem.

Caridade  E no serias tu quem, pela tua vida v, inutilizastes os conselhos que lhes davas,
de te seguirem?

Cristo  Verdade  que nada posso dizer em defesa da minha vida, porque conheo quanto
ela tem sido imperfeita, e tambm sei que qualquer homem pode anular, pela sua conduta, o
que procura persuadir a outrem pela palavra, para seu bem. Mas o que eu posso garantir 
que evitava cuidadosamente dar-lhes ocasio, com qualquer ao menos conveniente, para
que eles se esquivassem a acompanhar-me na minha peregrinao; e tanto assim que me
acusavam de exagerado e de privar-me, por causa deles, de coisas em que, a seu ver, no

                                           - 30 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

havia mal algum; e posso ainda acrescentar que, se o viam em mim os ofendia, era a minha
delicadeza em no pecar contra Deus e em no causar prejuzo ao meu prximo.

Caridade   certo que Caim aborreceu seu irmo (I Joo 3:12), porque as obras de Abel
eram boas, e as dele eram ms; e foi essa a causa porque tua mulher e teus filhos se
indispuseram contigo; mostraram-se, por esse procedimento, implacveis para com o bem,
e tu livraste a tua alma do sangue deles (Ezequiel 3:19).

Observei mais, em meu sonho, que assim continuaram a conversar, at que a ceia se
aprontou, depois do que se assentaram  mesa, que estava provida de substanciosos
manjares e excelentes vinhos.

A conversao, durante a ceia, versou sobre o Senhor do Desfiladeiro, sobre o que Ele tinha
feito e as razes que o haviam determinado a edificar aquela casa. Pelo que ouvi, pude
compreender que tinha sido um grande guerreiro, e que combatera e vencera aquele que
tinha o poder da morte (Hebreus 2:14-15), mas no sem correr grande perigo, o que lhe
dava jus a ser tanto mais amado. Porque, segundo disseram, e eu julgo ter ouvido dizer a
Cristo, o Senhor conseguiu esta vitria a custa de muito sangue; mas o que tornou esta
graa mais gloriosa foi ter Ele feito s pelo amor que consagra a este pas. E a alguns da
famlia ouvi mesmo dizer que o tinham visto e lhe haviam falado depois de Ele ter morrido
na cruz e tambm afirmaram ter Ele dito que no era possvel encontrar outro igual, do
oriente ao ocidente; e tanto assim se despojara da sua glria para levar a efeito o que
praticou, e que o seu desejo era ter muitos que, com Ele, habitassem no monte Sio, para o
que fizera prncipes aqueles que, por natureza, eram mendigos nascidos na lama (I Samuel
2:8; Salmo 113:8).

Nesta conversao to agradvel, se entretiveram at alta noite, e se retiraram aos seus
aposentos, depois de se haverem encomendado  proteo do Senhor. O quarto destinado a
Cristo era situado no andar superior do palcio; chamava-se Sala da Paz, e tinha uma
janela que olhava para o nascente. Ali dormiu o nosso Peregrino, tranqilamente, at ao
alvorecer, e, tendo acordado, entoou um cntico que, em maviosos versos, dizia: "Oh! Quo
agradveis so estas moradas! Na verdade, esta  a casa do Senhor, e esta  porta do cu!
Bendito sejas, Jesus, que assim provs s necessidades dos pobres peregrinos, perdoando-
lhes os seus pecados, e permitindo que repousem nas alturas"

Depois de todos levantados, e de haverem trocado entre si as saudaes da manh, Cristo
dispunha-se a partir, o que somente lhe permitiram depois de lhe haverem mostrado
algumas coisas extraordinrias que havia no palcio.

Levaram-no, em primeiro lugar, no Arquivo, onde lhe apresentaram a rvore genealgica
do Senhor, e segundo a qual Ele descendia nada menos do que do Ancio de Dias, tendo
sido concebido entre resplendores eternos, antes que existisse o luzeiro da manh. Tambm
ali viu escritas, em caracteres de luz, todas as suas aes e toda a sua vida, assim como os
nomes de muitos centenas de servos que tinham conquistado reinos, praticado justia,
alcanado promessas, vencido lees, extinguido terrveis incndios, evitado o fio da espada,

                                           - 31
                                      John Bunyan
                                 _____________________

escapado a perigosas doenas, combatido valentemente nas guerras, e desbaratado os
campos do inimigo (Hebreus 11:33-34).

Mostraram-lhe depois, noutro lugar do Arquivo, a boa disposio, em que o Senhor estava
de admitir ao seu favor qualquer pessoa que, em outros tempos, o tivesse combatido, ou aos
seus desgnios. Igualmente lhe mostraram vrias resenhas de feitos ilustres tanto da
antigidade como dos tempos modernos, e bem assim predies e profecias que, nas
devidas pocas, se tm cumprido; tudo para o terror e confuso dos inimigos, e para
satisfao e jbilo dos amigos.

No dia seguinte, conduziram-no ao arsenal, onde lhe exibiram armaduras de toda espcie,
que o Senhor tinha destinado aos peregrinos: espadas, escudos, elmos, couraas roda-
orao e borzeguins que duram infinitamente. Era tal a profuso de apetrechos de guerra
que seriam bastante para armar tantos homens no servio do seu Senhor como estrelas h
no cu.

Mostraram-lhe tambm os objetos com que alguns dos servos tinham feito prodigiosas
maravilhas: a vara de Moiss, o prego e o martelo com que Jael matou Ssera; os cntaros,
as buzinas e as lmpadas com que Gideo derrotou os exrcitos de Midi; a relha do arado
com que Sangar matou seiscentos homens; a queixada com que Sanso fez grandes
faanhas; a funda e a pedra com que Davi matou Golias de Gate, e a espada com que o
Senhor matar o homem do pecado no dia em que este se levantar contra a presa;
mostraram-lhe, em suma, muitas outras coisas excelentes,  vista das quais Cristo se
possuiu de inefvel alegria. E, como o dia tivesse declinado, de novo se entregaram ao
repouso.

No dia imediato, Cristo queria partir, mas pediram-lhe que se deixasse ficar mais um dia,
para lhe mostrarem, se a atmosfera estivesse limpa, as montanhas das Delcias, a vista das
quais muito contribura para o consolar, por se acharem aquelas montanhas mais prximas
do porto aonde se dirigia do que do local em que atualmente se encontrava. Cristo acedeu
ao pedido. Subiram, pois, de manh, ao terrao do palcio do lado que olha para o sul, e, 
grande distncia, pde Cristo descobrir um pas montanhoso e agradabilssimo, bordado
de bosques, vinhas, pomares, e jardins de toda espcie, alternados com ribeiros e lagos de
singular beleza (Isaas 33:16-17). Esse pas, lhe disseram,  o pas de Emanuel, e  to livre,
como este lugar, para todos os peregrinos. Davi avistars a porta da Cidade Celestial. Os
pastores daquelas montanhas te ensinaro o caminho.




                                            - 32 -
                                      O Peregrino
                                 _____________________

Captulo 9
Cristo chega ao vale da Humilhao, onde  assaltado pelo feroz Apolio, mas vence-o
com a espada do Esprito e com a f na palavra de Deus.


Resolveu-se, ento, a partida do nosso peregrino, com o consentimento dos habitantes do
palcio; antes, porm, de partir, levaram-no outra vez ao arsenal, onde o armaram com
armas de finssima tmpera, para se defender no caminho, caso fosse atacado. Em seguida,
acompanharam-no at  porta, onde ele perguntou ao porteiro se, durante a sua estada no
palcio, tinha passado algum viajante. O porteiro respondeu-lhe afirmativamente.

Cristo  Acaso o conheces?

Porteiro  No, mas perguntei-lhe o seu nome e disse-me que se chamava Fiel.

Cristo  Ah! J sei quem ! Conheo-o perfeitamente;  meu patrcio e vizinho, e vem da
minha terra. Ir j muito distante?

Porteiro  Deve ir l para o fim da encosta.

Cristo  Obrigado, bom homem! Que o Senhor seja contigo e te aumente as suas bnos
pelo bem com que me trataste.

E partiu. Discrio, Piedade, Caridade e Prudncia quiseram acompanh-lo at o fim do
desfiladeiro, e foram todos conversando nos assuntos de que j tinham tratado. Chegados 
encosta, disse:

Cristo  A subida pareceu-me difcil, mas a descida no h de ser menos perigosa.

Prudncia  Assim . H sempre perigo em escorregar para o homem que desce ao vale da
Humilhao, para onde te diriges; Por isso viemos acompanhar-te.

Cristo ia descendo com muita cautela, mas no sem tropear mais de uma vez. Quando
chegaram ao fim da ladeira, as personagens que o acompanhavam despediram-se dele,
deram-lhe um po, uma garrafa de vinho e um cacho de uvas.

Assim que entrou no vale, comeou Cristo a ver-se em apuros. Apenas dera alguns passos,
saiu-lhe ao encontro um abominvel demnio, chamado Apolio. Cristo teve medo, e
comeou a refletir se seria melhor fugir ou conservar-se firme no seu posto. Mas lembrou-
se de que a armadura no lhe protegia as costas e que, portanto, volt-las ao inimigo seria
dar-lhe grande vantagem, porque poderia feri-lo com as suas setas.




                                               - 33
                                       John Bunyan
                                  _____________________

Decidiu-se, pois, ter valor e a manter-se firme, nico recurso que lhe restava para manter a
vida.

Deu mais alguns passos, e achou-se frente a frente com o inimigo. Era horrvel o aspecto do
monstro; estava coberto de escamas, semelhantes s dos peixes; tinha asas como de drago,
e patas de urso; do ventre saa-lhe fumo e fogo, e a sua boca era semelhante  boca do leo.
Ao aproximar-se de Cristo, lanou-lhe um olhar de desprezo e falou-lhe nestes termos:

 Donde vens, e para onde vais?

 Venho da Cidade da Destruio, albergue de todo o mal, e vou para a Cidade de Sio.

 Queres dizer com isso que eras meu sdito, porque todo aquele pas me pertence, e nele
domino como prncipe e deus. E te atreveste a revoltar-te contra o domnio do teu rei? Ah!
Se no fora esperar que ainda me servirs de muito, esmagar-te-ia dum s golpe!

  certo que nasci nos teus domnios; mas o teu servio era to pesado, e a paga to
miservel, que nem sempre chegava para viver, porque o estipndio do pecado  a morte
(Romanos 6:23). De modo que, quando cheguei a ter uso da razo, fiz como a gente de
juzo: tratei de melhorar a minha sorte.

 Nenhum prncipe gostar de perder os seus sditos por to pouca coisa; e eu, por minha
parte, no te quero perder. Ora, como te queixas do servio e da paga, volta de boa vontade
para a tua terra, que eu prometo dar-te tudo quanto se pode dar nos meus domnios.

 Estou agora a servio do Rei dos reis, de modo que no posso ir outra vez contigo sem
faltar ao que  justo.

 Andaste de mal a pior, como diz o refro; mas, ordinariamente, os que tm professado
serem servos de tal rei, emancipam-se depressa do seu jugo, e, tomando melhor conselho,
voltam outra vez para mim. Faze tu como eles, e tudo te correr bem.

 Dei-lhe a minha palavra e jurei-lhe fidelidade; se desistisse agora, no mereceria ser
enforcado por traidor?

 Assim te portaste para comigo, e, apesar disso, estou disposto a esquecer tudo, se quiseres
voltar.

 As promessas que fiz foram feitas antes de eu chegar  adolescncia, e no tm valor
algum por isso mesmo. Ademais, espero que o Prncipe, sob cujas bandeiras agora sirvo,
me absolvir e me perdoar tudo quanto fiz para te agradar. E, sobretudo, quero falar-te
francamente: o seu servio, a sua paga, os seus servos, o seu governo, a sua companhia e o
seu pas agradam-me muitssimo mais do que os teus. Perdes o teu tempo se intentas
persuadir-me do contrrio; sou seu servo, e estou resolvido a segui-lo.


                                           - 34 -
                                      O Peregrino
                                 _____________________

 J que ainda conservas serenidade e sangue frio, pensa bem no que provavelmente
encontrars nesse caminho. Tu sabes que a maior parte dos seus servos tem um fim
desgraado, por haverem transgredido contra mim e contra as minhas intenes. Quantos
no tm sido vtimas duma morte vergonhosa! Alm disso, se o seu servio  melhor do
que o meu, por que motivo no saiu ainda do lugar onde est para livrar os que o servem?
Eu sou o contrrio: quantas vezes, como pode atestar o mundo inteiro, ou por fora ou por
astcia, no tenho eu livrado os que me servem fielmente das mos dele e dos seus, apesar
de os terem debaixo do seu poder? Prometo-te que farei o mesmo por ti.

 Se Ele demora em livr-los, segundo parece,  na verdade, para mais evidentemente
provar o seu amor e ver se lhe permanecem fiis at o final. Quanto ao fim desgraado que
dizes, muitos tiveram, foi esse seguramente, o fim mais glorioso que podiam ter. Porque,
salvao presente no esperam eles, que sabem que  preciso tempo para chegar  glria, e
esta t-la-o quando o seu Prncipe vier na Sua glria, e na dos anjos.

 Como podes tu pensar em receber salrio, se j foste infiel no teu servio?

 Em que fui infiel?

 Ora essa! Logo que saste de casa desfaleceste, quando te viste em risco de te afogares no
Pntano da Desconfiana; depois tentaste, por diversos modos, desfazer-te do fardo que te
pesava, em lugar de esperares, como devias, que o teu Prncipe te livrasse dele. Em seguida,
adormeceste culpavelmente, perdendo nessa ocasio o objeto mais precioso que possuas. O
medo dos lees quase te fez voltar, e, sobretudo, quando falas da tua viagem e do que tens
visto e ouvido, domina-te o esprito da vanglria.

 Tens muita razo nisso que dizes, e muito mais podias ainda dizer, mas o Prncipe a quem
sirvo e venero  misericordioso e perdoador! Alm disso, esqueces, sem dvida, que essas
fraquezas se apoderaram de mim enquanto eu estava no teu pas; ali fui vencido por elas, e
custaram-me muitos pesares e muitos gemidos, mas arrependi-me de tudo, e o meu Prncipe
perdoou-me!

Apolio, que j no podia conter a raiva de que j estava possudo, rompeu nestes
improprios: Sou inimigo desse Prncipe, aborreo a sua pessoa, as suas leis, e o seu povo,
e venho no firme propsito de te impedir o passo.

Cristo - V bem o que fazes, Apolio, porque eu estou na estrada real, no caminho da
santidade, e, por conseguinte, muito superior a ti.

Ao ouvir isto, Apolio estendeu as pernas at tomar toda a largura do caminho, e disse: 
No julgues que tenho medo de ti; prepara-te para morrer, pois, juro-te, pelo abismo
infernal em que habito, que no passars daqui. Vou arrancar-te a alma. E, ao mesmo
tempo, despediu com grande fria um dardo de fogo contra o peito de Cristo. Este, que
tinha o escudo no brao, apanhou nele o golpe e escapou ao perigo.


                                            - 35
                                      John Bunyan
                                 _____________________

Cristo desembainhou logo a espada, reconhecendo que era tempo de acometer, e Apolio
lanou-se sobre ele, despedindo raios to bastos como granizo, a ponto de ferir Cristo na
cabea, nas mos e nos ps, apesar dos esforos que empregava para se defender. Estas
feridas fizeram-no recuar um pouco, circunstncia que Apolio aproveitou para voltar ao
assalto com maior energia; mas Cristo, reanimando-se, resistiu com maior denodo.

Esta furiosa luta prolongou-se at perto do meio-dia, hora em que se esgotaram as foras de
Cristo, que por causa das feridas, ia enfraquecendo cada vez mais.

Apolio no deixou de aproveitar esta vantagem, e, abandonando os dardos, acometeu-o
corpo a corpo.

O choque foi to rude que Cristo deixou cair a espada.

 Agora s meu! Exclamou Apolio, estreitando-o com tanta fora que por pouco no o
abafou. Cristo sups que ia morrer; mas quis Deus que, no momento em que Apolio ia
descarregar o ltimo golpe, Cristo lanasse rapidamente mo da espada, que estava no
cho, e exclamasse: "No te alegres, inimigo meu, porque, se caio, tambm me levanto"
(Miquias 7:8). E atirou-lhe uma estocada mortal, que o obrigou a se retirar, como quem
recebe o ltimo golpe. Ao ver isto, Cristo redobra a energia, e ataca-o de novo, dizendo:
"Em todas estas coisas samos mais que vencedores por Aquele que nos amou" (Romanos
8:37). Apolio abriu as suas asas de drago, fugiu apressadamente, e Cristo no o viu mais
(Tiago 4:7).

S quem, como eu, presenciou este combate pode fazer idia dos espantosos e horriveis
gritos e bramidos que Apolio soltou durante a luta. A sua voz era semelhante  do drago,
e se contrastava com os suspiros e gemidos lastimosos que saam do corao de Peregrino.
Longa foi a peleja, e durante ela s brilhou nos olhos de Cristo um olhar de alegria quando
feriu Apolio com a sua espada de dois gumes. Olhou ento para o cu e sorriu. Nunca
presenciei uma luta to encarniada!

Terminado o combate, pensou Cristo em dar graas quele que o livrara da boca do leo,
quele que o auxiliara contra Apolio. E, ajoelhando-se, exclamou: Belzebu tinha
resolvido perder-me, enviando armado contra mim esse sequaz: longo foi o combate,
terrvel foi a luta; mas o Bendito, o Santo, veio em meu auxlio, obrigou-o a fugir pela fora
da minha espada: louvado seja o Senhor eternamente, graas e bnos mil sejam dadas ao
Seu nome santssimo.

Ento, uma mo misteriosa lhe ministrou algumas folhas da rvore da vida (Apocalipse
22:2). Cristo aplicou-as sobre as feridas que recebera na peleja, e ficou de todo curado.
Depois assentou-se naquele lugar, para comer do po e beber do vinho que pouco antes lhe
tinham dado. Assim fortalecido, seguu seu caminho, levando na mo a espada
desembainhada, com receio de que algum outro inimigo lhe sasse ao encontro. Nada mais,
porm, se lhe ops em todo o vale.


                                            - 36 -
                                    O Peregrino
                               _____________________

Passado o Vale da Humilhao, entrou no Vale da Sombra da Morte, que  atravessado
pelo caminho que conduz  Cidade Celestial. Este vale  muito solitrio, como n-lo
descreve o profeta Jeremias.

Um deserto, uma terra despovoada e sem caminho, terra de sede, imagem da morte, terra na
qual no andou varo sem ser cristo, nem habitou homem (Jeremias 2:6).

Se lhe fora terrvel a luta entre Cristo e Apolio, no o foi menos a que ele teve de
sustentar neste vale.




                                         - 37
                                     John Bunyan
                                _____________________

Captulo 10

Cristo sofre muitas aflies no Vale da Sombra da Morte; mas, tendo aprendido pela
experincia, quanto convm andar vigilante, recorre  espada e  orao, passando, assim,
com toda a segurana e sem o menor dano.




Apenas transpusera o limite que separa o Vale da Humilhao do da Sombra da Morte,
encontrou dois homens que voltavam a toda pressa e eram filhos daqueles que inflamaram
o pas que tinham visto (Nmeros 13:33). Cristo perguntou-lhes para onde iam.

Homens  Para trs, para trs; se tens em alguma conta a tua vida e o teu sossego,
aconselhamos-te a que faas outro tanto.

Cristo  Ento, por que?

Homens  Ns amos caminhando na direo em que tu vais, e avanvamos at onde a
audcia nos ajudou, mas nem sabemos como pudemos voltar, pois se tivssemos dado mais
alguns passos, no estaramos decerto aqui para te avisar.

Cristo  Mas o que foi que encontrastes?

Homens  O que encontramos? Estivemos quase no meio do Vale da Sombra da Morte;
mas, felizmente, olhamos para a frente e descobrimos o perigo antes de nos aproximarmos
dele. (Salmos 44:19).

Cristo  Qual perigo?

Homens  Qual perigo? O prprio vale, que  negro como pez. Vimos l fantasmas,
lobisomens e drages do abismo. Depois, um contnuo gemer e gritar, como de pessoas que
se acham na mais afrontosa situao e que sofrem as maiores aflies e torturas. Sobre o
vale pairam as horrorosas nuvens da confuso, e a morte estende constantemente por cima
deles as suas negras asas. Numa s palavra, ali  tudo horror, tudo espantosa desordem (J
3:5-10, 22).

Cristo  Pelo que dizeis, cada vez me persuado mais de que  este caminho que devo
seguir, para chegar ao porto desejado (Salmos 44:18).

Homens  Se o achas bom, vai andando; c, para ns no serve.




                                            - 38 -
                                      O Peregrino
                                 _____________________


E separaram-se de Cristo, que continuou o seu caminho, conservando a espada
desembainhada, com receio de ser atacado.

E, no meu sonho, alonguei a vista por toda a extenso do vale. Vi,  direita da estrada, o
fosso profundssimo para onde uns cegos tm guiado outros cegos, durante o correr dos
tempos, tendo todos perecido miseravelmente.  esquerda, vi um atoleiro perigosssimo,
onde todo aquele que ali cai, por melhor que seja, no pode encontrar p; nele caiu o rei
Davi uma vez, e sem dvida se teria afogado se o no tivesse livrado Aquele que tem poder
para isso (Salmos 69:14).

O caminho era to apertado que Cristo andava com grandes dificuldades, porque, como
estava em trevas, se tentava afastar-se do fosso, arriscava-se a cair no atoleiro, e, quando
queria fugir deste, estava a ponto de se precipitar naquele. Assim caminhou, dando amargos
suspiros, porque, alm dos perigos j citados, o caminho era to escuro que, se levantava
um p para dar um passo, no sabia onde depois ia assent-lo.

Pouco mais ou menos a meio deste vale, abria-se a boca do inferno, junto  estrada.

Ao chegar ali, foi horrvel a situao de Cristo; no sabia o que havia de fazer; via sair
chamas e fumo, em tanta quantidade, envolta em fascas e rugidos infernais, que,
reconhecendo que a espada com que vencera Apolio para nada lhe serviria, resolveu
embainh-la e lanar mo doutra arma, isto , a arma da orao (Efsios 6:18), e assim
exclamou: "Livra, Senhor, a minha alma" (Salmos 116:4). E seguiu avante, envolto, de vez
em quando, por terrveis chamas. Outras vezes, ouvia tristes lamentos, correndo dum para
outro lado, de modo que julgava que ia ser desfeito ou calcado como a lama das ruas. Este
espetculo horroroso e estes rudos terrveis acompanharam-no durante lguas de caminho.

Chegou, finalmente, a um lugar onde julgou ouvir aproximar-se uma legio de inimigos.
Por isso, deteve-se e ps-se a pensar seriamente no que conviria fazer. Por um lado parecia-
lhe melhor voltar para trs, mas por outro, logo se lembrava de que j ia talvez em mais da
metade do vale. Tambm se recordou de que j tinha vencido muitos perigos, e de que o
risco de se retirar poderia ser maior do que o de avanar; resolveu, portanto, a prosseguir.
Mas, como os inimigos pareciam aproximar-se cada vez mais, e quase a tocar-lhe,
exclamou com toda a fora da sua voz: Caminharei na fora do Senhor. A estas palavras, os
inimigos puseram-se em fuga, e no tornaram a persegui-lo.

A minha ateno fixou-se ento sobre um fato que no posso deixar de referir. Notei que o
pobre Cristo estava to assustado que no conhecia a sua prpria voz, e notei-o pelas
circunstncias que passo a relatar. Quando Cristo chegou  beira do abismo incandescente,
um dos demnios aproximou-se dele, sem ser pressentido, e segredou-lhe ao ouvido muitas
e mui terrveis blasfmias, e o pobre Cristo julgava ser a sua prpria alma que as proferia.
Este fato afligiu Cristo mais do que tudo quanto at ali havia sucedido: pensar que
blasfermara daquele a quem tanto amara antes! No teve, porm a lembrana de tapar os
ouvidos, nem de averiguar de onde vinham aquelas blasfmias.

                                            - 39
                                      John Bunyan
                                 _____________________


Havia bastante tempo que se achava nesta triste situao, quando julgou ouvir a voz de um
homem, que caminhava na sua frente, exclamando: "Ainda quando andar no meio do vale
da sombra da morte, no temerei males, porquanto tu ests comigo" (Salmos 23:4). Estas
palavras alegraram-no, por muitos motivos:

1- Porque elas lhe provavam que mais algum que temia a Deus se achava igualmente neste
vale;

2- Porque percebia que Deus estava com esse algum, apesar da obscuridade e tristeza que
os rodeavam. E por que no h de estar tambm comigo? Pensou Cristo consigo mesmo,
ainda que o no perceba, visto o lugar em que estou? (J 9:11).

3- Porque desejava gozar da companhia daquele ou daqueles cuja voz ouvira, se lograsse
alcan-los. Cobrou nimo, e resolveu continuar a sua marcha, chamando por aquele que o
precedia, mas este, que tambm se julgava s, nunca respondeu. Comeava, ento, a raiar a
aurora, e Cristo exclamou: "Ele troca em manh as trevas" (Ams 5:8). Em seguida
apareceu o dia, e Cristo continuou: "E muda a noite em dia".

Sendo j claro, olhou para trs, no porque desejasse retroceder, mas para ver,  claridade
do sol, os perigos por que tinha passado durante a noite.

Viu, ento, perfeitamente, o abismo dum lado e o pntano do outro lado, e considerou quo
estreita era a vereda que passava por entre ambos; igualmente viu os fantasmas, os
lobisomens, je os drages do abismo, mas todos mui distantes, jporque no se atreviam a
aproximar-se da luz do dia. Todavia, Cristo enxergava-os, porque, como escrito, "Ele tira
das trevas o que estava escondido, e pe em claro as sombras da morte" (J 12:22). Cristo
sentiu-se muito impressionado ao ver-se livre dos perigos daquele vale solitrio; porque,
apesar de os ter temido muito, melhor avaliava agora a sua gravidade, olhando-os  luz do
dia.

Brilhou ento o sol, o que foi para o viandante favor no pequeno, porque, se perigossima
tinha sido a primeira parte do vale, a segunda que ainda tinha a percorrer prometia ser ainda
mais perigosa, visto que, desde o ponto em que Cristo se encontrava at ao fim do vale, o
caminho estava to cheio de laos, redes e obstculos, e tinha tantos abismos, precipcios,
covas e barrancos que, se fosse noite, como na primeira parte do caminho, mil almas que
Cristo tivesse, todas teria perdido irremediavelmente; mas por fortuna o sol brilhava em
todo o seu resplendor. Disse ento consigo mesmo: "A sua lmpada luzia sobre a minha
cabea, eu, guiado pela sua luz, caminhava nas trevas" (J 29:3).

Com esta luz chegou Cristo ao fim do vale, onde vi, no meu sonho, sangue, ossos, cinzas e
corpos de homens despedaados: eram os restos dos viandantes que, em tempos passados,
tinham andado por este caminho. Estava eu pensando no que poderia ter dado causa a
tantos destroos, quando descobri, mais adiante, uma caverna onde tinham habitado dois
gigantes, Papa e Pago, cujo poder e tirania tinham causado aqueles horrores.

                                           - 40 -
                                     O Peregrino
                                _____________________


Cristo passou por aquele stio sem maior perigo, o que deveras me admirou; mas depois
compreendi-o facilmente, por saber que Pago morreu h muito temp, e que o outro, apesar
de ainda estar vivo, alm da sua avanada idade, e dos vigorosos ataques que sofreu na
juventude, est to decrpito, e em conjunturas to apertadas, que j no pode fazer mais do
que estar  entrada da sua caverna, ameaando os peregrinos que passam, e desesperando-
se por no poder alcan-los.

Entretanto, Cristo continuava o seu caminho. A vista do ancio, assentado  entrada da
caverna, deu-lhe muito que pensar, principalmente quando ele, por no poder mover-se, lhe
gritou: No tereis emenda, at que muitos mais, como vs, sejais entregues s chamas.

Mas Cristo nada lhe respondeu, e, passando sem temor, e sem receber dano algum,
exclamou: Oh! Mundo de maravilhas!  verdadeiramente assim, visto que estou inclume,
apesar da misria que em ti hei encontrado. Bendita seja a mo misericordiosa a quem devo
a minha conservao. Enquanto estive neste vale, cercaram-se os perigos das trevas, os
inimigos, o inferno e o pecado. No meu caminho havia inmeros laos, abismos, obstculos
de toda a especie; mas graas sejam dadas a Jesus, que de tudo me livrou. Sua coroa  o
triunfo.




                                           - 41
                                       John Bunyan
                                  _____________________

Captulo 11

Cristo encontra em Fiel um companheiro excelente; o prudente temor que teve em ajuntar-
se com ele ensina-nos que devemos ser muito cautelosos na escolha dos nossos
companheiros de religio. Conversaes proveitosas que entre si tiveram.




Depois de tudo isto, chegou o nosso peregrino a uma eminncia expressamente erguida
para que os viajantes pudessem descobrir dali o caminho que iam seguir. Viu, l muito
adiante, Fiel, a quem chamou, dizendo: Ol, ol, espera a para caminharmos juntos. Fiel
olhou para trs, ouviu Cristo tornar a cham-lo, e respondeu: No posso esperar. A minha
vida corre perigo, porque vem atrs de mim o vingador de sangue. Esta resposta contristou
bastante Cristo, mas, fazendo um grande esforo, em breve alcanou Fiel, passando-lhe
ainda adiante, e assim o ltimo passou a ser o primeiro. Sorriu-se, vangloriando-se por ter
passado adiante do seu irmo; mas, como no reparasse onde punha os ps, de repente
tropeou e caiu, no podendo levantar-se enquanto Fiel no veio em seu auxlio. Vi, ento,
no meu sonho, que seguiam juntos na maior harmonia, discorrendo agradavelmente em
tudo o que lhes havia sucedido durante a viagem. Cristo comeou a falar nestes termos:

Cristo  Honrado e e querido irmo Fiel, estou contentssimo por haver-te alcanado, e por
Deus ter disposto de tal sorte os nossos espritos a fim de caminharmos juntos nesta estrada
to agradvel.

Fiel  Tencionava vir contigo desde a nossa cidade; mas adiantaste-te, de tal modo que me
vi obrigado a vir sozinho. Cristo  Quanto tempo estiveste ainda na Cidade da Destruio,
depois da minha partida?

Fiel  Fiquei at j no poder sofrer mais; porque, logo que tu partiste, comearam a dizer
que a cidade ia ser reduzida a cinzas pelo fogo do cu.

Cristo  Que me dizes? Pois os nossos vizinhos diziam isto?

Fiel  Diziam, sim; e durante algum tempo no se falava noutra coIsaas

Cristo  E, apesar disso, s tu trataste de te pr a salvo?

Fiel  Posto que, como te disse, se falasse muito do perigo, parece-me que no acreditavam
muito na sua existncia, porque, no calor da discusso, alguns ouvi eu que mofavam de ti e
da tua viagem, que alcunhavam de desesperada. Mas eu acreditei, e ainda acredito, que a
nossa cidade h de vir a ser abrasada com fogo e enxofre, e por isso fugi.

Cristo  Ouviste falar no vizinho Flexvel?

                                             - 42 -
                                      O Peregrino
                                 _____________________


Fiel  Ouvi dizer que tinha seguido at ao Pntano da Desconfiana, onde dizem que caiu,
porque ele no quer que se saiba o que lhe sucedeu; mas o que ele no pode esconder da
nossa vista foi a lama de que vinha coberto.

Cristo  E os vizinhos, que lhe disseram?

Fiel  Desde que voltou, tem sido alvo de desprezo e de escrnio de toda a gente, a ponto
que quase no encontre quem lhe d trabalho. Est agora muito pior do que se nunca tivesse
sado da cidade.

Cristo  Mas como se explica a m conduta em que o tm, se eles desprezam o caminho
que ele abandonou?

Fiel  Chamam-lhe renegado, por no ter permanecido fiel  sua profisso. Eu julgo que
Deus incitou at os seus inimigos para zombarem dele, por ter abandonado o seu caminho
(Jeremias 38:18-19).

Cristo  Falaste com ele antes de partires?

Fiel  Encontrei-o uma vez na rua, mas ele voltou o rosto para o lado, como que
envergonhado do que havia feito, e por isso no chegamos a falar.

Cristo  Realmente, quando comecei a minha viagem, tinha algumas esperanas nele; mas
agora receio que perea nas runas da cidade, porque lhe sucedeu o que diz aquele
verdadeiro provrbio: "Voltou o co ao que havia vomitado, e a porca lavada a revolver-se
no lamaal." (II Pedro 2:22).

Fiel  Tambm tenho esse receio; mas, quem pode saber o futuro?

Cristo  Tens razo. No falemos mais dele; ocupemo-nos antes de coisas que mais
imediatamente nos interessam. Conta-me o que te aconteceu no caminho.  de supor que
encontraste algumas coisas dignas de serem descritas.

Fiel  No ca no pntano em que, segundo vejo, tu caste, e cheguei  porta estreita sem
esse perigo; mas encontrei uma tal dama, chamada Sensualidade, de quem estive arriscado
a sofrer danos.

Cristo  Ditoso s, por teres escapado aos seus laos. Por sua causa esteve Jos em grande
risco, e dela se livrou assim como tu, no sem grave perigo de vida. Ento, que te fez ela?
(Gnesis 39:11-12).

Fiel  S quem a tiver ouvido  que pode avaliar quo lisonjeira  a sua lngua: empregou
todos os esforos para perder-me, prometendo-me toda a espcie de prazeres.


                                               - 43
                                         John Bunyan
                                    _____________________

Cristo  Por certo no te prometeu o prazer da paz da conscincia tranqila.

Fiel  Bem sabes que falo dos prazeres carnais.

Cristo  D graas a Deus por te haver livrado dela. "Aquele contra quem o Senhor est
irado cair nela" (Provrbios 22:14).

Fiel  Na verdade, no sei se absolutamente me livrei dela.

Cristo  Mas, decerto, no acedeste aos seus desejos?

Fiel  No quis contaminar-me, porque tinha presente o antigo ditado: "Os seus ps descem
 morte" (Provrbios 5:5). Assim fechei os olhos para no ser enfeitiado pelos seus olhares
(J 31:1). Ela ento muito me injuriou, e eu segui o meu caminho.

Cristo  No encontraste mais nenhum obstculo?

Fiel  Quando cheguei ao p do Desfiladeiro da Dificuldade, encontrei um homem muito
velho, que me perguntou como me chamava e para onde ia. Respond-lhe. E ele
acrescentou: Pareces-me um bom rapaz. Queres ficar ao meu servio, na certeza de seres
bem remunerado? Perguntei-lhe ento o seu nome, e onde morava, e respondeu chamar-se
Ado Primeiro, e morar na cidade do Erro (Efsios 4:22). Perguntei-lhe qual era o trabalho
e o salrio que tinha para dar-me, e ele disse: O teu trabalho  muitas delcias, e a tua
recompensa  seres meu herdeiro. Ped-lhe informaes acerca do sustento que dava e o
nmero de servos que tinha, ao que respondeu que em sua casa havia toda a espcie de
deleites deste mundo e que seus servos eram os que ele prprio produzia. Perguntei-lhe
quantos filhos tinha. S tenho trs filhas, respondeu o velho. Concupiscncia da Carne,
Concupiscncia dos Olhos e Soberba da Vida (I Joo 2:26), e prometeu casar-me com uma
delas, se eu desejasse. Perguntei-lhe, finalmente, quanto tempo queria ter-me ao seu
servio, e disse-me que enquanto vivesse.

Cristo  Afinal, que resolveste?

Fiel  Confesso que a princpio no deixei de sentir-me disposto a ir com ele, porque as
suas palavras eram bastante agradveis; mas, encarando-o bem, vi estas palavras escritas na
sua fronte: "Despojai-vos do homem velho com todas as suas obras."

Cristo  E depois?

Fiel  Oh! Depois cravou-se na minha mente, como que com pregos de fogo, o pensamento
de que, por mais que ele me lisonjeasse naquela ocasio, vender-me-ia como escravo
quando me apanhasse em seu poder. No vos incomodeis mais, disse-lhe eu, porque nem
quero aproximar-me da porta da vossa casa. Ele encolerizou-se e dirigiu-me muitos
insultos, assegurando-me que enviaria atrs de mim quem tornaria bem amargo para minha
alma o caminho que eu seguia. Voltei-lhe as costas para continuar minha marcha, mas,

                                            - 44 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

nesse momento, senti que me agarrava e me arrancara parte de mim mesmo, pelo que
exclamei: "Infeliz homem sou eu!" (Romanos 7:24). E segui meu caminho, quando notei
que era seguido por uma personagem mais ligeira que o vento, a qual me alcanou
exatamente no lugar do descanso.

Cristo  De bem tristes recordaes  para mim esse lugar. Foi justamente a que eu me
assentei para descansar, e tendo-me vencido o sono, caiu-me do peito este pergaminho.

Fiel  Como ia eu dizendo, bom irmo, no instante em que o homem me alcanou, vibrou-
me um golpe to forte que me lanou por terra, deixando-me por morto. Assim que voltei a
mim, perguntei-lhe por que assim me tratava, ao que me respondeu: Porque secretamente te
inclinaste para o Primeiro Ado. Proferindo estas palavras, deu-me outro golpe no peito,
que me prostrou no cho, deixando-me quase morto a seus ps. Quando recuperei os
sentidos, pedi-lhe misericrdia. E novamente me lanou por terra. E teria, por certo,
acabado comigo, se no passasse por ali algum que lhe ordenou que parasse.

Cristo  E quem era esse algum?

Fiel  No o conheci  primeira vista, mas atentando nas feridas que tinha nas mos e no
lado, compreendi que era o Senhor. Graas a Ele, pude seguir o caminho do desfiladeiro.

Cristo  O homem que se tinha apoderado de ti era Moiss, que a ningum perdoa, nem
sabe compadecer-se dos que transgridem a sua lei.

Fiel  Isso sei eu perfeitamente, pois j no era a primeira vez que o encontrava. Foi ele
quem me procurou, quando eu estava tranqilo na minha casa, para me assegurar que havia
de queimar casa e tudo, se eu continuasse a habitar ali.

Cristo  E no viste uma casa que h no cimo do declive onde encontraste Moiss?

Fiel  Vi, sim. E tambm vi os lees, antes de ali chegar. Pareceu-me, porm, que estavam
adormecidos. E, como me restassem bastantes horas de sol, no parei a falar ao porteiro,
mas segui pela encosta abaixo.

Cristo  Agora me recordo de ele me haver dito que te vira passar. No imaginas, porm,
quanto eu haveria estimado que tivesses entrado no palcio. Terias visto muitas coisas to
raras que dificilmente as esquecerias em toda a tua vida. E no vale da Humilhao, no
encontraste pessoa alguma?

Fiel  Encontrei-me com o Descontentamento, que tratou de persuadir-me a voltar com ele;
na sua opinio, aquele vale est completamente desonrado. Acrescentou que andar por ali
seria desagradvel aos meus amigos Soberba, Arrogncia, Vaidade, Glria-Mundana, e
outros mais que ele sabia ao certo que se julgariam ofendidos se eu fosse to nscio que
tentasse atravessar o vale.


                                          - 45
                                        John Bunyan
                                   _____________________

Cristo  Muito bem; e que lhe respondeste?

Fiel  Disse-lhe que, apesar de serem meus parentes, segundo a carne, todos os que acabava
de nomear, no era menos certo que, desde o momento em que entrara neste caminho, eles
haviam renunciado a esse parentesco e eu pagava-lhes na mesma moeda, de modo que,
presentemente, nenhuma relao havia entre ns. Mais, disse-lhe que, pelo que diz respeito
ao vale, laborava em completo erro, porque a humanidade precede a glria, o esprito eleva-
se antes da queda, razo por que preferia eu antes passar deste vale  honra que os mais
sbios ambicionavam do que optar pelo que ele julgava mais digno dos nossos afetos.

Cristo  E no encontraste mais ningum?

Fiel  Encontrei um tal de Pejo. De todos quantos tenho encontrado na minha peregrinao,
 este o que me parece que tem nome menos apropriado. Os outros cediam ao cabo de
alguma argumentao, mas este insolente nunca calava.

Cristo  Ento, que disse ele?

Fiel  Ora! O que ele disse? At  prpria religio punha objees. Dizia que era uma coisa
servil e miservel ocupar-se um homem com semelhantes idias; que o escrpulo da
conscincia era uma covardia; que seria coisas irrisria aviltar-se o homem at ao ponto de
medir as suas palavras, abdicando da altiva liberdade que  o apangio dos espritos fortes
do tempo em que vivemos. Objetou, igualmente, que somente um limitado nmero de
poderosos, dos ricos e dos sbios seguira a minha opinio, em todos os tempos, e que
nenhum deles o fizera seno quando se tornou estulto e quando se deixou convencer da
necessidade de arriscar voluntariamente a perda de tudo por uma coisa que ningum sabe o
que  (I Corntios 1:26; e 3:18; Filipenses 3:7-9; Joo 7:48).

Considerai o estado e a condio baixa e servil da maioria dos peregrinos da nossa poca,
acrescentou ele, como tambm a sua ignorncia, a sua falta de de civilizao e de
conhecimento das cincias naturais. Sobre este assunto discursou largamente, bem como
sobre muitos outros pontos semelhantes, tais como  que era vergonhoso estar gemendo e
chorando ao ouvir um sermo, voltar para casa com semblante triste, pedir perdo ao
prximo das mais leves ofensas, e restituir o que fora roubado. Disse-me tambm que a
religio faz com que o homem renuncie aos grandes e aos poderosos, por estes terem
pequenos vcios (a que deu nome muito mais suave), e reconhea e respeite os miserveis
como irmos. No ser isto uma vergonha? Exclamou, fim.

Cristo  E tu, que respondeste?

Fiel  Confesso que a princpio no sabia o que havia de dizer-lhe, pois tais coisas me disse
que me subiu o rubor ao rosto. O prprio Pejo me invadiu a cara, e quase me venceu. Mas,
depois, comecei a pensar que o que os homens tm por sublime  abominao diante de
Deus (Lucas 16:15); que este Pejo me diz o que so os homens, mas no o que Deus , nem
a sua palavra, nem os seus pensamentos, que no dia do juzo no seremos sentenciados em

                                            - 46 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

conformidade com os espritos orgulhosos do mundo, mas em conformidade com a
sabedoria e a lei do Altssimo. Portanto, pensei eu, o melhor , segurana, o que Deus diz,
ainda que esteja em oposio com todos os homens que h no mundo. Vejo que Deus
prefere a sua religio a uma conscincia delicada; que os mais bem aceitos so os que pelo
reino dos cus se fazem nscios; e que um pobre que ama a Cristo  mais rico do que o
mais rico do mundo, se este o odeia. Aparta-te, pois, de mim, Pejo! Inimigo da minha
salvao! Pois hei de prestar-te ouvidos em detrimento do meu Senhor, como Soberano? Se
eu tal fizesse, como poderia encar-lo no dia da sua vinda? (Marcos 8:38). Se eu me
envergonhasse agora dos seus caminhos e dos seus servos, como poderia esperar a sua
bno? Realmente este Pejo era um sujeito muito atrevido. Dificilmente pude conseguir
que me deixasse, mas ainda depois me apoquentou com repetidos encontros, segredando-
me ao ouvido ora uma, ora outra das fraquezas em que caem os que seguem a religio; mas,
por fim, fiz-lhe compreender que perdia miseravelmente o seu tempo, porque nas coisas de
que ele desdenhava era onde eu via precisamente mais glria. S assim pude ver-me livre
das suas importunaes, e, desafogando ento em alta voz, exclamei: So muitas as
tentaes que encontram aqueles que obedecem  voz do cu, e todas conforme as
inclinaes da carne; quando umas so vencidas, logo outras nos assaltam. Alerta,
peregrinos, portai-vos sempre como quem sois.

Cristo  Muito estimo, irmo, que afrontasses com tanta valentia esse infeliz, a quem,
como judiciosamente disseste, to mal quadra com o nome do que usa.  um atrevido que
at nas ruas nos persegue, procurando envergonhar-nos do bem. Mas, se o seu atrevimento
no fosse tamanho, como havia de fazer o que faz? Resistamos-lhe, porque, apesar das suas
pretenses, s alcana os seus fins com os nscios, e com ningum mais. Salomo disse:
"Os sbios possuiro a glria; a exaltao dos insensatos ser a sua ignomnia." (Provrbios
3:35).

Fiel  Parece-me que nos  mui necessrio pedir quele que quer que sejamos valentes pela
verdade na terra que nos proteja contra Pejo.

Cristo  Dizes bem. E no encontraste mais ningum no vale?

Fiel  No, porque me alumiou o sol durante o resto do caminho, assim como no vale da
Sombra da Morte.

Cristo  Boa sorte tiveste; outro tanto no me aconteceu. Logo  entrada do vale, tive de
sustentar um terrvel e prolongado combate com o maligno Apolio. Julguei que ele dava
cabo de mim, principalmente quando me calcou aos ps, como se quisesse esmagar-me.
Quando me lanou por terra, caiu-me a espada da mo, e ouvi-o exclamou: Agora no me
escapas tu! Mas eu clamei pelo Senhor, e Ele, ouvindo-me, ps termo a todas as minhas
angstias. Passei depois ao Vale da Sombra da Morte, e quase metade do caminho de ir s
escuras, por ser j noite. Afigurou-se-me muitas vezes que ia morrer, mas finalmente raiou
o dia, ergueu-se o sol, e assim pude continuar o caminho com muito mais sossego e
facilidade.


                                           - 47
                                      John Bunyan
                                 _____________________

Captulo 12
Em Loquaz apresenta-se o verdadeiro retrato de muitos falsos mestres da Religio, que
fazem consistir esta em muitas palavras e em nenhuma obra.

Iam os dois peregrinos nesta importante conversao, quando vi no meu sonho que Fiel,
olhando para um lado da estrada, avistara um homem, chamado Loquaz, que ia um pouco
distante deles, pois o caminho era to largo que havia lugar para todos. Era um homem alto,
mais bem parecido de longe do que de perto. Fiel chamou-o, perguntando-lhe se se dirigia
para o Pas Celestial.

Loquaz  Exatamente. Para l me encaminho.

Fiel  Tambm ns. E se quer ir conosco, gozaremos a sua amvel companhia.

Loquaz  Acompanha-los-ei da melhor vontade.

Fiel  Caminhemos, pois, juntos, e empreguemos o tempo em conversas proveitosas.

Loquaz  Muito agradvel  para mim tudo quanto so conversas proveitosas, e
sinceramente, me felicito por haver encontrado pessoas que se dediquem a to boa obra,
porque, na verdade, poucos so os que assim empregam o seu tempo quando viajam; a
maior parte prefere conversar em coisas frvolas, coisas que sempre me afligem muito.

Fiel   realmente muito para lamentar, porque nada h to digno da nossa conversao
como as coisas que pertencem a Deus e aos cus.

Loquaz  Quanto gosto de vos ouvir falar desse modo! Porque a vossa linguagem revela
uma convico profunda. Pois h coisa comparvel ao prazer e ao proveito que se tira de
falar das coisas de Deus? Se gostamos do maravilhoso, por exemplo, da histria, de
mistrios, de milagres, de prodgios e sinais, onde encontraremos leitura to deleitvel, e
to docemente escrita, como nas Escrituras Sagradas?

Fiel   verdade, mas devemos tirar sempre proveito da nossa conversao.

Loquaz  Sou do mesmo parecer. Falar dessas coisas  muito proveitoso, porque elas se
pode chegar ao conhecimento de muitas outras, tais como a vaidade das coisas mundanas, e
o proveito das celestiais. Isto em geral; e, descendo s particularidades, pode-se aprender a
necessidade dum novo nascimento, a insuficincia das nossas obras, a necessidade que
temos da Justia de Cristo, etc. Tambm nessa conversao se pode aprender o que 
arrependimento, crena, orao, sofrimento, e coisas semelhantes. Podemos tambm
aprender quais so as grandes promessas e consolaes do Evangelho, para nosso proveito;
e pode-se, finalmente, chegar a saber como se ho de refutar as falsas opinies, defender a
verdade e ensinar os ignorantes.


                                           - 48 -
                                     O Peregrino
                                _____________________


Fiel  Tudo isto  muito verdade, e eu folgo imenso de vos ouvir falar assim.

Loquaz  A falta destas prticas  a causa de haver to pouco quem compreenda a
necessidade da f e da obra da graa, em sua alma, para alcanar a vida eterna; e de que
vivam, por ignorncia, nas obras da lei, mediante as quais de nenhum modo pode o homem
chegar ao reino dos cus.

Fiel  Haveis de permitir que vos diga que o conhecimento espiritual dessas coisas me
parece ser dom de Deus. Ningum as consegue s por falar delas ou por empregar esforos
humanos.

Loquaz  Sei isso perfeitamente, pois nada podemos obter se de l de cima no for dado.
Tudo  pela graa, nada pelas obras, centenas de textos o confirmam.

Fiel  Muito bem. Limitemos agora a nossa conversao a um assunto em particular.

Loquaz  E qual assunto escolheis? Quereis que vos fale de coisas terrenas ou celestiais?
De coisas morais ou evanglicas? De coisas sagradas ou profanas? Passadas ou futuras?
Estranhas ou do pas? De coisas essenciais ou mais acidentais? Escolhei, e eu falarei sobre
o que quiserdes, sempre com a condio de se tirar proveito.

Fiel  (Admirando e chegando-se muito a Cristo, que durante este tempo se tinha
conservado um pouco distante): Que belo companheiro encontramos; deve ser um
excelente peregrino!

Cristo  (Sorrindo-se com modstia)  Esse homem, com quem tanto simpatizas,  capaz
de enganar a vinte que o no conheam.

Fiel  E tu o conheces?

Cristo  Se o conheo? Melhor do que ele prprio se conhece.

Fiel  Ento, quem ?

Cristo  Chama-se Loquaz, e vive na cidade onde nascemos; admira-me que o no
conheas.

Fiel  De quem  filho? Onde mora?

Cristo   filho dum tal Bem Falante, que morava na rua das Boas-Palavras; mas, apesar
da sua lngua de prata,  pessoa de pouco mais ou menos.

Fiel  Pois parece um homem muito decente.


                                           - 49
                                      John Bunyan
                                 _____________________

Cristo  Sim, para quem no o conhece; parece melhor quando viaja; quando est em sua
casa,  coisa muito diferente. Quando disseste que parecia ser pessoa decente, lembrei-me
dos quadros de alguns pintores, que fazem melhor efeito a certa distncia do que de perto.

Fiel  No sei se devo tomar por gracejos as tuas palavras, porque vejo sorrir-te.

Cristo  Livre-me Deus de gracejar neste assunto, apesar de haver sorrido; nem permita o
Senhor que eu acuse pessoa alguma falsamente. Agora vou dizer-te o que sei a respeito
desse homem. Todas as companhias lhe servem; todas as conversaes lhe agradam; o que
te disse h pouco  o mesmo que dir numa taberna. Quanto mais bebe, mais fala nestas
coisas. A religio verdadeira no existe no seu corao, nem na sua casa, nem na sua vida;
tudo que tem est na ponta de sua lngua e a sua religio consiste em apregoar que a tem.

Fiel  Falas a srio? Estou ento muito enganado com esse sujeito!

Cristo  Falo a srio. Podes confiar no que te digo: ests muito enganado com ele.
Lembra-te do provrbio: "Dizem e no fazem", porque o reino de Deus no consiste em
palavras, mas em virtude (Mateus 23:3; I Corntios 4:20). Fala da orao, do
arrependimento, da f, do novo nascimento, mas nada disso sente; no faz mais do que
falar. Tenho-o estudado e observado muito bem, tanto em sua casa como fora dela, e sei
que o que digo  a pura verdade. A sua casa  to falta de religio como falta de sabor  a
clara do ovo. No h ali orao nem sinal algum de arrependimento do pecado; os
irracionais, l a seu modo, servem a Deus muito melhor do que ele. Depois  a prpria
ndoa, oprbrio e vergonha da religio, para todos os que o conhecem (Romanos 2:23-24).
No bairro em que habita apenas se poder ouvir uma palavra em favor da religio, e isto por
culpa dele: o povo tem por hbito dizer que ele  um santo fora e um demnio em casa. A
prpria famlia o conhece bem, pois o v to grosseiro e to colrico para com todos que
nem sabe o que h de fazer para lhe agradar, nem como h de falar-lhe. Os que tm algum
negcio com ele dizem, sem rebuo, que antes queriam tratar com um maometano, pois
esto certos de encontrar mais honradez num seguidor de Mafoma. S quando no pode 
que deixa de enganar, de defraudar e a abusar daqueles com quem trata: o pior de tudo se
descobrir em algum deles um temor ignorante (assim chama ele ao primeiro sinal de
sensibilidade da conscincia), chama-lhe torpe, nscio e estpido, at mais no poder,
recusa-se a empreg-lo em trabalho algum, e nem mesmo quer recomend-lo a ningum.
Quanto a mim, creio firmemente que a sua vida escandalosa tem sido causa de muitos
tropearem e carem, e, se Deus no o impedir, ser a runa de muitos outros.

Fiel  Bem, irmo, devo dar crdito s tuas palavras, no s porque me asseguraste que o
conheces, mas tambm porque, como cristo, deves dar verdadeiro testemunho dos
homens; pois no posso supor que digas essas coisas por dio ou por m vontade.

Cristo  Se eu no o conhecesse,  natural que fizesse dele o mesmo conceito que tu; e, se
tivesse ouvido a algum inimigo da religio o que acerca dele acabo de referir-te, por certo
julgaria ser tudo calnia, pois ordinariamente  o que se encontra nas bocas dos maus,
quando se trata de apreciar os bons. Porm, quanto te disse, e muito mais que ainda sei,

                                            - 50 -
                                      O Peregrino
                                 _____________________

posso prov-lo at  evidncia. Demais, os bons envergonham-se dele: no o querem por
irmo ou amigo, e s falar nele  motivo para que os que o conhecem carreguem o
sobrolho.

Fiel  Bem. Agora conheo a diferena que h entre o dizer e o fazer, e daqui por diante
terei sempre presente esta distino.

Cristo  Com efeito so coisas to distintas como a alma e o corpo: porque, assim como o
corpo sem a alma no  mais do que um cadver, a alma da religio  a parte prtica. "A
religio, pura e sem mcula aos olhos de Deus e nosso Pai, consiste nisto: em visitar os
rfos e as vivas nas suas aflies, e em se conservar cada um a si isento da corrupo
desse sculo." (Tiago 1:27). Loquaz no o entende assim; julga que o ouvir e o falar  que
fazem o bom cristo; e assim traz enganada a sua prpria alma. O ouvir no  mais do que
semear a palavra, e o falar no  bastante para demonstrar que h fruto, realmente, no
corao e na vida. E devemos estar bem seguros de que, no dia do juzo, sero todos
julgados segundo os frutos que houverem produzido (Mateus 25:31-46). No se lhes
perguntar: Creste? Mas sim: Praticaste? E nesta conformidade ser o julgamento. Por isso
 o fim do mundo comparado  sega da seara (Mateus 13:18-23), E tu sabes perfeitamente
que o segador no considera seno os frutos. No quero dizer com isto que possa aceitar-se
ali coisa alguma que no seja da f, mas digo para te mostrar que pouco valor teriam
naquele dia as profisses e os protestos do Loquaz.

Fiel  Isso faz-me lembrar das palavras com que Moiss descreve o animal limpo (Levtico
11; Deuteronmio 14).  naquele que tem as unhas fendidas e que remi; uma s destas
qualidades no basta para a classificao. A lebre remi mas  imunda, porque no tem
unhas fendidas. Assim acontece com o Loquaz: remi, busca conhecimentos, rumina a
palavra, mas no tem as unhas fendidas; no se aparta do caminho dos pecadores; mas, 
semelhana da lebre, tem patas de co ou de urso, portanto, imundo.

Cristo  A meu ver, deste a esses texto o verdadeiro sentido evanglico, ao que eu
acrescentarei outro pensamento. Paulo chama aos grandes faladores "metal que soa e sino
que tine" (I Corntios 13:1), ou como noutro lugar, "coisas inanimadas que fazem
consonncia" (I Corntios 14:7). Coisas sem vida, isto , sem a verdadeira graa do
Evangelho, que, portanto, nunca podero ter lugar no reino dos cus, entre os filhos da vida,
ainda que, falando, produza sons semelhantes da voz dos anjos.

Fiel  Eis a razo por que a princpio me agradou muito a sua companhia, e agora j me
aborrece. Como nos veremos livres dele?

Cristo  Segue os meus conselhos, e se fizeres o que te digo, tambm ele se aborrecer de
ir ao teu lado, exceto se Deus tocar no seu corao e o converter.

Fiel  Que hei de fazer?



                                            - 51
                                     John Bunyan
                                _____________________

Cristo  Ouve: aproxima-te dele, e fala-lhe a srio sobre o poder da religio. Quando ele
tiver aprovado tuas palavras, o que no deixar de fazer, pergunta-lhe diretamente se isso 
o que ele pratica no seu corao, na sua casa e na sua vida.

Ento, Fiel aproximando-se outra vez de Loquaz, perguntou-lhe: - Ento, que tal ides
agora?

Loquaz  Vou bem; mas julgava que teramos conversado mais.

Fiel  Conversaremos agora. E visto que deixastes a mim a escolha do assunto, proponho
este: Como se manifesta a graa salvadora de Deus, e quando existe no corao do homem?

Loquaz  Quereis dizer que vamos falar acerca do poder das coisas espirituais. O assunto 
excelente, e estou disposto a responder-vos desde j.

 Quando a graa de Deus existe no corao causa um grande clamor contra o pecado;

Fiel  Mais devagar. Consideremos cada coisa de per si. Parece-me que falais mais
acertadamente, dizendo que se manifesta em inclinar a alma a aborrecer o pecado.

Loquaz  Ento? Que diferena h entre clamar contra o pecado e odi-lo?

Fiel  Muitssima. Podemos, por decncia, clamar contra o pecado, e no o odiarmos.
Tenho ouvido muita gente clamar contra o pecado, at do plpito, e, no obstante, o
toleram bem nos seus coraes, nas casas e nas suas vidas. A senhora de Potifar clamou em
altas vozes, com a maior energia, como se fosse muito casta (Gnesis 39:15), e, apesar
disso, fora ela quem provocara o pecado, e de boa vontade o cometera. Os clamores de
algumas pessoas contra o pecado so como os de uma me contra o filho a quem repreende,
mas que logo beija e acaricia.

Loquaz  Parece-me que quereis apanhar-me nos meus prprios argumentos?

Fiel  No. Apenas desejo colocar as coisas no seu verdadeiro p. Dizei agora qual  o
segundo ponto com que demonstrais a existncia da obra da graa no corao.

Loquaz  Um grande conhecimento dos mistrios evanglicos.

Fiel  Deveis pr esse em primeiro lugar, mas, ou em primeiro ou em segundo,  sempre
falso, porque podemos obter facilmente muitos conhecimentos evanglicos e no termos a
obra da graa em nossas almas. Ainda mais, pode um homem possuir toda a cincia, e,
apesar disso, no ser coisa alguma, e, portanto, nem filho de Deus (I Corntios 13:2).




                                           - 52 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

Captulo 13
Evangelista sai outra vez ao encontro dos peregrinos, e prepara-os para novos trabalhos.
Entram na Feira da Vaidade, onde so escarnecidos. Perseguio e morte de Fiel.


Apenas os nossos peregrinos saram deste deserto viu Fiel que vinha atrs dele uma pessoa
a quem reconheceu logo, e exclamou, dirigindo-se ao seu companheiro: Olha quem ali vem.
Cristo olhou e disse:  o meu bom amigo Evangelista! Sim, respondeu Fiel, o meu
tambm, pois foi ele quem me encaminhou para a porta.

Nisto acercava-se deles Evangelista, que os saudou dizendo:

Evangelista  Paz seja convosco, diletssimos, e paz com que vos auxiliam.

Cristo  Bem vindo, bem vindo sejas, meu bom Evangelista! A tua presena recorda-me a
tua antiga bondade e os teus incansveis esforos para o meu bem eterno.

Fiel  Sim, mil vezes bem vinda seja a tua companhia,  doce Evangelista: quanto estes
pobres peregrinos a desejam!

Evangelista  Como tendes passado, meus amigos, depois que pela ltima vez nos
separamos? Que tendes encontrado, e como vos haveis conduzido?

Narram-lhe ento tudo o que lhes acontecera pelo caminho, e como e com quantas
dificuldades tinham chegado ao stio onde se encontravam.

 Muito estimo, disse Evangelista, no que tenhais passado por todas essas provas, mas que
tenhais delas sado vencedores, e que, apesar das vossas muitas fraquezas, tenhais seguido
por este caminho at o presente. E tanto me alegro por vs como por mim. Eu semeei, e vs
tendes colhido, e o dia vem em que o que semeia e o que colhe gozaro juntos (Joo 4:36),
isto , se vos mantiverdes firmes, porque a seu tempo colhereis, se no houverdes
desfalecido! (Glatas 6:9). Diante de vs a coroa incorruptvel; correi de maneira que a
alcanceis (I Corntios 9:24-27). Alguns h que se pem a caminho para alcanar esta coroa,
mas depois de j irem muito adiantados, vem outro e arrebata-a. Retende, portanto, o que j
tendes, para que ningum vos tire a vossa coroa. Ainda no estais fora do alcance de
satans, ainda no tendes resistido at ao sangue, combatendo contra o pecado (Apocalipse
3:2; Hebreus 12:4). Tende sempre o reino diante dos vossos olhos, e crede firmemente nas
coisas invisveis. No deixeis invadir o vosso corao pelas coisas do mundo, e velai
principalmente pelos vossos coraes e suas concupiscncias, porque so enganosos sobre
todas as coisas, e desesperadamente maus. Tendes a vosso lado todo o poder que h no cu
e na terra.




                                           - 53
                                      John Bunyan
                                 _____________________

Cristo agradeceu-lhe esta exortao, e pediu-lhe que os ensinasse ainda mais, para os
ajudar a vencer o resto do caminho. Tanto mais que sabiam que ele era profeta e podia
dizer-lhes algumas coisas que lhes poderiam suceder, e o modo de as vencer, com
resistncia. Fiel juntou o seu pedido ao de Cristo, e Evangelista tomou novamente a
palavra.

Evangelista  Meus filhos, tendes ouvido, na palavra da verdade do Evangelho, que, por
muitas tribulaes, entramos no reino de Deus, e que em cada cidade nos esperam prises e
perseguies. Deveis, portanto, esperar que no vosso caminho se vos deparem algumas
destas coisas. Parte da verdade deste testemunho j vs tendes encontrado, e o restante no
se far esperar, porque, como vedes, estais quase fora deste deserto, em breve chegareis a
uma cidade onde sereis acometidos pelos inimigos, que se esforaro por vos matar. Tendes
por certo que um de vs, ou ambos, ter de selar o seu testemunho com o prprio sangue.
Conservai-vos, porm, fiis at  morte, e o Rei vos dar a coroa da vida. O que ali morrer,
ainda que a sua morte seja afrontosa e os seus sofrimentos atrozes, ter melhor sorte do que
o seu companheiro, no s porque chegar mais depressa  Cidade Celestial, mas porque se
livrar de muitas misrias que o outro ainda encontrar no resto da sua jornada. Quando
chegardes  cidade que est prxima, e se cumprir o que vos tenho anunciado, lembrai-vos
do vosso bom amigo. Portai-vos com valor, e encomendai a Deus as vossas almas (I Pedro
4:19).

Vi, ento, no meu sonho que, apenas saram do deserto, avistaram uma povoao chamada
Vaidade, na qual se faz uma feira, conhecida pelo mesmo nome, que dura todo o ano. 
assim chamada porque a cidade em que  celebrada  mais leviana do que a Vaidade, e
porque tudo quanto ali se vende, e todos quantos a ela concorrem, so vaidade, pois, como
disse o sbio  tudo vaidade (Eclesiastes 12:8; Isaas 13:17). Esta feira  muito antiga. Vou
dizer-vos a histria do seu princpio:

H quase cinco mil anos j havia peregrinos que se dirigiam  Cidade Celestial como
Cristo e Fiel. Vendo belzebu, Apolio e legio, com seus companheiros, que pela direo
que os peregrinos levavam, lhes era foroso passar por esta cidade da Vaidade, combinaram
entre si estabelecer aqui esta feira, que duraria todo o ano, e onde se venderia toda a espcie
de vaidade. Por esta razo encontram-se na feira todas as mercadorias: casas, terras,
negcios, empregos, honras, ttulos, pases, reinos, concupiscncias, prazeres; e toda
espcie de delcias, tais como, prostitutas, esposas, maridos, filhos, amos, criados, vida,
sangue, corpos, alma, prata, ouro, prolas, pedras preciosas e muitas outras coisas. Tambm
ali se encontram, constantemente, enganos, jogos, diverses, arlequins, teatros,
divertimentos e tratantes de toda a qualidade. E no  s isso. Tambm ali h,
gratuitamente, roubos, mortes, adultrios, perjrios, falsos testemunhos de toda a classe de
gravidade. Como noutras feiras de menor importncia, h nesta vrias ruas e travessias,
com nomes apropriados, destinadas todas a certas especialidades. Algumas dessas ruas so
designadas pelos nomes de certos pases. Assim, a rua de Espanha, de Itlia, de Frana, de
Inglaterra, de Alemanha, etc. Do mesmo modo que como em todas as outras feiras, h nesta
certos gneros que tm mais extrao: so os de Roma, a que atualmente vo fazendo
oposio a Inglaterra e outras naes, que no apenas gostavam do desenvolvimento que o

                                            - 54 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

comrcio de Roma ia adquirindo. O caminho que conduz  Cidade Celestial passa mesmo
pelo meio desta povoao, e aquele que quiser ir  Cidade Celestial, sem passar por aqui
ter de sair do mundo (I Corntios 5:10). At o Prncipe dos prncipes, quando esteve no
mundo, teve de passar por esta povoao antes de chegar ao seu prprio pas; tambm
esteve na feira que pertencia a belzebu, segundo creio, o qual pessoalmente o convidou a
comprar as suas vaidades, e no s isto; ainda chegou a oferecer-lhe tudo gratuitamente, se
o Prncipe consentisse em fazer-lhe uma reverncia ao passar pela povoao. Como era
pessoa de alta categoria, levou-o belzebu a outras ruas, e mostrou-lhe todos os reinos do
mundo, em um instante, tentando induzi-lo a comprar alguma das suas vaidades; mas no
pde consegui-lo, e o Prncipe saiu da cidade sem haver gasto um ceitil (Mateus 4:8-10).
Esta feira , pois, muito antiga e de muita importncia.

Era foroso que os peregrinos passassem por este stio, e assim aconteceu, mas logo que
sua presena foi notada, toda a gente da povoao se alvoroou por sua causa. Eis a razo
disso:

1. - Os vestidos dos peregrinos eram muito diferentes dos que se vendiam na feira, e
aquela gente cercava-os por todos os lados para os ver. Uns diziam que os peregrinos eram
idiotas, outros que eram loucos, e outros que eram estrangeiros (J 12:4; I Corntios 4:9).

2. - E, se muitos se admiravam dos seus vestidos, no menos se espantavam do seu modo
de falar, porque poucos havia que pudessem entend-los. Eles falavam o idioma de Cana e
a gente da feira falava a linguagem do mundo; de modo que uns aos outros se supunham
brbaros (I Corntios 2:7-8).

3. - Mas o que mais assombrava os mercadores era que estes peregrinos faziam pouco caso
das mercadorias, e nem se davam ao incmodo de olhar para elas. E, se algum os chamava
para comprarem, tapavam os ouvidos, e exclamavam: "Aparta os meus olhos para que no
vejam a vaidade" (Salmos 119:37). E olhavam para cima, como para darem a entender que
os seus negcios estavam no cu (Filipenses 3:20-21).

Um dos da feira, querendo zombar destes homens, perguntou-lhes com insolncia: Que
queres comprar? E eles, encarando-o com muita seriedade, responderam: "Compramos a
verdade" (Provrbios 23:23).

Esta resposta foi origem de novos desprezos. Uns mofavam deles: outros insultavam-nos,
outros escarneciam-nos, e no faltava quem propusesse que fossem corridos a pau. Enfim,
as coisas chegaram a tal ponto que houve um grande tumulto na feira, alterando-se a ordem
completamente. Chegando-se estes acontecimentos aos ouvidos do principal, acudiu este ao
local dos tumultos, e encarregou alguns dos seus amigos mais fiis de examinar aqueles que
tinham dado causa aos distrbios.

Foram os peregrinos interrogados e os seus juzes perguntaram-lhe donde vinham, para
onde iam, e que faziam ali em trajes estranhos.  Somos peregrinos do mundo,
responderam eles, e dirigimo-nos para a nossa ptria, que  a Jerusalm Celestial (Hebreus

                                           - 55
                                     John Bunyan
                                _____________________

11:13-16). No demos motivos aos habitantes da cidade, nem aos feirantes, para nos
maltratarem desta maneira, nem para impedirem a nossa viagem: apenas respondemos aos
que nos convidavam a comprar das suas mercadorias que s queramos comprar a verdade.
Mas o tribunal declarou que estavam loucos, e que tinham vindo expressamente para
perturbar a ordem pblica. E por isso os prenderam, deram-lhe muita pancada, atiraram
lama sobre eles, e meteram-nos numa gaiola para servirem de espetculo a toda a gente que
havia na feira. Nessa situao permaneceram por algum tempo, sendo o alvo do
divertimento, da maldade ou da vingana dos circunstantes. O geral ria-se de todos os
insultos: outros, porm, mais observadores e mais despreocupados, vendo quanto os
peregrinos eram pacientes e sofredores, que no retribuam maldies com maldies, mas
com bnos, e que respondiam com palavras mansas aos insultos e injrias que lhes eram
dirigidos, comearam a conter a multido, e a repreend-la pelos seus inqualificveis e
injustos abusos e desvarios. Mas, o povo irritado, voltou-se contra estes, dizendo que eram
to bons como os que estavam na gaiola, e, manifestando suspeita de serem seus cmplices,
ameaaram-nos com iguais castigos. Aqueles que tinham tomado a parte dos prisioneiros
responderam, energicamente, que os peregrinos mostravam ser pessoas srias e pacficas;
que a pessoa alguma faziam mal; e que havia na feira muitos vendedores que mais
mereciam estar dentro da gaiola, e at serem postos no pelourinho, em vez daqueles
desgraados de quem tanto tinham abusado. Assim se foram prolongando as contestaes,
at que finalmente chegaram as vias de fato, e muitos ficaram feridos. Tornaram ento a
levar os presos, que se haviam comportado com toda a sabedoria e temperana,  presena
dos seus interrogadores, e perante estes os acusaram de haverem provocado o tumulto que
tivera lugar. Espancaram-nos brutalmente, puseram-lhes algemas, e assim os passearam por
toda a feira, para terror e escarmento dos demais, e para que ningum tomasse a sua defesa
nem com eles se juntasse.

Cristo e Fiel portaram-se com grande prudncia, e recebiam a vergonha e a ignomnia a
que os expunham com pacincia e mansido, de modo que ganharam a simpatia de alguns
feirantes, ainda que poucos, relativamente. Esta adeso exaperou, at ao ltimo ponto, a
parte contrria, que resolveu matar os peregrinos. Desde logo os ameaaram de morte,
dizendo-lhes que, visto no ser bastante a priso, seriam condenados  pena ltima, pelo
abuso cometido, e por terem enganado os da feira. Novamente os encerraram na gaiola,
prendendo-os a um cepo, enquanto no se decidia definitivamente qual sorte lhes poderia
ser destinada.

Recordaram-se, ento, os peregrinos do que lhes dissera Evangelista, e esta recordao veio
predisp-los ainda mais para os sofrimentos e robustecer a sua constncia. Tambm se
consolavam mutuamente com a idia de que, o que mais sofresse, melhor sorte havia de ter,
pelo que ambos desejavam, no ntimo dos seus coraes, ser o preferido, mas entregando-se
sempre nas mos dAquele que de tudo dispe com altssimo acerto e sabedoria. E nestas
disposies permaneceram, esperando os acontecimentos.

O processo seguiu seus trmites, e, chegando o dia do julgamento, foram os peregrinos
levados ao tribunal, e ali publicamente acusados. Era juiz do processo o doutor dio-ao-
Bem, e os pontos principais da acusao eram os seguintes: Que os rus eram inimigos e

                                          - 56 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

perturbadores do comrcio, que tinham provocado desordens e conflitos na cidade; e que
haviam levantado um partido em favor das suas perigosssimas opinies, desacatado
completamente as leis do prncipe reinante.

Fiel pediu a palavra para se defender, e falou assim: Quanto a mim, s me opus a quem
primeiro se levantou contra aquele que  superior ao mais alto. Distrbios no promovi; sou
homem de paz: Quem tomou a defesa f-lo por ver a nossa verdade, e a nossa inocncia; os
que assim procederam no fizeram mais do que passar dum estado pior para outro melhor.
Quanto ao que respeita ao rei de quem falais, que  belzebu, o inimigo de nosso Senhor,
desafio-o, bem como a todos os seus sequazes.

Fez-se em seguida um prego para que todos os que tivessem que dizer em favor d'el-rei,
seu senhor, e contra os rus, se apresentassem imediatamente para depor. Apresentaram-se
trs testemunhas: Inveja, Superstio e Adulao. Inquiridas se conheciam o ru, e sobre o
que tinham a dizer contra ele e em favor de el-rei, adiantou-se Inveja, que falou nestes
termos:

Inveja  Exmo. Sr. Juiz, conheo este homem h muito tempo, e afirmarei a este tribunal,
debaixo de juramento que...

Juiz  Esperai, esperai. Tende a bondade de prestar juramento.

Depois de cumprida esta formalidade, Inveja prosseguiu:

- Senhor, este homem, apesar do bom nome que tem,  um dos piores do nosso pas, pois
no respeita o prncipe, nem o povo, nem a lei, nem os costumes, e faz todo o possvel para
infundir em todos as suas pssimas idias a que chama, em geral, princpios de f e de
santidade. Resumindo, direi que da prpria boca do ru ouvi que o cristianismo e os
costumes da nossa cidade da Vaidade so diametralmente opostos, no podendo de forma
alguma harmonizar-se; do que se conclui, Sr. Juiz, que no s condena os nossos louvveis
costumes, mas tambm a todos quantos os seguem e cumprem.

Juiz  Tendes mais alguma coisa a acrescentar?

Inveja  Muito mais poderia dizer, se no temesse enfadar-vos, mas, se for preciso,
ampliarei o meu depoimento depois de outras testemunhas terem falado, para que no
faltem elementos para a condenao dos rus.

Juiz  Podeis retirar-vos.

Entrou em seguida Superstio. Ordenaram-lhe que olhasse para o ru, e que dissesse o que
sabia contra ele, em favor d'el-rei. Depois de prestar juramento, a testemunha falou do
seguinte modo:



                                           - 57
                                     John Bunyan
                                _____________________

Superstio  Sr. Juiz, no conheo bem este homem, nem tal desejo; sei, contudo, por uma
conversa que com ele tive nesta cidade, que  muito perigoso. Ouvi-lhe dizer que a nossa
religio  v, e que por ela ningum pode agradar a Deus, donde necessariamente se conclui
que, na opinio do ru,  vo o culto que prestamos, permanentes os nossos pecados e certa
a nossa condenao. Eis o que tenho a dizer.

Seguiu-se o juramento de Adulao, que assim falou contra o acusado:

Adulao  Exmo. Juiz e mais senhores que fazeis parte do tribunal, h muito que conheo
este ru, a quem tenho ouvido dizer coisas que nunca deveriam dizer-se. Tem ele injuriado
o nosso excelso prncipe belzebu, e falado com desprezo dos seus ilustres amigos, tais
como do senhor Homem-Velho, do senhor Deleite-Carnal, do senhor Comodidade, do
senhor Desejo-de-Vanglria, do respeitvel ancio senhor Luxria, do cavaleiro
Voracidade, e de muitos outros de nossa primeira nobreza. Tambm tem dito que, se fosse
possvel pensarem todos como ele, no ficaria nesta cidade nenhum destes distintos
cavalheiros. Ainda mais: nem Vossa Excia. Que foi nomeado seu juiz, tem escapado s
suas injrias; tem-lhe chamado maroto, mpio, e outros nomes injuriosos e insultantes, com
que em geral qualifica a maior parte das ilustres personagens da cidade.

Terminado o depoimento de Adulao, dirigiu-se o juiz ao acusado, dizendo-lhe:
Renegado, herege e traidor, ouvistes o que estas respeitveis testemunhas disseram contra
ti?

Fiel   permitido que eu diga algumas palavras em minha defesa?

Juiz  Ah, malvado! No mereces viver nem mais um instante sequer; contudo, para que se
veja quanta condescendncia uso para contigo, podes falar. Que tens, pois, a dizer?

Fiel  Direi, em primeiro lugar, e em contestao ao depoimento do senhor Inveja, que as
palavras por que me incrimina foram estas: Que todas as regras, leis, costumes, ou pessoas
que sejam diretamente contrrias  palavra de Deus so diametralmente opostos ao
Cristianismo. Se isto no  verdade, convenam-me do erro, que eu estou pronto a fazer
aqui a minha retratao.

Quanto  segunda testemunha, o senhor Superstio, e ao seu depoimento, tenho a declarar
que o que eu disse foi: Que no culto de Deus  necessria uma f divina, a qual no pode
existir sem uma revelao divina da vontade de Deus; e que, portanto, tudo quanto se
introduzir no culto de Deus, em desarmonia com a revelao divina, no pode provir seno
duma f humana, a qual  de nenhum valor para a vida eterna.

Pelo que respeita ao senhor Adulao, pondo de parte o que vos disse de injrias e coisas
semelhantes, direi que o prncipe desta cidade, com a scia da sua corte a que a testemunha
se referiu, so mais dignos e merecedores do inferno do que desta cidade e deste pas. E
terminarei, dizendo que o Senhor tenha misericrdia de mim.


                                          - 58 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

Ento o juiz, voltando-se para o jri, que durante toda a audincia estivera ouvindo e
observando, disse:

- Senhores jurados, vede que este homem provocou um grande tumulto na vossa cidade.
Acabais de ouvir o que as dignas testemunhas depuseram contra ele; igualmente ouvistes a
sua rplica e confisso. Pertence-vos conden-lo ou absolv-lo; antes, porm, a vossa
deciso, parece-me conveniente instruir-vos na vossa lei.

No tempo de fara, o grande, servo de nosso prncipe, querendo-se obstar a que se
multiplicassem os sectrios duma religio contrria  nossa, e a que se tornassem mais
fortes do que era convenientemente, foi promulgado um decreto em que se ordenava que
todos os seus filhos vares fossem lanados no rio (xodo 1:22). Nos dias de
Nabucodonosor, o grande, tambm servo do nosso prncipe, publicou-se um decreto para
que todos quantos no quisessem dobrar os joelhos e adorar a sua imagem de ouro fossem
lanados num forno incandescente (Daniel 3:6).

No tempo de Dario tambm se publicou um edito, ordenando que fosse lanado  cova dos
lees todo aquele que em determinado tempo invocasse outro deus que no fosse o mesmo
Dario (Daniel 6:7). Ora, este rebelde violou o princpio estabelecido por estas leis, no s
por pensamentos (o que por si no poderia admitir-se), mas at por palavras e por obras.
Poder isto tolerar-se?

E notai que o decreto de fara era baseado numa suposio, isto , tinha por fim prevenir
um mal, pois at quela poca nenhum crime se havia ainda cometido; enquanto que, no
caso presente, h completa infrao da lei. No segundo e terceiro ponto ofende a nossa
religio, e, como ele prprio confessa a sua traio,  digno de morte.

Ouvida a exposio da lei, retirou-se o jri, que era composto dos senhores Cegueira,
Injustia, Malcia, Lascvia, Libertinagem, Temeridade, Altivez, Malevolncia, Mentira,
Crueldade, dio--Luz e Implacvel, e, tendo cada um emitido a sua opinio contra o ru,
decidiram unanimemente que os crimes estavam provados. E assim declararam ao juiz.
Cegueira, que era o presidente do jri, disse:

- Vejo claramente que este homem  herege.

- Fora do mundo com este maroto, disse Injustia.

- Sim, acrescentou Malcia, porque at v-lo me aborrece.

- Eu, por minha parte, nunca pude encarar com ele, disse Lascvia.

- Nem eu, confirmou Libertinagem, porque estava sempre a censurar o meu modo de vida.

- Forca, forca com ele, disse Temeridade.


                                            - 59
                                     John Bunyan
                                _____________________

-  um miservel, acrescentou Malevolncia.

-  um infame, disse Mentira.

- Faz-se-lhe um grande favor em enforc-lo, disse Crueldade.

-  despach-lo quanto antes, apoiou dio--Luz. E finalmente, disse Implacvel: Ainda
que me dessem todo o mundo, no poderia reconciliar-me com ele. Declaremo-lo, pois, e
desde j, digno de morte.

E assim o fizeram. Condenaram-no a ser levado ao stio onde comeara o tumulto, e a ser
ali justiado da maneira mais cruel que se pudesse inventar.

Apoderaram-se dele para cumprirem as suas leis, aoitaram-no, esbofetearam-no, cortaram-
lhe em pedaos de carne, apedrejaram-no, feriram-no com espadas, e finalmente lanaram-
no ao fogo e reduziram-no a cinzas. Assim pereceu Fiel.

Mas, por detrs da multido, vi eu, no meu sonho, um carro tirado a dois cavalos, que o
esperava. E, logo que seus inimigos o mataram, foi arrebatado naquele carro pelas nuvens,
ao som de trombetas, rumo  porta celestial. O castigo de Cristo foi adiado. O nosso
peregrino voltou para a priso, onde esteve ainda por algum tempo. Aquele, porm, que de
tudo dispe, e que tem na sua mo o poder da raiva dos inimigos, permitiu que Cristo
escapasse por esta vez e continuasse o seu caminho.

Que doces cantos ouvi eu de Cristo, enquanto caminhava! "Grande foi a tua felicidade no
Senhor, meu bom amigo Fiel", dizia ele. "Agora ests bendito, enquanto os incrdulos,
cujos prazeres so falsos e vos, se lamentaro no meio de penas e de agonias. Bendize a
Deus, amigo Fiel, e canta: teu nome ser eterno, porque vives, apesar de te haverem
morto."




                                          - 60 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

Captulo 14
Cristo encontra em Esperana um excelente companheiro, e, inflamados ambos pelo amor
de Deus, resistem aos sofismas de vrios indivduos que encontram no caminho.


Vi, ento, no meu sonho, que Cristo no sara sozinho da cidade, mas que ia acompanhado
por Esperana, o qual chegara a obter este nome vendo a conduta de Cristo e Fiel,
ouvindo-os e presenciando os seus sofrimentos na feira da Vaidade. Esperana juntou-se a
Cristo, e, tratando-o com paz fraternal, prometeu que seria seu companheiro. De modo
que, tendo morrido Fiel por dar testemunho da verdade, das suas cinzas se levantou outro,
para ser companheiro do peregrino; e, segundo dizia Esperana, havia muitos outros l na
feira que os seguiram na primeira ocasio.

Pouco tinham andado os dois companheiros, quando os alcanaram um sujeito chamado
Interesse-Prprio, a quem perguntaram donde vinha e para onde ia.

- Venho da cidade das Boas-Palavras, e dirijo-me para a Cidade Celestial. - Mas no lhes
disse o seu nome.

Cristo  Vindes da cidade das Boas-Palavras? H por l algum que seja bom? (Provrbios
26:24).

Interesse-Prprio  Certamente; quem poder duvid-la?

Cristo  Quereis ter a bondade de dizer-me o vosso nome?

Interesse-Prprio - Meu caro, eu sou para vs um estranho, assim como vs o sois para
mim; se ides por este caminho, muito folgarei com a vossa companhia; se no, passarei sem
ela.

Cristo  Tenho ouvido falar algumas vezes dessa cidade de Boas-Palavras. Segundo
dizem,  terra de muitas riquezas.

Interesse-Prprio  So quase todos os habitantes das tunas; eu mesmo tenho ali parentes
muito ricos.

Cristo  No ser indiscrio perguntar quem so esses vossos parentes?

Interesse-Prprio  So quase todos os habitantes da cidade, mas principalmente o senhor
Vira-Casaca, o senhor Contemporizador, e o senhor Boas-Palavras, de cujos ascendentes
tomou seu nome a cidade, os senhores Afago, Duas-Caras, Qualquer-Coisa, o pior da
freguesia, e senhor Duas-Lnguas, que era irmo da minha me por linha paterna, porque,
realmente, para falar toda a verdade, eu sou fidalgo de muito boa linhagem, apesar de meu


                                          - 61
                                     John Bunyan
                                _____________________

av no passar de um barqueiro que o olhava para um lado e remava para outro, ocupao a
que adquiri quase toda a minha fortuna.

Cristo  O senhor  casado?

Interesse-Prprio -Sou. Minha esposa  uma dama muito virtuosa, filha duma senhora
tambm virtuosssima, a senhora Impostura; pertence, portanto, a uma famlia muito
respeitvel, tendo chegado a um grau to elevado de fina educao que sabe perfeitamente
como se vive com um prncipe ou um aldeo.  verdade que divergimos algum tanto de
outras pessoas nas nossas opinies religiosas, mas s em dois pequenos pontos: 1. - Nunca
teimamos contra o vento e a mar; 2. - Somos mais zelosos pela religio quando esta se
nos apresenta com sapatos de prata; e gostamos muito de a acompanhar em pblico,  luz
do sol, quando todos vem e aplaudem.

Cristo voltou-se para o seu companheiro Esperana, e disse-lhe em voz baixa:

- Se no me engano, este sujeito  um tal Interesse-Prprio, natura de Boas-Palavras. Se
assim , levamos em nossa companhia o velhaco mais consumado destes arredores.

- Por certo no ter vergonha em confess-lo  redargiu Esperana.

Cristo aproximou-se outra vez, e disse-lhe:

- Cavalheiro, fala como grande conhecedor do mundo, e, se no estou mal informado,
parece-me que j adivinho quem . No se chama o senhor Interesse-Prprio, de Boas-
Palavras?

Interesse-Prprio  No, senhor, no  esse o meu nome, apesar de assim me chamarem
algumas pessoas, e, de eu me resignar a aceit-lo como insulto, a exemplo do que fizeram,
antes de mim, outros homens no menos respeitveis.

Cristo  E que motivo deu o senhor para lhe porem semelhante alcunha?

Interesse-Prprio  Nenhum, absolutamente; e s posso atribu-lo ao fato de ter tido a sorte
de estar sempre de acordo com as opinies do tempo presente, quaisquer que elas sejam,
com o que me tenho dado perfeitamente bem. Isto considero eu como uma grande bno, e
no acho justo que meia dzia de mal intencionados me censurem.

Cristo  Pois eu j tinha conjeturado que era o tal sujeito de quem tenho ouvido falar, e
receio muito que essa alcunha lhe assente melhor e com mais justia do que eu e o senhor
supomos.

Interesse-Prprio  Contra essa opinio nada tenho a dizer: vereis, contudo, que eu sou um
companheiro decente, se permitis que continue a ir convosco.


                                           - 62 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

Cristo  Se quereis acompanhar-nos tereis de remar contra o vento e contra a mar, o que,
segundo vejo, no est no vosso credo. Tereis de reconhecer a religio tanto nas suas galas
como nos seus andrajos, e acompanh-la tanto quando sofre perseguies como quando
passeia pelas ruas com geral aplauso.

Interesse-Prprio  No queira impor-se nem subjugar-me para se apoderar da minha f;
deixe-me liberdade de proceder, como eu quiser, e sob esta nica condio acompanha-lo-
ei.

Cristo  Nem mais um passo! Se no vos conformais com o que ns fazemos, deixa-nos.

Interesse-Prprio  Nunca reneguei a meus princpios, alis, inocentes e proveitosos. Se
no consentem que os acompanhe, farei como antes de os encontrar: irei sozinho at achar
quem goste da minha companhia.

Vi, ento, no meu sonho, que Cristo e Esperana o abandonaram, conservando-se ambos a
certa distncia na sua frente.Um deles, olhando para trs, viram trs homens que seguiram
Interesse-Prprio, o qual cumprimentou respeitosamente quando eles se aproximaram,
recebendo em troca afetuosas saudaes. Eram estes trs recm-chegados os senhores
Apego-ao-Mundo, Amor-ao-Dinheiro e Avareza, antigos conhecidos de Interesse-Prprio,
que juntamente com eles freqentava a escola do senhor Cobia, na cidade de Amor-ao-
Ganho. Esse sbio professor ensinara-lhes a arte de adquirir, tanto pela violncia, pela
fraude, pela adulao e pela mentira, como sob o pretexto de religio, e todos os quatro
tinham aproveitado com as lies, a ponto de poder qualquer deles tomar sobre si o encargo
de reger a escola.

Depois de se haverem saudado reciprocamente, como j disse, Amor-ao-Dinheiro
perguntou a Interesse-Prprio quem eram os que iam na frente, pois ainda avistava ao longe
Cristo e Esperana.

Interesse-Prprio  So dois habitantes dum pas longnquo, que vo peregrinando a seu
modo.

Amor-ao-Dinheiro  Que pena  no se terem demorado mais um pouco, para podermos
gozar da sua boa companhia, porque todos somos peregrinos!

Interesse-Prprio   verdade; mas aqueles so to rgidos, amam tanto as suas idias, e
tm to pouca considerao pelas de outrem, que, por mais piedoso que seja, ningum lhes
agrada se no pensa como eles, e logo se apartam da sua companhia.

Avareza  Isso  mau; mas h muitos exemplos de pessoas demasiado justas, cuja rigidez
os faz julgar e condenar a todos, exceto a si prprios. Quais eram, ento, os pontos em que
divergiam as suas opinies?



                                           - 63
                                    John Bunyan
                               _____________________

Interesse-Prprio  Eles asseguram, na sua inflexibilidade, que devem prosseguir em seu
caminho com todos os demais, enquanto eu quero esperar o vento e a mar; eles no
duvidam arriscar tudo por Deus, e eu desejo aproveitar-me de todas as ocasies para
assegurar a minha e os meus bens; eles empenham-se em sustentar as suas idias, ainda que
estejam em oposio s de todo o mundo, e eu sigo os preceitos da religio enquanto e at
onde permitem os tempos e a minha prpria segurana; eles estimam a religio, ainda que
seja pobre e desgraada, eu estimo-a quando ela anda com esplendor e com aplauso.

Apego-ao-Mundo  Tendes vs muita e muita razo. Pela minha parte, considero muito
tolo aquele que, podendo guardar o que tem,  to nscio que o deixa perder. Sejamos
sbios como serpentes e ceifemos a erva em tempo prprio. A abelha conserva-se imvel
durante o inverno, e s aparece quando pode reunir o proveito com prazer. Deus manda o
sol e a chuva, alternadamente. Se eles querem andar  chuva, deixemo-los, e vamos ns
andando com o bom tempo. Pela minha parte, prefiro a religio que seja compatvel com a
posse e com as ddivas de Deus. Pois se Deus nos concedeu as coisas boas da vida, quem
ser to destitudo de razo que possa imaginar que o Senhor no quer que as conservemos
e guardemos por causa dele?

Abrao e Salomo enriqueceram  na sua religio. J diz-nos que o homem bom
entesourar ouro como p. Mas, por certo, seria com esses que vo a adiante, se
efetivamente so como vs dizeis.

Avareza  Parece-me que estamos todos de acordo neste ponto, e no creio que haja dvida
em mudarmos de assunto.

Amor-ao-Dinheiro  Nada mais temos a dizer a este respeito. E quem no cr na Escritura e
na razo (que ambas esto do nosso lado) no conhece a sua liberdade prpria, nem busca a
prpria segurana.

Interesse-Prprio  Amigos, pelo que se v, todos somos peregrinos, e, para melhor nos
apartamos das coisas ms, permitam-me que lhes proponha uma questo.

Suponhamos que um pastor de almas, ou um comerciante, a quem se apresentasse a ocasio
de possuir as boas coisas desta vida, mas que no pudesse alcan-las de modo algum sem
que fizesse, pelo menos na aparncia, extraordinariamente zeloso em algum ponto da
religio, com que at ento se no houvesse importado muito; no lhe ser permitido
empregar os meios necessrios para obter o seu fim, sem por isso deixar de ser homem
honrado?

Amor-ao-Dinheiro  Vejo o fundo da vossa questo, e, com o amvel consentimento destes
cavalheiros, vou dar-vos uma resposta, que considerarei primeiro em relao ao pastor.
Imaginemos um homem desta classe, um homem bom, que possui um benefcio muito
pequeno, e que, na expectativa de outro mais cmodo e mais rendoso, tem ensejo de obter,
com a condio de ser mais estudioso, de pregar mais e com maior zelo; apesar das


                                         - 64 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

opinies contrrias, eu no vejo razo alguma para que este homem no possa fazer isso e
ainda muito mais, uma vez que tenha ocasio, e sem deixar de ser homem honrado.

E por que?

1. - Desejar um benefcio melhor e lcito, sem a menor contradio, posto que seja a
Providncia que o depara; e assim pode obt-lo se isto est ao seu alcance e no se prende
com questes de conscincia.

2. - Alm do que, o desejo desse benefcio torna-o mais estudioso e mais zeloso pregador,
obriga-o a cultivar mais o seu talento, tudo o que , sem dvida, muito em conformidade
com a vontade de Deus.

3. - Quanto a acomodar-se ao carter do seu povo, deponho em suas asas alguns dos seus
princpios, isto supe: a) que  dotado dum esprito cheio de abnegao; b) de proceder
doce e atrativo; c) que  mais apto, portanto, para o ministrio pastoral.

4. - Deduzo, pois, que um pastor, que troca um benefcio pequeno por outro maior no
deve ser alcunhado de avarento. Antes, pelo contrrio, deve considerar-se que no faz seno
seguir a sua vocao e aproveitar-se da oportunidade de fazer o bem que se lhe depara.

Quanto  segunda parte da questo, isto , com referncia ao negociante, suponhamos que o
seu negcio  muito reduzido, mas que, tornando-se religioso, pode melhorar de sorte,
encontrando talvez uma esposa rica, ou maior nmero de fregueses.

Quanto a mim no vejo razo alguma para que isto no possa fazer-se com lisura; porque,
1., tornar-se religiosa  uma virtude, qualquer que seja o caminho que se siga para o
realizar; 2., tambm no  ilcito procurar uma esposa rica ou mais e melhores fregueses;
3., alm do que, o homem que alcana estas coisas fazendo-se religioso, obtm uma coisa
boa de outras igualmente boas, e torna-se a si mesmo bom; consegue muitas coisas boas,
boa esposa, bons fregueses, bons ganhos, e torna-se bom. Logo, fazer-se religioso para
obter todas estas coisas  uma tentao boa e de proveito.

Estas palavras de Amor-ao-Dinheiro foram muito aplaudidas por todos, concluindo-se
unanimemente que tal doutrina era s e vantajosa

E, como lhes parecia que no podia ser contestada, resolveram apressar o passo para
proporem a questo a Cristo e Esperana, e com tanto maior empenho quanto sabiam que
eles tinham combatido as opinies de Prprio- Interesse. Comearam logo a cham-los em
altos brados, obrigando-os aparar e esperar. Tinham resolvido de quem havia de propor a
questo no seria Interesse-Prprio, mas sim Apego-ao-Mundo, porque, na sua opinio, a
resposta que este recebesse no seria to acalorada como a recebera Prprio- Interesse.
Assim que alcanaram os dois peregrinos, todos se saudaram, e Apego-ao-Mundo expos a
questo, pedindo o favor de a resolverem, caso pudessem.


                                           - 65
                                     John Bunyan
                                _____________________

Cristo respondeu nestes termos: - No s eu, mas qualquer novato em religio poderia
facilmente responder a mil perguntas como essa; se  lcito seguir a Cristo por causa dos
pes, como se v em Joo 42;26, quanto mais abominvel ser servir-te de Cristo e da
religio como meio para conseguir e gozar as coisas do mundo! S os gentios, os
hipcritas, os demnios e os feiticeiros podero aceitar semelhante opinio.

1 - Os gentios: Quando Hamor e Siqum quiseram possuir as filhas e os gados de Jac, e
viram que no havia outro meio para conseguir seno deixarem-se circuncidar, disseram
aos seus companheiros:"Se todos os nossos vares se circuncidarem, como eles fazem,
todos os seus gados e toda a sua fazenda sero nossos".

(Leia-se toda a histria em Gnesis 34:20-24)

Os que eles buscavam eram as filhas e os gados de Jac. A religio era apenas o meio de
obterem o seu fim.

2_ Os fariseus hipcritas tambm foram religiosos deste gosto. Grandes oraes eram
entre eles o pretexto para devorarem a casa das vivas, e por isso o resultado foi maior
condenao da parte de Deus (Lucas 20:46-47).

3 _ Tal era tambm a religio de Judas. Este demnio era religioso pela bolsa e pelo que
ela continha; mas perdeu-se e foi expulso como filho da perdio.

4 _ Nesta religio estava tambm filiado Simo Mago, porque queria possuir o Esprito
Santo para ganhar dinheiro; mas recebeu da boca de Pedro a merecida sentena (Atos 8:18-
23).

5 _ Tambm no posso deixar de dizer que todo aquele que toma a religio para possuir o
mundo, a deixar, se necessrio for, para no abandonar este; pois  to certo que Judas se
fez religioso por causa do mundo como  certo que pela mesma causa vendeu sua religio e
o seu Senhor. Responder afirmativamente  questo que opusestes, como me parece que
vs tendes respondido, e aceitar essa resposta como boa  ser pago, hipcrita e filho da
perdio, e assim a vossa recompensa ser condigna com as vossas obras.

Ouvindo este discurso, ficaram os falsos peregrinos sem saber o que haviam de replicar.
Ento Cristo disse para o seu companheiro: Se estes homens no podem sustentar-se ante a
sentena do homem, o que ser quando se apresentarem no tribunal de Deus? Se os vasos
de barro os fazem calar, o que ser quando forem repreendidos pelas chamas dum fogo
devorarador?

Cristo e Esperana continuaram o seu caminho, at chegarem a uma bela plancie chamada
Alvio. Mui agradvel lhes foi atravessarem esta plancie, mas o prazer foi pouco
duradouro, porque ela era pouco extensa. Encontraram do outro lado uma colina chamada
Lucro, e nessa colina havia uma mina de prata. Alguns dos viajantes que tinham passado
por aquele stio haviam deixado a estrada para visitarem a mina, a qual julgavam muito

                                          - 66 -
                                       O Peregrino
                                  _____________________

rara. Aconteceu-lhes, porm, que, aproximando-se demasiadamente da abertura do poo, o
terreno que pisavam cedeu, por ser falso, e foram precipitados no abismo, onde
encontraram a morte; outros, que no morreram, ficaram aleijados e estropiados e nunca
mais puderam recuperar as foras enquanto viveram.

Vi ento no meu sonho que,  pequena distncia do caminho e prximo  entrada da mina,
estava Demas a chamar constantemente os transeuntes e a convid-los a admirar aquela
maravilha. Vendo Cristo e o seu companheiro, comeou a cham-los, dizendo: Ol!
Aproximai-vos, se quereis ver uma coisa surpreendente!.

Cristo  Que coisa poder ter tamanho interesse, que nos obrigue a parar e a desviar-nos
do caminho?

Demas  H aqui uma mina de prata, onde se pode cavar e alcanar um tesouro. Se quereis
vir, podereis levar grande riqueza com pequeno trabalho.

Esperana  Vamos v-la?

Cristo  No! J tenho ouvido falar desta mina, e de muita gente que j tem perecido.
Alm disso, esse tesouro  um lao para os que o procuram, porque os estorva na sua
peregrinao.

Cristo gritou ento a Demas, dizendo: - No  verdade que esse lugar  perigoso? No tem
estorvado a muitos na sua peregrinao?" (Osias 4:16-19)

Demas  S  perigoso para os descuidados. (E corou ao dizer estas palavras).

Cristo  Esperana, nem mais um passo devemos dar nesta direo. Continuemos nosso
caminho.

Esperana  Quando o Interesse-Prprio chegar aqui, por certo vai ver a mina, se para isso
o convidarem.

Cristo  Disso no tenho a menor dvida, porque esses so os seus princpios, e  quase
certo que encontre ali a morte.

Demas  Ento, no quereis vir?

Cristo  (Resolutamente). Demas, tu foste inimigo dos caminhos retos do Senhor, e j
foste condenado por um dos juzes de Sua Majestade, por te haveres desviado na mesma
condenao? Se nos desviamos, no menor ponto que seja, por certo que o nosso Rei e
Senhor ser sabedor disso, e envergonhar-nos- onde menos queremos ser envergonhados,
que  na sua presena.

Demas  Eu penso como vs, e se quereis esperar um pouco acompanhar-vos-ei.

                                           - 67
                                      John Bunyan
                                 _____________________


Cristo  Como te chamas? No  teu o nome por que te tratei?

Demas - , sim. Chamo-me Demas e sou filho de Abrao.

Cristo  Bem te conheo. Teu bisav era Giesi e teu pai Judas, dos quais seguiste as
pisadas.  uma rede infernal o que tu nos queres armar; teu pai enforcou-se por traidor, e tu
no mereces outra coisa (II Reis 5:20-27; Mateus 26:14-15; 27:3-5). Asseguro-te que,
quando chegarmos  presena do Rei, informa-lo-emos da tua conduta.

E continuaram seu caminho.

Naquele momento chegou Interesse-Prprio e seus companheiros, que logo se acercaram de
Demas, assim que este os chamou. No posso asseverar se caram na mina por se haverem
aproximado muito da borda, ou se desceram para cavar, ou se afogaram no fundo pelos
vapores que ali se costumam desenvolver; o que sei  que no tornaram a aparecer na
estrada. Ento, exclamou Cristo: Interesse-Prprio e Demas entendem-se perfeitamente!
Um chama e outro responde. Cegou-os a cobia! Infelizes! Assim sucede aos que s
pensam no mundo, julgando que nada h alm dele!

Vi depois que, quando os peregrinos chegaram ao outro extremo da plancie, encontraram
um monumento antigo que lhes causou bastante admirao, pois parecia uma mulher que
tivesse sido transformada numa espcie de coluna. Pararam, e, por muito tempo, no
encontraram a explicao do que viam.

Esperana descobriu um letreiro na cabea da esttua, mas por ser pouco versado na leitura,
indicou-a a Cristo, que, depois de o examinar, conseguiu ler: - "Lembrai-vos da mulher de
L."

Concordaram ambos em que essa era a esttua de sal em que fora transformada a mulher de
L, por ter olhado para trs, cheia de cobia, quando fugia de Sodoma (Gnesis 19:26).
Este espetculo inesperado deu ocasio a que entre eles se travasse o seguinte dilogo:

Cristo  Ah, querido irmo, muito a propsito vem esta visita, depois do convite que nos
fez Demas, para irmos  colina do Lucro. Se tivssemos ido l, como ele queria (e tambm
estavas disposto a querer, segundo vi), teramos sido igualmente o espetculo para os que
vm atrs de ns.

Esperana  Muito me pesa haver sido to nscio, e admiro-me de no estar j como a
mulher de L, porque na verdade, no h diferena entre o pecado dela e o meu. Ela no fez
seno olhar para trs, e eu tive desejo de ir ver o tesouro. Bendita seja a graa preventiva!
Envergonho-me de ter abrigado semelhante desejo no meu corao.




                                           - 68 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

Cristo  Consideremos bem no que aqui vimos, para nos servir no futuro. Esta mulher
livrou-me de um castigo, porque no morreu na destruio de Sodoma; apesar disso, foi
alcanada por outro castigo, como estamos vendo: foi mudada em esttua de sal.

Esperana   verdade. Sirva-nos isto de aviso, para evitarmos o seu pecado, e de exemplo,
para nos lembrarmos da condenao que h de ferir os que no se corrigirem com o aviso.
De igual modo Cor, Dat e Abiro e s duzentos e cinqenta homens que com eles
pereceras no seu pecado, foram tambm um exemplo para outros aprenderem (Num. 16:31-
32; 26:9-10). H porm, uma coisa que especialmente me preocupa. Como podem estar ali
to confiadamente Demas e os seus companheiros, em busca dum tesouro, quando esta
mulher, s por ter olhado para trs (pois lemos que se desviasse do caminho um s passo),
foi mudada em esttua de sal? E ainda mais: se se considera que a condenao que a feriu,
fez dela um exemplo palpvel que entra pelos olhos, por que, ainda que no queiram v-la,
no podem deixar de fit-la sempre que levantem os olhos?

Cristo   realmente maravilhoso. Isto prova que os seus coraes esto j de todo
pervertidos, e s podem comparar-se aos que roubam na presena do prprio juiz, ou com
os que assassinam  vista da fora. Diz-se que os homens de Sodoma eram grandes
pecadores, porque o "eram diante do Senhor ", isto , a seus olhos, apesar da bondade que
lhes havia prodigalizado, porque a terra de Sodoma era como o antigo Jardim do den
(Gnesis 13:10-13). Isto provocou-o muito mais, e fez com que sua praga fosse to ardente
como poderia ser o fogo do cu do Senhor. E  muito razovel concluir que homens como
estes, que se empenham em pecar  vista e a despeito dos exemplos que lhes apresentam
por escarmento, fazem-se merecedores dos mais severos castigos.

Esperana  Isto  certssimo; mas quanta misericrdia nos tem sido dispensada, para que
nem tu nem eu, especialmente, tenhamos sido feitos um exemplo como este! Devemos dar
muitas graas a Deus por viver sempre em temor na sua presena, e nunca esquecer a
mulher de L.




                                          - 69
                                     John Bunyan
                                _____________________

Captulo 15
Cristo e Esperana, vendo-se rodeados de consolao e de paz, caem em negligncia, e,
tomando por caminho errado, so aprisionados pelo gigante Desespero; mas, tendo
invocado o Senhor, recuperam a liberdade por meio da chave de promessas.


Iam os nossos peregrinos seguindo o seu caminho, quando os vi chegar a um belo rio, a que
o rei Davi chamou "rio de Deus" e Joo "rio da gua da vida" (Salmos 65:9; Apocalipse.
22:1; Ezequiel 47:1-9).

Tinham de passar este rio. Grande foi a consolao que sentiram, e maior ainda quando,
tendo aplicado seus lbios  gua da vida, acharam que ela era agradvel e refrigerante para
os seus espritos fatigados.

Nas margens do rio cresciam rvores frondosas, que produziam toda a qualidade de frutos,
e cujas folhas serviam para prevenir aquelas doenas que ordinariamente atacam as pessoas
que, por terem andado muito, sentem exaltao no sangue. De um e de outro lado do rio
havia formosos prados ornados de viosos lrios, que todo o ano se conservavam verdes.
Chegados a um destes prados, deitaram-se e adormeceram, porque neste lugar podiam
descansar com segurana (Salmos 23:2; Isaas 14:30). Quando despertaram, comeram dos
frutos das rvores, tornaram a beber da gua da vida, e adormeceram outra vez. E assim
fizeram por alguns dias que permaneceram neste lugar. O prazer de que estavam possudos
era tanto que exclamavam: _ "Bendito seja o Senhor, que preparou estas guas cristalinas
para os peregrinos que por aqui passam.  suave a fragrncia que exalam estes prados, que
com grande delcia nos convidam. Aquele que provar estes frutos ou mesmo folhas destas
rvores, da melhor vontade vender quanto possui para comprar esta terra".

Como ainda no tivessem chegado ao fim da sua viagem, resolveram partir, depois de
terem comido e bebido.

Vi ento no meu sonho que, logo ali perto, se separavam o caminho e o rio, circunstncia
que no deixou de contrist-los. Apesar disso, no se atreveram a abandonar a estrada. Esta
quanto mais se afastava do rio, tanto mais spera se tornava, e como os ps dos peregrinos
estavam muito sensveis, em conseqncia da grande marcha que tinham feito, entrou em
suas almas um grande abatimento (Nmeros 21:4). No obstante, seguiram seu caminho,
posto que desejassem um prado, ao qual davam acesso umas pranchas de madeira; tinha o
nome de "Prado do caminho errado". Disse ento Cristo ao seu companheiro: Se este
prado continuasse paralelo ao caminho, poderamos ir por ele. E, aproximando-se das
pranchas, para melhor examinar, viu um atalho que seguia ao lado da estrada, do outro lado
do muro.

Esperana  E se nos perdermos no caminho?



                                           - 70 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

Cristo  No  provvel. Olha, no vs que o atalho segue paralelo  estrada?

Esperana, convencido pelo companheiro, passou com ele para o outro lado, e entraram no
atalho, que era muito suave para os ps dos nossos peregrinos. Avistaram um pouco mais
adiante um homem que seguia pelo mesmo atalho, e que se chamava V-Confiana.
Perguntaram-lhe aonde conduzia aquela vereda.  porta celestial, respondeu o homem.
"Vs? No te dizia eu?" perguntou Cristo ao seu companheiro. "Agora podemos estar
certos de que vamos bem". E continuaram a sua marcha, indo o mesmo homem na frente.
Eis que a noite os surpreende, e to escura se tornou que no podiam distinguir o homem
que ia adiante. Este, que no podia distinguir o caminho, caiu numa cova profunda,
mandada abrir pelo prncipe daqueles lugares, para que nela cassem os loucos presunosos,
e magoou-se muito na queda (Isaas. 3:16).

Cristo e Esperana, ouvindo-o cair, perguntaram-lhe em altas vozes o que lhe sucedera,
mas por nica resposta obtiveram um profundo gemido. Ento perguntou Esperana: Onde
estamos ns? Cristo no se atreveu a responder, temendo haver-se perdido. Ao mesmo
tempo comeou a chover, e violenta tempestade se desencadeou.. Os troves e os
relmpagos sucediam-se e a gua crescia e alagava os peregrinos. Esperana soltou um
gemido, dizendo consigo mesmo: Antes tivssemos ido pela estrada, como eu queria!

Cristo  Quem havia de pensar que este atalho nos havia de fazer errar o caminho!

Esperana  Tive um pressentimento disso, desde o principio, e por isso te fiz aquela
branda admoestao, no falando mais claramente por ter muito respeito  tua idade.

Cristo  No te ofendas, bom irmo. Sinto do ntimo da alma haver concorrido para
errares o caminho, expondo-te a to iminente perigo. Perdoa-me que no fiz com m
inteno.

Esperana  Sossega, irmo. Da melhor vontade te perdo, e cr que este acontecimento a
ambos ser proveitoso.

Cristo  Quanto estimo ter por companheiro um irmo to bondoso! Mas, em lugar de
estarmos aqui, voltemos para trs, em busca da vereda.

Esperana  Pois sim, querido irmo, mas deixa-me ir adiante.

Cristo  Isso no. Eu  que desejo ir em frente. Se houver algum perigo, seja eu quem
sofra primeiro, j que por minha causa nos perdemos ambos.

Esperana  No devo consentir, porque o teu esprito est turbado, e podemos extraviar-
nos ainda mais.

Neste momento ouviram, com a maior consolao, uma voz que dizia:


                                           - 71
                                    John Bunyan
                               _____________________

"Reparai bem na calada e no caminho por onde viestes; voltai!" (Jeremias 31:21). As
guas, porm, tinham crescido muito, motivo por que a volta era muito perigosa. (Pensei
ento quanto mais fcil  sair do caminho quando estamos nele do que alcan-lo depois de
o perder). Arriscaram-se os nossos peregrinos a voltar para trs; mas as trevas eram to
densas, a gua estava to alta, que estiveram perto de se afogarem por algumas vezes.

Por mais diligncia que empregassem, no podiam dar com as pranchas de madeira. Ento,
tendo encontrado um pequeno abrigo, assentaram-se ali e esperaram o nascer do dia,
adormecendo de fadiga e de cansao.

Prximo ao lugar em que se assentaram, havia um castelo chamado o castelo da Dvida,
cujo proprietrio era o gigante Desespero, a quem tambm pertenciam os terrenos onde os
nossos peregrinos haviam adormecido.

O gigante, tendo-se erguido cedo, passeava pelos seus campos, quando deparou,
surpreendido, com Cristo e Esperana, que ainda dormiam. Com voz spera e ameaadora,
perguntou-lhes donde eram e o que queriam dali. - Somos peregrinos, responderam eles, e
perdemo-nos no caminho. - Miserveis, exclamou o gigante; violastes os meus terrenos esta
noite, pisando e calcando a minha sementeira; sois meus prisioneiros. Nada podiam
responder a esta intimao, porque o gigante era mais forte, e porque se reconheciam
transgressores; assim resolveram obedecer. O gigante empurrou-os adiante de si, e meteu-
os numa das prises do seu castelo, escura, hedionda, e repugnante ao esprito dos pobres
peregrinos. Ali jazeram desde quarta-feira de manh at sbado  noite, sem comer, sem
gua, sem luz e sem que pessoa alguma viesse informar-se do seu estado. Tristssima era a
situao, longe de amigos e conhecidos (Salmos 88:1-18), e especialmente a de Cristo,
porque fora a sua mal aconselhada pressa a causa de tamanho infortnio.

A esposa do gigante Desespero chamava-se Desconfiana. A ela participou o gigante,
quando foram deitar-se, que apanhara os prisioneiros e os lanara no crcere por haverem
violado os seus campos, perguntando-lhes em seguida qual o destino que, segundo a sua
opinio, devia dar-se aos presos. Desconfiana, depois de inquirir quem eles eram, donde
vinham e para onde iam, aconselhou o marido a aoit-los sem misericrdia na manh
seguinte.

Assim, pois, o gigante, logo que se levantou, muniu-se dum terrvel chicote e desceu 
priso. Comeou por injuri-los, tratando-os como ces, e, posto que eles nada de mal
respondessem, caiu sobre eles, aoitando-os de tal modo que j no podiam mexer-se, nem
mesmo voltar-se, no cho, dum para outro lado. Feito isto, retirou-se, deixando-os
abandonados  sua misria e chorando a sua desgraa. Assim passaram aquele dia sozinhos,
em soluos e amargas lamentaes.

Na noite imediata, inteirada Desconfiana do que havia sucedido, disse ao marido que
devia aconselh-los a porem fim  prpria vida.



                                         - 72 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

Chegou o dia. O gigante dirigiu-se  priso com os modos bruscos da vspera, e, vendo
quanto os prisioneiros sofriam em conseqncia das pancadas que lhes havia dado, disse-
lhes:

- Visto que nunca haveis de sair daqui, o melhor que podeis fazer  pr fim  vida, pelo
ferro, pela corda, ou pelo veneno; porque, realmente, como haveis de suportar uma vida to
cheia de amargura?

Eles, porm, instavam com o gigante para que os deixasse continuar o seu caminho.

Fitou-os Desespero com um olhar colrico, e com tal mpeto caiu sobre eles que
seguramente os teria despedaado, se no tivesse sido acometido por um dos ataques a que
era sujeito, e que, privando-o do uso das mos, o obrigou a retirar-se e deix-los ss,
entregues s suas reflexes.

Puseram-se ento a discorrer se seria melhor seguir o conselho do gigante, e travaram entre
si este dilogo:

Cristo  Que havemos de fazer, irmo? A vida que passamos  de misrias, e no sei se
ser melhor viver assim ou acabar por uma vez. A minha alma prefere o suicdio  vida, e o
sepulcro a este crcere (J 7:15). Devemos seguir o conselho do gigante?

Esperana   certo que a nossa situao  terrvel, e que a morte ser-me-ia mais agradvel,
se temos que ficar aqui para sempre; devemos, porm, lembrarmo-nos de que o Senhor do
pas para onde nos dirigimos disse: "No matars", - e que, se nos fez esta proibio com
respeito a outrem, mais deve ela estender-se em relao a ns mesmos. Alm do que, quem
mata outrem no lhe mata mais do que o corpo, mas o que se suicida mata o corpo e a alma
de um s golpe. Falas tu do descanso do sepulcro? Esqueceste acaso para onde vo os que
matam? "Lembra-te que nenhum assassino tem a vida eterna". Devemos considerar que
nem toda lei est nas mos deste gigante. Julgo que outras pessoas tero cado, como ns,
em seu poder, e que, apesar disso, tem escapado das suas mos. Quem sabe se Deus, que
fez o mundo, far morrer este gigante Desespero, ou permitir que ele, mais dia, menos dia,
se esquea de correr o ferrolho, ou torne a ser acometido de algum acidente que lhe faa
perder o uso dos ps? Se assim acontecesse, estou resolvido a proceder com energia e a
fazer todo o possvel para fugir do seu poder; fui um louco em no ter j tentado faz-lo,
mas tenhamos pacincia e soframos um pouco mais; h de chegar a hora da nossa feliz
libertao; no sejamos, pois, assassinos de ns mesmos.

Com estas palavras conseguiu Esperana moderar, no momento o nimo de seu irmo, e
assim passaram juntos nas trevas aquele dia no mais doloroso estado.

Pelo cair da tarde tornou o gigante a descer  priso para ver se os presos tinham seguido o
seu conselho; e posto que no se tivessem suicidado, com pouca vida os achou, porque,
dum lado a falta de alimento, e do outro as feridas recebidas, tinham-nos enfraquecido, a
ponto de apenas respirarem.

                                           - 73
                                     John Bunyan
                                _____________________


Ao v-los ainda vivos, enfureceu-se o gigante e disse-lhes que melhor seria nunca haverem
nascido do que terem desprezado o seu conselho.

Esta ameaa atemorizou sobremaneira os dois prisioneiros, e Cristo quase desmaiou; mas,
tornando ambos um pouco a si, de novo discorreram sobre o conselho que o gigante lhes
dera.

Cristo mostrava-se inclinado a segu-lo mas Esperana disse-lhe:

- Querido irmo: acaso esqueceste o valor de que tantas provas deste em outras ocasies?
No pode derribar-te Apolio, nem to pouco tudo quanto viste, ouviste e sentiste no Vale
da Sombra da Morte. Quantas provaes, quantos terrores e quantos sustos tens passado!
Agora em ti vejo s fraqueza e temor! No estou eu aqui no mesmo crcere, eu, que sou por
Natureza muito mais fraco do que tu? No me feriu o gigante como a ti? No nos privou de
po e de gua? No lamento, como tu, estarmos imersos em profundas trevas? Ponhamos
em ao mais alguma pacincia. Lembra-te do valor que mostraste na Feira da Vaidade,
lembra-te de que no te atemorizaram, nem algemas, nem priso, nem a perspectiva de uma
terrvel morte, e suportemos os males presentes com pacincia tanto quanto pudermos, para
evitarmos a vergonha.

Assim se passou mais um dia.  noite, a esposa do gigante tornou a perguntar-lhe pelo
estado dos prisioneiros, para saber se eles haviam seguido o seu conselho. Respondeu-lhe o
gigante que eles eram uns homens sem brio nem vergonha, que preferiram sofrer tudo a
suicidar-se.

Tornou-lhe a mulher:

- Amanh, pois, pela manh, leva-os ao ptio do castelo, mostra-lhes as ossadas e as
caveiras dos que tens despedaado, e dize-lhes que antes de oito dias tero sofrido igual
sorte.

Assim se fez. Na manh seguinte levou-os o gigante ao ptio do castelo, segundo os
conselhos de sua mulher, e disse-lhes:

Estas ossadas pertenciam a peregrinos, como vs, que violaram os meus estados, como
tambm vs fizestes, e aos quais despedacei quando bem me pareceu, como hei de fazer-
vos dentro em poucos dias. Agora ide outra vez para a priso.

E acompanhou-os at  porta do crcere, dando-lhes muitos aoites. Ali permaneceram
tristes todo o dia de sbado, em circunstncias to lamentveis como anteriormente.
Chegada a noite, tornou o gigante a conversar com sua esposa acerca dos peregrinos,
estranhando que nem os aoites nem os conselhos pudessem dar cabo deles. - Receio, disse
a mulher, que nutram a esperana de que venha algum libert-los, ou que tenham


                                          - 74 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

conseguido alguma chave falsa, por meio da qual esperam evardir-se. Eu amanh os
revistarei, volveu o gigante.

Era perto da meia-noite de sbado quando os nossos peregrinos comearam a orar,
continuando ambos em orao at quase ao romper da alvorada.

Momentos antes de amanhecer, prorrompeu Cristo nestas fervorosas palavras, como se
estivesse espavorido: Que louco e que nscio eu sou em estar aqui neste calabouo, quando
podia estar gozando a liberdade! Tenho no peito uma chave chamada Promessa que, estou
persuadido, poder abrir todas as fechaduras do castelo da Dvida. - Sim? Exclamou
Esperana: Que boas notcias me ds, irmo; tira pois a chave do teu seio e
experimentemos.

Cristo tirou a chave e aplicou  porta da priso. Instantes depois a fechadura cedia, e a
porta abria-se de par em par, com a maior facilidade. Cristo e Esperana saram.
Chegaram  porta exterior que dava para o ptio do castelo, a qual cedeu com a mesma
facilidade. Dirigiram-se em seguida para o porto de ferro que fechava toda a fortaleza, e,
apesar de a fechadura ser excessivamente forte e complicada, conseguiram abri-la com a
chave. Empurraram o porto para fugirem a toda pressa, mas os gonzos rangeram tanto que
acordaram o gigante Desespero, o qual se levantou imediatamente para ir em perseguio
dos fugitivos; mas faltaram-lhe as foras, porque foi acometido por um dos seus acidentes,
o que o impedia de correr atrs dos peregrinos. Entretanto, corriam eles, chegando  estrada
real, livres de todo o receio, pois j se achavam fora da jurisdio do gigante.

Tendo passado a prancha que dava serventia para os terrenos pertencentes ao castelo,
comearam a refletir entre si sobre o modo por que podiam prevenir do perigo em que se
achavam em poder do gigante, e assentaram em erguer ali uma coluna, gravando-lhe no
cimo estas palavras: Este caminho conduz ao castelo da Dvida, propriedade do gigante
Desespero, que menospreza o Rei do pas celestial e busca destruir os seus santos
peregrinos.

Esta preveno aproveitou a muitos que chegaram mais tarde quele stio, e que, lendo o
letreiro, puderam evitar o perigo.

E depois de erigida a coluna, entoaram um hino, que se compunha, pouco mais ou menos,
das seguintes palavras: Que terrvel situao a nossa, quando saamos do caminho direito;
ento conhecemos o que  pisar terreno vedado! Vs que nos seguis nesta peregrinao,
estai vigilantes, aprendei do nosso exemplo, e fugi sempre de entrar no castelo da Dvida,
porque caireis nas mos do terrvel gigante Desespero.




                                           - 75
                                       John Bunyan
                                  _____________________

Captulo 16
Os peregrinos so hospedados pelos pastores nas montanhas das Delcias


Caminhando, chegaram os nossos peregrinos, finalmente s montanhas das Delcias.
Subiram-nas para contemplarem o jardim, as vinhas e as fontes: beberam, lavaram-se e
comeram livremente do fruto da vida No cimo das montanhas havia pastores que
apascentavam os rebanhos, e naquela ocasio estavam a pequena distncia do caminho. Os
peregrinos acercaram-se deles, e, apoiados aos seus bordes (como fazem os viajantes
cansados quando param a falar com algum no caminho), perguntaram-lhes a quem
pertenciam aquelas montanhas das Delcias e os gados que ali pastavam.

Pastores  Estas montanhas so do pas de Emanuel, e daqui avista-se a Cidade Celestial;
tambm so dele as ovelhas, pelas quais deu a sua vida.

Cristo   este caminho que conduz  Cidade Celestial?

Pastores   efetivamente este.

Cristo  Que distncia h ainda daqui  cidade?

Pastores  Grande para os que nunca ho de chegar, mas muito pequena para os
perseverantes.

Cristo  O caminho  perigoso ou seguro?

Pastores   seguro para aqueles para quem deve ser, mas os transgressores cairo nele
(Osias 14:9).

Cristo  H aqui algum alvio para os peregrinos que chegam cansados e desfalecidos?

Pastores  O Senhor destas montanhas sempre nos tem encarecido o dever da hospitalidade;
portanto, est  vossa disposio tudo o que h de bom (Hebreus 13:2).

Vi ento no meu sonho que, inteirados os pastores de quem eram aqueles peregrinos,
fizeram algumas perguntas acerca do seu pas natal, da sua entrada no bom caminho e da
perseverana em segui-lo, porque so muito poucos os que chegaram, na sua viagem, a
estas montanhas; e, quando ouviram as satisfatrias respostas dos peregrinos, deram-lhes o
maior agasalho e fizeram-lhes a melhor recepo.

Os pastores chamavam-se Cincia, Experincia, Vigilncia e Sinceridade. Tomaram os
peregrinos pelas mos e introduziram-nos nas suas tendas.



                                            - 76 -
                                      O Peregrino
                                 _____________________

Permanecereis conosco algum tempo, disseram os pastores, para que nos conheamos bem
e vos consoleis com as delcias destas montanhas.

Com o maior prazer, responderam os peregrinos, e alojaram-se por aquela noite, por ser j
tarde e haver declinado o dia.

Na manh seguinte, convidaram Cristo e Esperana para darem um passeio pelas
montanhas. A perspectiva que se apresentava aos olhos dos dois peregrinos era sobremodo
maravilhosa. No ficou, porm, nisso o bom agasalho dos pastores. Combinaram mostrar-
lhes algumas maravilhas, e levaram-nos, em primeiro lugar, ao cimo do monte chamado
Erro, cuja vertente era muito ngreme do lado oposto; dali, viam-se, no fundo do vale,
muitos corpos de pessoas que, tendo-se despenhado daquela altura, haviam sido
completamente despedaados.

Cristo  Que significa isto?

Pastores  No tendes ouvido falar daqueles que se extraviaram por terem prestado ouvidos
ao que diziam Himeneu e Fileto acerca da ressurreio do corpo? (II Timteo 2:17-18).
Pois esses que vedes l em baixo so os tais, e no tm sido sepultados at hoje para
exemplo dos demais, e para no subirmos muito alto, ou para no nos aproximarmos
demasiadamente da borda deste vale.

Conduziram-nos depois ao cume de outra montanha, cujo nome era Cautela, e fizeram-nos
olhar para longe, mostrando-lhes alguns homens que andavam, para cima e para baixo,
entre os sepulcros que ali havia.

Aqueles homens eram cegos, porque tropeavam nos sepulcros e no podiam sair de entre
eles.

Cristo  E isto o que quer dizer?

Pastores  No vedes, um pouco mais abaixo, uma ponte que d para um prado  esquerda
do caminho? Daquela ponte vai um caminho diretamente ao castelo da Dvida, propriedade
do gigante Desespero. Esses homens que alm vedes vieram uma vez em peregrinao
como vs fazeis agora, at chegarem  ponte; e, como o caminho direito lhes pareceu
spero naquele stio, combinaram deix-lo e seguir pelo prado, onde foram apanhados pelo
gigante Desespero, que os encerrou no castelo da Dvida. Depois de os ter no calabouo
por alguns dias, tirou-lhes os olhos e conduziu-os queles sepulcros, onde ficaram at o dia
de hoje.

"O homem que se extravia do caminho da sabedoria vir parar na companhia dos mortos"
(Provrbios 21:16). Cristo e Esperana trocaram um olhar, com olhos lacrimosos, mas
nada disseram aos pastores.

Levaram-nos em seguida a outro stio, no fundo do vale.

                                           - 77
                                      John Bunyan
                                 _____________________


Havia ali, na fralda da montanha, uma porta, que abriram. Olhai para dentro, disseram eles.
Os peregrinos olharam, e viram que o interior estava muito escuro e cheio de fumo;
tambm lhes pareceu que ouviram um rudo atroador como de fogo, e gritos como de quem
est sofrendo tormentos.

Saa dali um pronunciado cheiro a enxofre.

Cristo  Isto  um postigo do inferno, para onde entram os hipcritas que, como Esa,
vendem a sua primogenitura; que, como Judas, vendem o seu Mestre; que blasfemam do
Evangelho como Alexandre; que fingem e mentem como Ananias e sua mulher.

Esperana  Pelo que vejo, esses desgraados tiveram todos os sinais dos peregrinos, como
ns, no  verdade?

Pastores  Tiveram, sim. E alguns por muito tempo.

Esperana  At onde tinham chegado na sua peregrinao, quando to miseravelmente se
perderam?

Pastores  Uns tinham chegado a estas montanhas, e outros mais alm.

Disseram ento os peregrinos entre si: - " preciso chamarmos Aquele que  poderoso, para
lhe pedirmos foras."

Esperana  E preciso tambm vos ser empreg-las, se as receberdes.

Os peregrinos mostraram ento desejo de prosseguirem no seu caminho, no que os pastores
convieram, indo acompanh-los at ao limite das montanhas. Disseram ento os pastores: -
Agora vamos mostrar a estes peregrinos a porta da Cidade Celestial, se souberem v-la pelo
nosso culo.

Com efeito, faziam diligncia para ver mas a recordao do que haviam visto anteriormente
faziam-lhes tremer a mo, a ponto de no poderem aplicar o culo. Apesar disto, pareceu-
lhes que enxergavam a porta, e alguma coisa de glria daquele lugar. Com isto despediram-
se, e foram cantando pelo caminho: Misteriosos segredos nos ensinaram os pastores; graas
lhes sejam dadas! Venham, venham a estes pastores os que desejam saber coisas profundas,
ocultas e misteriosas.

 despedida, um dos pastores indicou-lhe o caminho que deviam seguir; outro intimou-os a
estarem prevenidos contra o Adulador; o terceiro aconselhou-os a no dormirem no terreno
encantado e o quarto desejou-lhes boa viagem na companhia do Senhor.

Ento acordei eu do meu sonho.


                                             - 78 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

Captulo 17
Conversa com Ignorncia; situao terrvel de Volta-Atrs; roubo de Pouca-F. Cristo
Esperana caem em poder de Adulador.


E de novo adormeci e tornei a sonhar. Vi os dois peregrinos descendo das montanhas pelo
caminho da cidade.

Mais abaixo das montanhas h um pas chamado das Idias Fantsticas, do qual sai, para a
estrada por onde iam os peregrinos, um tortuoso atalho. Encontraram a um jovem, meio
idiota, que vinha do tal pas. Chamava-se Ignorncia. Perguntando-lhe Cristo donde e para
onde se dirigia, respondeu:

Ignorncia  Sou natural daquele pas que fica  mo esquerda, e vou  Cidade Celestial.

Cristo  E como crs tu que podes l entrar? Olha que  possvel que encontres alguma
dificuldade  porta.

Ignorncia  Eu hei de entrar do mesmo modo que entram outras pessoas de bem.

Cristo  O que podes tu apresentar, para que te franqueiem a entrada?

Ignorncia  Conheo a vontade do meu Senhor, e tenho vivido honradamente; dou a cada
um o que lhe pertence, rezo, jejuo, pago dzimos, dou esmolas, e abandonei a minha ptria
para me dirigir  Cidade Celestial.

Cristo  Mas tu no entraste pela porta que est no princpio desta entrada. Seguiste pela
vereda tortuosa, e por isso, temo que, por melhor idia que de ti formes, no dia das contas,
quando fores a entrar na cidade, te acusem de ladro e roubador.

Ignorncia  Meus senhores, sois inteiramente estranhos para mim, e no vos conheo.
Segui vs a religio do vosso pas, que eu irei seguindo a do meu, e espero que todos
sairemos bem.

Quanto  porta de que me falais, todo o mundo sabe que fica muito longe do nosso pas, e
no creio que haja em todo ele quem conhea o caminho que a ela conduz. Nem com isso
devemos importar-nos, pois temos, como vedes, um atalho fresco e agradvel que vem dar
a esta estrada.

Cristo vendo este homem que assim se tinha por sbio, disse em voz baixa a Esperana:
"Maior esperana h para o tolo do que para este" (Provrbios 26:12); e acrescentou:
"Falta-lhe o entendimento, e diz a todos que  tolo" (Eclesistes 10:3). Que dizes? Vamos



                                           - 79
                                     John Bunyan
                                _____________________

conversando com ele, ou apressemo-nos e deixemo-lo para meditar no que lhe dissemos,
esperando logo por ele, para ver se, pouco a pouco,  possvel fazer-lhe algum bem?

Esperana  Sou do mesmo parecer; no acho bom dizer-lhe tudo de uma vez; deixemo-lo
s por agora, e logo tornaremos a falar-lhe, quando se nos oferecer ocasio.

Adiantaram-se, pois, e Ignorncia foi caminhando um pouco mais atrs. Pouco tinham
andado, quando chegaram a um stio muito estreito e escuro, onde encontraram um homem
atado com grossas cordas por sete demnios que outra vez o conduziam para o postigo que
tinham visto na fralda da montanha.

Um grande temor se apoderou dos nossos peregrinos, ao presenciarem tal espetculo.
Apesar disso, quando os demnios passaram com o homem, Cristo olhou-o com ateno,
para ver se o conhecia, por lhe parecer que fosse um tal Volta-Atrs que vivia na cidade da
Apostasia; mas no pde ver-lhe as feies porque levava o rosto baixo, como um ladro
que acaba de ser surpreendido. Depois de ter passado, viu Esperana que ele levava um
letreiro nas costas, que dizia: Cristo licenciado, e maldito apstata.

Cristo disse ento para seu companheiro:

Vou agora contar uma histria que me narravam, com referncia a um homem destes stios.
Chamava-se ele Pouca-F, mas era homem muito respeitvel e vivia na cidade da
Sinceridade.

Junto  entrada da estreita passagem que vamos atravessando, desemboca uma vereda que
vem da porta do caminho largo, a qual tem por nome Vereda-dos-Mortos, por causa dos
muitos assassinatos que nela se cometem.

Ora, o tal Pouca-F, vindo em peregrinao, como agora vamos, assentou-se casualmente
neste lugar, e adormeceu. Naquela ocasio desciam a vereda que vem do caminho largo trs
viles afamados, Covardia, Desconfiana e Culpa, todos irmos, os quais, descobrindo
Pouca-F adormecido, deitaram a correr para ele. Neste momento acordava o infeliz
peregrino, e dispunha-se a continuar sua viagem.

Logo que os trs se acercaram dele, intimaram-no a parar com modos ameaadores. Pouca-
F empalideceu e no teve foras para lutar nem para fugir. Nisto exclamou Covardia:
Entrega-nos a tua bolsa. E, como o peregrino se demorasse em satisfazer esta ordem
(porque lhe pesava perder o seu dinheiro), correu para ele Desconfiana, que lhe meteu a
mo na algibeira, tirando uma pequena bolsa cheia de prata. Pouca-f gritou em altos
brados que o roubavam, mas Culpa, que tinha na mo um formidvel cacete, descarregou-
lhe to tremendo golpe na cabea que o prostrou no cho, onde ficou vertendo torrentes de
sangue.




                                            - 80 -
                                      O Peregrino
                                 _____________________

Os ladres achavam-se em volta de sua vtima, mas, de repente sentindo passos de algum
que se aproximava e temendo que fosse um tal Grande-Graa, da cidade de Boa Esperana
fugiram a toda pressa, deixando o pobre homem abandonado.

Esperana - E levaram tudo que ele trazia de valor?

Cristo - No. Faltou-lhes revistar o lugar em que trazia escondidas suas jias, mas,
segundo me contaram, o pobre homem sentiu muito o roubo que lhe fizeram, porque os
ladres levaram-lhe quase todo dinheiro que trazia para as despesas ordinrias.  verdade
que ainda lhe ficaram algumas moedas midas mas essas no chegavam para os gastos da
viagem. Mais: Disseram-me que se viu obrigado a mendigar para poder viver, pois no lhe
era permitido desfazer-se das suas jias.Porm, apesar de pedir esmolas, continuou a
caminhar, quase sempre com o ventre vazio (I Pedro 1:18).

Esperana - Acho muito estranho que no lhe tirassem o pergaminho mediante o qual devia
ser franqueada a entrada na Cidade Celestial.

Cristo -  realmente estranho, mas se no lho tiraram, no foi isso devido  sua habilidade,
pois ficou to aterrado com o ataque dos trs facnoras que no teve foras nem artes para
ocultar coisa alguma. Deveu mais  providncia do que aos prprios esforos a fortuna de
ficar de posse de to aprecivel documento.

Esperana - Grande consolao devia sentir, ao ver que no lhe haviam arrebatado essa
preciosidade.

Cristo - Poderia ter-lhe sido de grande consolao, se se tivesse aproveitado dela como
devia. Mas, pelo que me contaram, fez muito pouco uso dela, nas vrias circunstncias em
que se encontrou, por causa do grande susto que recebeu quando lhe roubaram o dinheiro.
Esqueceu-se do precioso pergaminho durante a maior parte da sua viagem, e, se alguma vez
se lembrava dele e esta recordao comeava a consol-lo, logo a idia da perda que sofrera
lhe acudia a  memria, enlutando a sua alma e tirando-lhe toda a paz.

Esperana - Coitado, deve ter sofrido muito.

Cristo - Se deve! E no teria sofrido qualquer de ns se tivesse sido tratado como ele foi,
roubado e ferido num lugar ermo? O que me admira  ele ter podido sobreviver a tanto
sofrimento. Contaram-me que, por todo caminho, ia soltando amargas e dolorosas queixas,
contando a todos os que encontrava onde e como haviam tirado, como tinha sido ferido, e
como escapara com vida a to grandes provaes.

Esperana - Admira-me que no lhe ocorresse a idia de empenhar algumas de suas jias,
para ter com que suprir-se no caminho.

Cristo - s extremamente ingnuo! A quem havia de empenh-las ou vend-las? No pas
onde foi roubado no se d preo s jias, e mesmo nenhum alvio teria encontrado naquele

                                            - 81
                                      John Bunyan
                                 _____________________

pas. E, depois, que lhe faltassem as jias, quando chegasse  porta da Cidade Celestial,
seria excludo (o que ele bem sabia) da herana que ali se encontrara, o que por certo lhe
seria mais sensvel do que o ataque e os maus tratos de milhares de ladres.

Esperana - Peo que no respondas com tamanha aspereza s minhas perguntas. No sejas
desabrido para comigo, e ouve-me. Esa vendeu a sua primogenitura por um prato de
comida (Hebreus 12:16), e essa primogenitura era a sua jia preciosa. Ora, se ele fez isto,
por que no havia Pouca-F de fazer o mesmo?

Cristo - Esa vendeu efetivamente a sua primogenitura, e a exemplo dele tm procedido
muitos outros que, por esse fato, perderam a bno maior, como aconteceu quele
desgraado. Mas h diferena entre Esa e Pouca-F, como tambm entre as circunstncias
dum e as de outro. A primogenitura de Esa era tpica, caso que se no dava com as jias
de Pouca-F. Esa no tinha outro deus que no fosse o seu ventre, no assim Pouca-F: a
necessidade de Esa no passava do desejo de satisfazer o apetite carnal; e a necessidade de
Pouca-F era de outro gnero. Alm do que, Esa no se lembrava seno de satisfazer o
apetite, e por isso exclamou: -Eu vou morrer; para que me serve logo a
primogenitura?"Gen. 25:32). Mas Pouca-F, apesar de ter pouca f, possua alguma, e foi
essa que obstou a que ele praticasse a extravagncia de se desfazer das suas jias, como fez
Esa, e preferisse v-las e apreci-las. Em parte alguma lers que Esa tivesse f, por pouca
que fosse, e por isso no  para admirar que aquele em que s impera a carne (o que sempre
acontece com o homem que no tem f para resistir) venda a sua primogenitura, a sua alma,
e tudo quanto , quanto tem, ao prprio demnio - porque esses homens so semelhantes 
jumenta silvestre que ningum pode deter (Jeremias 2:24). Quando os seus coraes esto
sujeitos s suas concupiscncias, ho de satisfaz-las, custe o que custar; mas Pouca-F era
dum temperamento muito diferente; o seu corao inclinava-se para as coisas divinas, e o
seu alimento era das coisas celestiais e espirituais. Para que havia, pois, de vender as suas
jias, caso encontrasse quem lhas comprasse, para encher o seu corao de coisas vs? Dar
algum seu dinheiro para encher o seu ventre de palha? Poder algum persuadir a rola a
alimentar-se de carne em putrefao como o corvo? Ainda que os infiis, para servirem as
suas concupiscncias carnais hipotequem ou vendam o que so e o que possuem, todavia os
que tm f, a f que salva, por pouca que seja, nunca podero imit-los. Aqui tens
explicado, querido irmo, o equvoco em que estavas.

Esperana - Reconheo-o agora, mas confesso-te que a tua severa reflexo quase que me ia
enfadando.

Cristo - Por que? No fiz mais do que comparar a tua ingenuidade  dum pinto mais
esperto, que deita a correr por caminhos conhecidos e desconhecidos, ainda pegado  casca.
Mas vamos, desculpa isso, e tratemos do assunto que estamos discutindo.

Esperana - Eu estou persuadido, no meu corao, de que esses trs malvados foram muito
covardes, por fugirem quando ouviram os passos daquele que se aproximava. Por que no
se armou Pouca-F de mais algum valor? Parece-me que deveria ter-se arriscado a
combater contra eles, e que s deveria ter cedido quando no houvesse mais remdio.

                                           - 82 -
                                     O Peregrino
                                _____________________


Cristo - Sim, muitos lhe chamaram covarde, porm so poucos os que na hora da provao
tm nimo para se sustentarem. Grande coragem no tinha Pouca-F, e, pelas tuas palavras,
vejo que tu, em seu lugar, s te arriscarias a um pequeno combate, cedendo logo em
seguida. Na verdade, se agora, que estamos longe dos trs malvados, mostras esse nimo,
receio que fossem muito diferentes os teus pensamentos, caso esses homens te
acometessem como acometeram a Pouca-F.

E deves considerar que eles no passavam de ladres subalternos, servos do rei do abismo
insondvel, o qual rei, se fosse necessrio, viria em seu auxlio, e a sua voz  como a do
leo rugidor (I Pedro 5:8). Eu mesmo fui assaltado como Pouca-F, e sei, por experincia
prpria, quo rudes so esses ataques.

Os trs malvados acometeram-me, tendo eu comeado a resistir-lhes como bom cristo,
soltaram um pequeno grito, ao qual acudiu seu amo no mesmo instante. A minha vida
estaria por pouco, se no me protegesse a armadura toda a prova de que eu ia vestindo por
vontade de Deus; e, ainda assim, apenas pude sair airoso do combate. S quem se tem visto
em to duros transes os pode bem avaliar.

Esperana -  verdade. Mas, logo que supuseram que Grande-Graa se aproximava,
deitaram a fugir.

Cristo - Tanto eles como seu amo tm fugido muitas vezes da simples presena de
Grande-Graa, o que no  para estranhar, por ser este o campeo real; e creio que deves
admitir alguma diferena entre Pouca-F e o campeo do rei; nem todos os sditos do rei
so deus campees, por conseguinte, nem todos podem fazer prodgios de valor na ocasio
da prova. Pode, porventura, supor-se que um menino qualquer vencesse a Golias como fez
Davi, ou que haja uma avezinha com a fora dum touro? Uns sos fortes, outros dbeis; uns
tm muita f, outros tm pouca. Pouca-F era dos dbeis, e por isso cedeu.

Esperana - Oxal tivesse aparecido Grande-Graa para seu bem.

Cristo - Mas olha que o prprio Grande-Graa havia de ter tido bastante que fazer com
eles; porque, apesar de manejar bem as armas, e de os conservar em respeito, quando o
atacam a certa distncia, se  atacado de perto, isto , se Desconfiana, Covardia e o outro
logram apoderar-ser dele, no  preciso grande fora para o deitarem por terra. E, quando
um homem est por terra, bem sabes que pouco vale. As cicatrizes e as feridas que sulcam
o rosto de Grande-Graa so boas testemunhas do que digo. E at j ouvi dizer que em
certo combate ele chegou a desesperar da vida. Quantos gemidos, quantos lamentos,
arrancaram estes trs malvados a Davi (Salmos 88)! Heman e Ezequias, apesar de serem
campees, tambm precisaram empregar grandes esforos ao serem assaltados por eles, e
passaram bem, maus bocados. Pedro, a quem alguns chamam o Prncipe dos apstolos, quis
provar quanto podia, mas eles o subjugaram de tal maneira que at uma pobre mulher o fez
tremer.


                                           - 83
                                     John Bunyan
                                _____________________

Demais o seu rei est sempre em lugar onde pode ouv-los, e, se algum perigo os ameaa,
no mesmo instante corre em seu auxlio. Desse rei dizem que - "Ainda quando uma espada
o alcanar, no valer ela contra ele, nem lana, nem couraa; porque ele reputar o ferro
como as palhas, e o metal como um pau podre. No o far fugir homem frecheiro, as pedras
da funda se tornaro em palhas. Reputar o martelo como uma aresta, e se rir do vibrar da
lana" (J 41:26-29). Que poder, pois, fazer o homem em tais circunstncias? Verdade 
que se homem pudesse dispor em todas as ocasies dum cavalo como o de J, e tivesse
valor e percia para o manejar, faria coisas estupendas, porque" o fogoso respirar de suas
ventas faz terror. Escava a terra com a sua unha, salta com brio, corre ao encontro dos
armados, no conhece medo, nem cede  espada; sobre ele far rudo a aljava, vibrar a
lana e o escudo; arrojando espuma e relinchando, sorve a terra, e no faz caso do som da
trombeta; logo que ouve a buzina, diz: Vai, cheira de longe a batalha, a exortao dos
capites e o alarido do exrcito" (J 39-20-25).

Mas, pees como tu e eu, nunca devem desejar encontrar-se com tal inimigo, nem gloriar-
se de que outros foram vencidos, nem iludir-se com a prpria fora, porque, os que assim
praticam, so em geral, os que pior se saem da prova. Pedro, de quem falei h pouco, queria
vangloriar-se, sim, queria dizer, segundo lhe segredava o seu corao, que faria mais por
seu Mestre, e o defenderia melhor, do que todos os outros. Quem mais humilhado e abatido
pelos trs malvados do que ele? Quando, pois, sabemos que na estrada real h destas
ocorrncias, convm que faamos o seguinte:

Sairemos armados e sem esquecer o escudo, porque pela falta deste  que o Leviat foi
vencido pelo que o atacou. Quando o monstro nos v sem escudo, nenhum medo tem de
ns. O perigo por excelncia disse: "Embaraai, sobretudo, o escudo da f, com que possais
apagar todos os dardos inflamados do maligno" (Efsios 6:16).

Tambm  bom pedirmos ao Rei uma guarda. E ainda melhor ser pedir-lhe que Ele mesmo
nos acompanhe. Por causa desta companhia  que Davi andava alegre, mesmo quando
estava no Vale da Sombra da Morte. Moiss antes queria morrer do que dar mais um passo
sem o seu Deus (xodo 33:16). Ah! Meu irmo! Se Ele, nos acompanha, que teremos a
temer de dez mil que venham contra ns? (Salmos 3:5-8). Mas, sem Ele, cairo os soberbos
entre os mortos (Isaas 10:4).

Eu, pela minha parte, j estive na peleja, e se ainda estou vivo, pela bondade daquele que -
o sumo bem, no tenho que me gloriar do meu valor, mas estimarei no tornar a ver
semelhantes encontros, ainda que receio que no estejamos, de todo, livres do perigo. E,
visto que nem o leo, nem o urso me devoraram at agora, espero em Deus que nos livre de
qualquer filisteu incircunciso que venha em nosso alcance.

Entretidos nestas prticas, seguiam ambos o seu caminho, precedendo Ignorncia, at que
chegaram a um stio onde a estrada se bifurcava, o que, sobretudo, os embaraou na
escolha, porque ambos os caminhos que viam na sua frente lhes pareciam igualmente
direitos. Detiveram-se um pouco para refletir no que deveriam fazer, e nessa ocasio


                                           - 84 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

aproximou-se deles um homem cuja carne era mui negra, mas coberto de vestido mui claro,
o qual lhes perguntou o motivo por que estavam ali parados.

- Vamos para a Cidade Celestial, mas no sabemos por qual destes dois caminhos devemos
seguir.

Vinde comigo, que eu tambm me dirijo para essa cidade.

Assim fizeram os peregrinos, e foram seguindo o desconhecido pelo caminho que ele
escolheu; mas,  medida que avanavam, notaram que descreviam uma curva e que
marchavam em direo oposta  da cidade a que desejavam chegar, da qual se afastavam
cada vez mais. Apesar de notarem estas circunstncias, continuaram a andar.

Pouco tempo havia decorrido, quando, sem disso se terem apercebido, se acharam ambos
presos numa rede, de que no podiam sair, ao mesmo tempo que caa o vestido branco dos
ombros do homem negro. Reconheceram, ento, onde se achavam, e choraram por algum
tempo, por verem que no podiam livrar-se.

Cristo  Agora vejo que camos num erro. No nos aconselharam os pastores a
precavermo-nos contra o Adulador? Experimentamos hoje, conforme diz o Sbio, que um
homem que lisonjeia o seu prximo estende uma rede diante dos seus passos. (Provrbios
29:5).

Esperana  Tambm os pastores nos deram uma nota na direo do caminho, para termos
a certeza de que no pudemos evitar os laos do destruidor. Nisto andou Davi mais
acertadamente do que ns, porque disse: "Por amor s palavras de teus lbios tenho
guardado caminhos penosos" (Salmos 17:4).

Assim estavam os peregrinos presos na rede quando descobriram um dos Resplandecentes,
que se dirigia para eles com um aoite de pequenas cordas na mo. Quando chegou junto
deles, perguntou-lhes donde vinham e que faziam ali.Responderam-lhe que eram uns
pobres peregrinos que iam em caminho de Sio, mas que um negro, vestido de branco, os
fizera extraviarem-se, dizendo-lhes que o seguisse, "porque tambm ia para aquela cidade".
Ento o do aoite replicou-lhes: - Esse era Adulador, falso apstolo, transformado em anjo
de luz. (Daniel 11:32; II Corntios 11:13-14). Em seguida rompeu a rede, e, deixando-os
soltos, disse-lhes: - Segui-me, que eu vos porei outra vez no caminho. E assim os conduziu
de novo ao caminho que tinham deixado para seguirem Adulador. Contaram ento ao
Resplandecente que na noite anterior tinham estado nas montanhas das Delcias que os
pastores lhes haviam dado um guia para o caminho, mas que, por esquecimento, no o
tinham lido, e, finalmente, que tinham sido prevenidos contra o Adulador, mas que no
julgavam ser aquele que tinham encontrado (Romanos 16:17-18).

Vi ento no meu sonho que o Resplandecente os mandou deitar, e os castigou severamente,
para lhes ensinar o bom caminho que nunca deviam ter deixado (Deuteronmio 25:2; II
Crnicas 6:27), e, enquanto os castigava, dizia: - "Eu, aos que amo, repreendo e castigo.

                                          - 85
                                    John Bunyan
                               _____________________

Armai-vos pois, de zelo e arrependei-vos." (Apocalipse 3:19). Feito isto, mandou-os
continuar o caminho, recomendando-lhes muito que obedecessem s outras direes dos
pastores, o que os dois peregrinos muito agradeceram, e continuaram a sua marcha pelo
caminho direito, procurando no esquecer a severa lio que acabavam de receber, e dando
graas ao Senhor, que usara com eles de tamanha misericrdia.




                                         - 86 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

Captulo 18
Os peregrinos encontram Ateu, a quem resistem com as doutrinas da Bblia. Passam pela
Terra Encantada, imagem da corrupo deste mundo, em tempos de sossego e
prosperidade. Meios por que se livraram dela. Vigilncia. Meditao e orao.


Poucos passos haviam dado, quando avistaram um homem que avanava em direo a eles.
Cristo, ao v-lo, disse para Esperana:

Cristo - Alm vejo um homem que vem ao nosso encontro voltando as costas  cidade de
Sio.

Esperana - Bem o vejo; estamos apercebidos, no seja ele outro adulador.

Tendo chegado junto deles, Ateu (assim se chamava o recm-chegado), perguntou-lhes
para onde se dirigiam.

Cristo - Para o monte Sio. (Ateu soltou uma estrepitosa gargalhada).

Cristo - Por que te ris?

Ateu - Rio-me por ver quanto sois ignorantes, empreendendo uma viagem to incmoda,
quando a nica recompensa com que podeis contar  o vosso trabalho e o enfado da
viagem.

Cristo - Ento te parece que no nos recebero l?

Ateu - L onde? Acaso h neste mundo o lugar com que sonhais?

Cristo - No h neste mundo, mas h no outro

Ateu - Quando eu estava em casa, no meu pas, ouvi falar nisso que dizeis, e sa em sua
procura. H vinte anos que ando em busca desses lugares, mas nunca os encontrei
(Eclesiastes 10:13-15).

Cristo - Pois ns ouvimos e cremos que esses lugares existem, e que poderemos ach-los.

Ateu - Se eu no tivesse tambm acreditado, no teria ido to longe em sua procura; mas,
como no o encontrei (e, se esse lugar existisse, por certo o teria encontrado, pois o tenho
procurado mais do que vs), volto para casa, e verei se posso agora consolar-me com as
coisas que ento pus de parte, esperanado como estava, no que, como atualmente creio,
existe.



                                           - 87
                                     John Bunyan
                                _____________________

Cristo - (a Esperana) - Ser verdade o que este homem diz?

Esperana - Muito sentido! Este  outro Adulador. Recorda-te do que j nos custou, uma
vez, prestar ouvidos a gente desta. Pois no h de haver monte de Sio?! No avistamos
ns, das montanhas das Delcias, a porta da cidade? E no devemos, alm de tudo isso,
andar segundo a f? (II Corntios 5:7). Vamos; no acontea que outra vez caia sobre ns o
aoite. No esqueamos aquela importante lio de que devias lembrar: No cesseis, filhos,
de ouvir a doutrina, nem ignoreis a palavra da cincia; (Provrbios 19:27).

Cristo - Querido irmo, no fiz esta pergunta porque duvidasse da veracidade da nossa
crena, mas sim para te experimentar e para tirar uma prova da sinceridade do teu corao.
Pelo que respeita a este homem, bem sei que est cego pelo deus do presente sculo;
continuemos, pois, o nosso caminho, certos de que possumos a crena da verdade, da qual
no pode vir nenhuma mentira (I Joo 2:21).

Esperana - Agora regozijo-me na esperana da glria de Deus.

E afastaram-se daquele homem, que, rindo-se deles, seguiu o seu caminho.

Vi, ento no meu sonho, que foram andando at chegarem a um certo pas, cuja atmosfera
torna sonolentos todos os estrangeiros.

Esperana comeou a experimentar os efeitos do novo ar que respirava, e, sentindo-se
muito pesado e com muito sono, disse para Cristo:

Esperana - Estou com tanto sono que mal posso ter os olhos abertos. Deitemo-nos, pois,
um pouco, e durmamos.

Cristo - Nem falemos nisso. Olha que podemos adormecer e no tornarmos a acordar.

Esperana - Ento, por que? Irmo, o sono  doce para quem trabalha! Se dormirmos um
bocado, levantar-nos-emos refrigerados.

Cristo - No te lembras de que um dos pastores nos disse que devamos tomar cuidado
com a Terra Encantada? Neste conselho queria dizer-nos que nos abstivssemos de dormir.
No durmamos, pois, mas velemos e sejamos sbrios (I Tessalonicenses 5:6)

Esperana - Reconheo o meu erro e vejo que, se estivesse s, teria corrido o perigo de
morrer. Bem dizia o Sbio: Melhor  estarem dois juntos do que estar um s; (Eclesiastes
4:9).

A tua companhia tem sido um bem para mim, o que j  uma boa recompensa para o meu
trabalho.

Cristo - Ento, para no adormecermos, comecemos um bom discurso.

                                          - 88 -
                                      O Peregrino
                                 _____________________


Esperana - Da melhor boa vontade.

Cristo - Por onde comeamos?

Esperana - Por onde Deus comeou para conosco. Faze tu o favor de principiar.

Cristo - Vou ento fazer-te uma pergunta: Como chegaste a pensar em fazeres o que ests
fazendo agora?

Esperana - Quereis dizer, como cheguei a pensar no bem da minha alma?

Cristo - Sim, era essa a minha inteno.

Esperana - Havia j muito tempo que eu me deleitava no gozo das coisas que se viam e se
vendiam na nossa feira, coisas que, segundo creio agora, me teriam sepultado na perdio e
na destruio se tivesse continuado a pratic-las.

Cristo - E que coisas eram essas?

Esperana - Eram os tesouros e riquezas deste mundo. Tambm me deleitava muito o
bulcio, a embriaguez, a maledicncia, a luxria, a infrao do dia do Senhor, e muitas
outras coisas que todas tendiam  destruio da minha alma. Mas, por fim, ouvindo e
considerando as coisas divinas, de que tu me falaste, do nosso bom e querido Fiel, que
morreu, por sua f e vida exemplar, na feira da Vaidade, vim a concluir que o fim de todas
as coisas  a morte (Romanos 6:21-23) e que, por meio delas vem a ira de Deus sobre os
filhos da desobedincia (Efsios 5:6).

Cristo - E ficaste logo nessa ntima convico?

Esperana - No, no quis conhecer desde logo a maldade do pecado, nem a condenao
que se lhe segue: diligenciei, antes, quando meu esprito comeava a comover-se com a
palavra, fechar os olhos  luz.

Cristo - Mas para que resistias, desse modo, aos primeiros esforos do Esprito de Deus?

Esperana - Por estas coisas: 1.) Ignorava que aquela era a obra de Deus em mim. Nunca
pensei que Deus comeasse a converso dum pecador pela convico do pecado; 2.) O
pecado era ainda muito agradvel  minha carne, e eu sentia muito o ter de abandon-lo;
3.) No pude despedir-me dos meus amigos e companheiros cuja presena e cujas aes
tanto me alegravam; 4.) Eram to incmodas e to cheias de terror as horas em que sofria
por estas convices que o meu corao no podia suportar, nem sequer a lembrana delas.

Cristo - Queres dizer que algumas vezes pudeste desembararar-te desse incmodo?


                                            - 89
                                      John Bunyan
                                 _____________________

Esperana - Sim, mas nunca me desembaraava de todo; de modo que tornava a ficar to
mal ou pior do que dantes.

Cristo - E o que era que, outra vez, te trazia  memria os teus pecados?

Esperana - Diferentes coisas. Por exemplo: simplesmente o encontrar na rua um homem
bom; ouvir alguma leitura da Bblia; uma simples dor de cabea; saber que algum vizinho
estava doente, ou ouvir tocar a defuntos; pensar na morte; ouvir falar de uma morte
repentina, ou presenci-la; mas, especialmente pensar no meu prprio estado, em que devia
comparecer em juzo mui brevemente.

Cristo - E pudeste sentir, alguma vez, alvio ao peso dos teus pecados, quando te ocorriam
esses pensamentos?

Esperana - Pelo contrrio tomava esta posio mais firme na minha conscincia, e s
pensar que havia de voltar ao pecado (ainda que o meu corao estivesse inclinado para ele)
era para mim um duplo tormento.

Cristo - E que fazias ento?

Esperana - Pensava que devia fazer esforos para emendar a minha vida, porque de outra
sorte era inevitvel a minha condenao.

Cristo - No fizeste esses esforos?

Esperana - Sim, e tornava a fugir, no s dos meus pecados, mas tambm dos meus
companheiros de pecado; ocupava-me em prticas religiosas, tais como orar, ler, chorar
meus pecados, falar na verdade a meus vizinhos, etc. Isto fazia, e muitas outras coisas que
seria fastidioso e difcil enumerar.

Cristo - J te julgavas bom, por procederes desse modo?

Esperana - Sim, mas por pouco tempo; muito depressa tornava a prostrar-me a minha
aflio, apesar de toda a minha reforma.

Cristo - Mas como, se j estavas reformado?

Esperana - Por vrias razes. Lembrava-me de palavra como estas: Todas as nossas
justias so como um pano imundo; (Isaas 64:6); Pelas obras da lei no ser justificada
toda carne; (Glatas 2:16); Depois de terdes feito o que vos foi mandado, dizei: somos uns
servos inteis; (Lucas 17:10); e outras do mesmo estilo. Depois punha-me a discorrer deste
modo. Se todas as minhas obras de justia so trapos imundos, se pelas obras da lei
ningum pode ser justificado, e, depois de termos feito tudo quanto nos foi mandado,
somos uns servos inteis,  loucura querer chegar ao cu pela lei. E continuava a pensar: e
um homem contraiu uma dvida com certo negociante, ainda que dali em diante pague de

                                           - 90 -
                                      O Peregrino
                                 _____________________

pronto tudo quanto comprar, a sua antiga dvida continua a existir no livro de conta
corrente, e, mais dia, menos dia, pode o negociante vir a demand-lo por ela e faz-lo
prender at ser embolsado.

Cristo - E como aplicaste este raciocnio a ti mesmo?

Esperana - Pensei desta maneira. Por meus pecados, contra uma grande dvida para com
Deus, e minha atual reforma no poder liquidar aquela conta; de modo que, apesar de
todas as minhas emendas, tenho de pensar constantemente na reforma por que hei de livrar-
me da condenao em que incorri por minhas transgresses anteriores.

Cristo - Esse raciocnio era verdadeiro. Continua.

Esperana - Outra coisa das que mais me afligem, desde a minha recente reforma,  a idia
de que, se me ponho a examinar minuciosamente as minhas aes, ainda as mais louvveis,
sempre descubro pecado novo, pecado de envolta com tudo quanto posso de fazer melhor,
de modo que me vejo obrigado a supor que, apesar das idias falsas que outrora formava de
mim e dos meus deveres, cometo em cada dia pecados bastantes para ser condenado ao
inferno, ainda que a minha anterior fossem sem mcula. E que fiz? No sabia o que havia
de fazer, at que abri o meu corao a Fiel, a quem muito bem conhecia, e ele disse-me que
s com a justia dum homem que nunca tivesse pecado, me poderia salvar; nem a minha
justia, nem a de todo o mundo, era suficiente para isso.

Cristo - E pareceu-te verdade o que Fiel te dizia?

Esperana - Se mo tivessem dito quando estava contente e satisfeito das minhas prprias
reformas, ter-lhe-ia chamado nscio; mas, agora que reconheo a minha fraqueza, e que
vejo o pecado misturado com as minhas melhores aes, vejo-me obrigado a ser da sua
opinio.

Cristo - Mas, quando ele te fez conhecer essa opinio pela primeira vez, julgaste possvel
encontrar-se um homem de quem se pudesse dizer que nunca havia pecado?

Esperana - Devo confessar-te que, a princpio, pareceram-me muito estranhas as suas
palavras; porm, depois de mais alguma conversao e de mais ntimo trato com ele,
convenci-me plenamente do que dizia.

Cristo - E perguntaste-lhe quem era esse homem, e como havias de ser justificado por ele?

Esperana - Seguramente, e ele respondeu-me:  o Senhor Jesus Cristo, que est  mo
direita do Altssimo (Hebreus 10:12 e 21). E acrescentou:

- Hs de ser justificado por Ele, confiando tu no que Ele prprio fez nos dias da sua carne, e
no que sofreu quando estava pregado no madeiro (Romanos 4:5; Colossences 1:14; I Pedro
1:19). Perguntei-lhe mais como podia ser que a justia daquele homem tivesse eficcia para

                                            - 91
                                       John Bunyan
                                  _____________________

justificar outrem, diante de Deus, e ele disse-me que o homem de quem tratava era o Deus
poderoso, e que tudo quanto fez e a morte que padeceu, no foram para Ele, mas para mim,
a quem seriam imputadas as suas obras e todo o seu valor, se nEle cresse.

Cristo - E que fizeste depois?

Esperana - Fiz objees contra essas doutrinas, por me parecer que o Senhor no estava
disposto a salvar-me.

Cristo - E que te disse Fiel?

Esperana - Disse-me que me dirigisse a Ele, e me convenceria do contrrio. Objetei-lhe
que isso seria presuno da minha parte, mas Fiel desfez a objeo, recordando-me o que
Jesus ditara: - Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei. E
nisto deu-me um livro, para me animar a dirigir-me com mais liberdade, acrescentando que
cada jota e cada til estavam mais firmes naquele livro do que o cu e a Terra (Mateus
24:35). Perguntei-lhe ento o que devia eu fazer para me aproximar dele, e ensinou-me que
devia invoc-lo de joelhos (Daniel 6:10), que devia rogar ao Pai, de todo o corao e toda a
alma (Jeremias 29:12-13), que me revelasse Seu Filho. Tornei a perguntar-lhe como deveria
eu fazer as minhas rogativas, e disse-me: "Olha, e ve-lo-s assentado num propiciatrio,
onde permanece todo o ano para perdoar e remir os que se aproximam", (xodo 25:22;
Levtico 16:2; Nmeros 7:8-9; Hebreus 4:16). Expus-lhe que no sabia o que havia de dizer
quando me apresentasse na sua presena, e Fiel recomendou-me que lhe falasse, pouco
mais ou menos, nestes termos: - " Deus, s propcio a mim, pecador. Faze-me conhecer a
Jesus Cristo, e crer nele, porque reconheo que, se no existisse a Sua justia, ou se no
tivesse confiado nela, estaria irremediavelmente perdido. Senhor, ouvi dizer que s um
Deus misericordioso, e que deste Jesus Cristo, teu Filho, como Salvador, ao mundo, e que
ests disposto a conced-lo a um pobre pecador como eu, que, na verdade, sou pecador.
Senhor, aproveita esta ocasio, e manifesta a tua graa na salvao da minha alma,
mediante Jesus Cristo, teu Filho. Amm."

Cristo - E fizeste assim?

Esperana - Uma e muitas vezes.

Cristo - E o Pai revelou-te Seu Filho?

Esperana - No; nem  primeira, nem  segunda, nem  terceira, nem  quarta, nem 
quinta, nem  sexta vez.

Cristo - E como procedeste ao ver semelhante coisa?

Esperana - No sabia que deliberao toMarcos

Cristo - No estiveste tentando abandonar a orao?

                                           - 92 -
                                      O Peregrino
                                 _____________________


Esperana - Estive duzentas vezes.

Cristo - E por que o fizeste?

Esperana - Porque cria ser verdade o que Fiel me dissera, isto , que sem a justia deste
Cristo, nem todo o mundo teria poder para me salvar. Portanto, raciocinava assim comigo
mesmo: - Se o deixo, morro, e ento prefiro morrer ao p do trono da graa. Alm disto,
vinham-me  memria estas palavras: ``Se se demorar, espera-o; porque sem falta vir e
no tardar.'' (Hebreus 2:3).

Prossegui depois em orao at que o Pai me revelasse Seu Filho.

Cristo - E como te foi revelado?

Esperana  No o vi com os olhos do corpo, mas com os do entendimento (Efsios 1:18-
19). Foi assim: Certo dia estava eu tristssimo, mais triste, me parece, do que jamais
estivera em tempo algum, sendo causada esta tristeza por uma nova revelao da magnitude
e vileza dos meus pecados, e, quando eu no esperava seno o inferno e a eterna
condenao da minha alma, pareceu-me ver, de repente, o Senhor Jesus, olhando-me do
cu, e dizendo-me:

``Cr no Senhor Jesus Cristo, e sers salvo.'' (Atos 16:31). Mas Senhor, repliquei eu, sou
um grande pecador, muito grande; e Ele respondeu-me: ``Basta-te a minha graa.'' (II
Corntios 12:9). Tornei-lhe eu: Mas o que  crer? E reconheci, por aquelas palavras, ``O
que vem a mim nunca ter fome, e o que cr em mim nunca ter sede.'' (Joo 6:35), que
crer e ir era tudo a mesma coisa, e que aquele que vai, isto , aquele que corre em seu
corao e em seus afetos, pela salvao de Cristo,  o que realmente cr em Cristo.
Umedeceram-se os meus olhos de lgrimas, e continuei a perguntar: - Mas, Senhor, pode na
verdade um pecador to grande como eu sou, ser aceito e salvo por Ti? E Ele respondeu:
``Aquele que vem a mim, de modo nenhum o lanarei fora.'' (Joo 6:37). E eu disse: - Mas,
Senhor, que idia hei de eu fazer a teu respeito, ao chegar-me a ti, para que a minha f seja
perfeita? E Ele me disse: ``Jesus Cristo veio ao mundo para salvar aos pecadores.'' (I
Timteo 1:15). Donde conclu que devo achar a justia em sua pessoa, e a paga dos meus
pecados no seu sangue; que o que Ele fez, obedecendo  lei de Seu Pai, e submetendo-se 
penalidade dessa lei, s o fez por aqueles que aceitam a sua salvao e lhe agradecem.
Ento, o meu corao encheu-se de alegria, os meus olhos de lgrimas, e os meu afetos
expandiram-se em amor ao nome, ao povo e aos caminhos de Jesus Cristo.

Cristo - Isso foi, na verdade, uma revelao de Cristo  tua alma. Dize-me, agora, quais os
efeitos que produziu no teu esprito.

Esperana  Fez-me ver que todo mundo, apesar de toda a prpria justia, existe em estado
de condenao; que Deus Pai, posto que seja justo, pode justificar, com justia, o pecador
que a Ele vem; fez-me envergonhar da minha vida anterior, e humilhou-me, fazendo

                                            - 93
                                    John Bunyan
                               _____________________

conhecer e sentir a minha prpria ignorncia, porque at ento nunca viera ao meu corao
um nico pensamento, que de tal modo houvesse revelado a formosura de Jesus Cristo; fez-
me desejar uma vida santa, e anelar por fazer mais alguma coisa para honra e glria do
nome do Senhor; chegou a parecer-me que, se tivesse mil vidas, de bom grado as perderia
por amor de Jesus!




                                         - 94 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

Captulo 19
Os peregrinos tornam a falar com Ignorncia, e vem nas suas palavras a linguagem dum
cristo que s o  no nome. Conversao que depois tiveram a respeito de Temporrio.


Quando Esperana terminou o raciocnio que acabamos de referir, olhou para trs e, vendo
Ignorncia, que os seguia, disse a Cristo:

Esperana - Aquele rapaz no parece ter muito desejo de nos alcanar.

Cristo - Bem vejo. A nossa companhia, por certo, no lhe agrada.

Esperana - Tambm sou dessa opinio. No entanto, esperemo-lo.

E assim fizeram. Logo que o mancebo se aproximou, perguntou-lhe Cristo por que motivo
viera to devagar.

Ignorncia - Gosto muito de andar s, principalmente quando a companhia no me agrada.

Cristo - (Ao ouvido de Esperana): No te disse eu que ele no gostava da nossa
companhia? (Alto, a Ignorncia): Vamos, achega-te para ns e empreguemos o tempo numa
conversao proveitosa. Dize-me como ests, como esto tuas relaes entre Deus e a tua
alma.

Ignorncia - Suponho que o melhor possvel. Estou sempre cheio de bons pensamentos, que
me acodem  mente para me consolarem na minha peregrinao.

Cristo - E quais so esses pensamentos?

Ignorncia - Penso em Deus e no cu.

Cristo - Tambm os demnios e as almas condenadas pensam como tu!

Ignorncia - Mas eu medito nestes pensamentos e tenho desejo de realiz-los.

Cristo - Tambm assim fazem muitos que no tm probabilidade alguma de chegar a Deus
nem ao cu. A alma do preguioso deseja e nada alcana (Provrbios 13:4).

Ignorncia- Mas eu penso nestas coisas e tudo deixo por elas.

Cristo - Duvido muito, porque isso de abandonar tudo  coisa muito mais difcil do que
muitos julgam. Dize-me porm: em que te fundas para pensar que abandonaste tudo por
Deus e pelo cu?


                                           - 95
                                     John Bunyan
                                _____________________


Ignorncia -  o meu corao que mo assegura.

Cristo - Diz o sbio que quem confia no seu corao  um nscio (Provrbios 28:26).

Ignorncia - Isto  quando o corao  mau: o meu, porm  bom.

Cristo - E como podes prov-lo?

Ignorncia - Consolo-me com esperanas do cu.

Cristo - Isso tambm pode ser enganoso: porque o corao pode consolar-nos com a
esperana daquilo mesmo que nenhum fundamento tem para esperar.

Ignorncia - Mas o meu corao e a minha vida harmonizam-se perfeitamente, e por isso
julgo a minha esperana bem fundamentada.

Cristo - Quem te disse que o teu corao e a tua vida estavam em harmonia?

Ignorncia - O meu corao.

Cristo - O teu corao! Se a palavra de Deus no der testemunho a esse respeito, qualquer
outro testemunho  destitudo de valor.

Ignorncia - Ento no  bom o corao que tem bons sentimentos? No  boa a vida que
est de acordo com os mandamentos de Deus?

Cristo -  verdade:  bom o corao que tens bons pensamentos, e  boa a vida que est
em harmonia com os mandamentos de Deus: mas deves notar que uma coisa  t-los e outra
julgar que os temos.

Ignorncia -Ora dize-me: o que entendes tu por bons pensamentos e por conformidade de
vida com os mandamentos de Deus?

Cristo -H diferentes espcies de bons pensamentos: uns a respeito de ns mesmos, outros
a respeito de Deus e outros a respeito de outras coisas.

Ignorncia - Quais so os bons pensamentos a respeito de ns mesmos?

Cristo -Os que esto em conformidade com a palavra de Deus.

Ignorncia: Quando esto em conformidade com a palavra de Deus os nossos pensamentos
a respeito de ns mesmos?



                                          - 96 -
                                      O Peregrino
                                 _____________________

Cristo - Quando julgamos de ns o mesmo que julga essa palavra. Eu me explico melhor.
Diz a palavra de Deus, falando dos que se encontram num estado natural, que no h nem
um s justo, nem h quem faa o bem. Diz mais que todo o fim dos pensamentos do
corao do homem  somente o mal (Gnesis 8:21).

Ora, quando assim pensamos a respeito de ns mesmos, e assim verdadeiramente sentimos,
so bons os nossos pensamentos, porque esto em harmonia com a palavra de Deus.

Ignorncia - Nunca hei de crer que o meu corao seja to mau.

Cristo -  por isso que nunca tiveste em toda a tua vida um bom pensamento. Assim como
a palavra de Deus sentencia os nossos caminhos, e quando os pensamentos dos nossos
coraes e os nossos caminhos concordam com o juzo que a palavra forma a seu respeito -
so ambos bons, porque esto conformes com ela.

Ignorncia - Explica-me o sentido dessas palavras.

Cristo - Diz a palavra de Deus que os caminhos do homem so transviados, que no so
bons, mas perversos: diz que os homens por natureza, se apartam do caminho: que nem
sequer o conheceram (Salmos 125:5: Provrbios 2:15: Romanos 3:12-17). Pois bem,
quando um homem assim pensa dos seus caminhos, isto , quando pensa com sentimentos
de humilhao do corao,  quando tem bons pensamentos dos seus prprios caminhos.

Ignorncia - E quais os bons pensamentos a respeito de Deus?

Cristo - De igual modo, aqueles que concordam com o que acerca de Deus nos diz a sua
palavra, quando pensamos no seu ser, nos seus atributos, como a palavra nos ensina. A este
respeito, porm, no posso agora ser mais extenso. Falando s de Deus em suas relaes
conosco, temos bons e retos pensamentos quando pensamos que Ele nos conhece melhor do
que ns mesmos nos conhecemos, e que pode ver o pecado em ns, ainda quando ns no
possamos v-lo de modo algum: quando pensamos que conhece os nossos pensamentos
mais ntimos e que o que  mais recndito no nosso corao est sempre patente a seus
olhos: quando pensamos que todas as nossas justias so abominao na sua presena, e
que, portanto, no pode admitir que estejamos na sua presena com confiana alguma nas
nossas obras, ainda nas melhores.

Ignorncia - Julgas que sou to nscio que suponha que Deus no v seno o que vejo, ou
que me atreveria a apresentar-me na Sua presena com a melhor das obras?

Cristo: Pois se no julgas isso: o que  que julgas?

Ignorncia: Em poucas palavras vou dizer: - Creio que  necessrio ter f em Cristo para ser
justificado.



                                             - 97
                                      John Bunyan
                                 _____________________

Cristo: Como? Pensas que podes ter f em Cristo no vendo a necessidade dele, nem
conhecendo as tuas fraquezas originais e atuais, antes tendo, a teu respeito e do que fazes,
uma opinio tal que mui claramente prova que nunca reconheceste a necessidade da justia
pessoal de Cristo para te justificar diante de Deus? Como podes dizer: - Creio em Cristo?

Ignorncia: Creio, e bastante, apesar de tudo isso.

Cristo: E como crs?

Ignorncia: Creio que Cristo morreu pelos pecadores, e que serei justificado diante de Deus
e ficarei livre da maldio, se aceitar a minha obedincia  Sua lei. Por outras palavras: -
Cristo faz com que os meus deveres religiosos sejam aceitos pelo Pai, em virtude dos seus
merecimentos, e assim eu sou justificado.

Cristo: Permite-me que me oponha  tua profisso de f:

1. - Tens uma f imaginria, porque tal f no encontro descrita em parte alguma da
Palavra de Deus.

2. - Tens uma f falsa, porque pes de parte a justificao pela justia pessoal de Cristo, e
aplicas a tua prpria justia.

3. - Essa f faz com que Cristo seja o que justifica, no a tua pessoa, mas as tuas aes, o
que  falso.

4. - Finalmente, a tua f  enganosa, a ponto de deixar-te debaixo da ira do Deus
Altssimo, porque a verdadeira f, que justifica, faz com que a alma convicta do seu estado
de perdio pela lei, busque como refgio a justia de Cristo, justia que no consiste num
s ato de graa, em que a tua obedincia seja aceita por Deus para justificao, mas na
obedincia pessoal de Cristo  lei, em fazer sofrer por ns o que de ns se exige. Esta  a
justia que a verdadeira f aceita, e que cobre sob o seu manto a nossa alma, que por isso se
apresenta sem mancha diante de Deus, sendo aceita e absolvida da condenao.

Ignorncia: Queres ento que confiemos simplesmente no que Cristo fez, sem entrarmos
com o concurso das nossas pessoas? Essa fantasia daria livre curso s nossas
concupiscncias, e permitiria que vivssemos como melhor nos aprouvesse: porque, o que
havia de importar-nos o modo de viver, se pudssemos ser inteiramente justificados pela
justia pessoal de Cristo, s por nela termos f?

Cristo: Ignorncia te chamas, e bem demonstras nessa tua resposta. Ignoras o que  a
justia que justifica, e tambm ignoras como hs de livrar a tua alma, por esta f, da terrvel
ira de Deus. Ignoras os verdadeiros efeitos desta f salvadora na justia de Cristo, que so:
dobrar e ganhar o corao para Deus em Cristo, amando o seu nome, a sua Palavra, os seus
caminhos, e o seu povo, e no como tu, na tua ignorncia, os imaginas.


                                            - 98 -
                                      O Peregrino
                                 _____________________

Esperana: Pergunta-lhe se alguma vez se lhe revelou Cristo.

Ignorncia: Que? s tu daqueles que acreditam em revelaes? Ora! Parece-me que o que
dizes sobre esse ponto no  mais do que o fruto dum crebro em desarranjo.

Esperana: Homem! Cristo est em Deus dum modo to incompreensvel a toda a carne,
que ningum pode conhec-lo duma maneira salvadora, se o Deus Pai lho no revelar.

Ignorncia: Isso ser a tua crena, mas no a minha, posto que no duvide de que a minha
seja to boa como a tua, apesar de a minha cabea estar em melhor estado do que a tua.

Cristo: Permita-me que entre tambm na conversa. No se deve falar to lisonjeiramente
neste assunto, pois eu afirmo resoluta e categoricamente o que pode conhecer a Jesus Cristo
seno pela revelao do Pai. Ainda mais: que a f para ser reta, h de ser operada pela
super-eminente grandeza do seu poder (Mateus 11:27: I Corntios 12:3: Efsios 1:17-20).

Vejo, pobre Ignorncia, que nada sabes desta operao da f. Desperta, pois, reconhece a
tua prpria misria, e recorre ao Senhor Jesus, e pela sua justia, que  a justia de Deus
(porque Ele mesmo  Deus), sers livre da condenao.

Ignorncia: Muito depressa andais! No posso acompanhar-vos nesse passo. Ide adiante,
que eu no tenho pressa.

E despediu-se deles.

Disse ento Cristo ao seu companheiro:

- Vamos bem, Esperana. Est visto que temos de ir outra vez ss.

Alargaram o passo, enquanto Ignorncia os seguia coxeando, e ouviu-lhes o seguinte
dilogo:

Cristo: Tenho d desse pobre moo!

Esperana: Infelizmente h muitos na nossa cidade em idnticas circunstncias, famlias
inteiras, ruas inteiras: e, se h tantos na nossa cidade, onde todos so peregrinos, o que ser
na terra onde Ignorncia nasceu?

Cristo: Bem verdadeira  a palavra: Cerrou-lhes os olhos para que no vejam...

Agora, porm, que estamos outra vez ss, dize-me: Que te parecem estes homens? Crs que
tenham alguma vez convico do pecado, e que temam, por conseguinte, o estado de perigo
em que se encontram?



                                             - 99
                                      John Bunyan
                                 _____________________

Esperana: A essa pergunta ningum melhor do que tu saber responder, pois s mais
competente do que eu.

Cristo: Sou da opinio que  possvel que o sintam uma ou outra vez, mas, como so
ignorantes por natureza, no compreendem que esta convico lhes  proveitosa, e buscam
afog-las, por todos os modos, continuando a adular-se a si mesmos, no caminho de seus
prprios coraes.

Esperana: Com efeito, tambm creio, como tu, que o medo serve muito para bem dos
homens e para os fazer ir direitos ao princpio da sua peregrinao.

Cristo: No podemos duvidar de que  bom, por que assim o diz a palavra::O temor de
Deus  o princpio da sabedoria.: (J 28:28: Salmos 111:10: Provrbios 1:7: 9:10).

Esperana: Como se poder reconhecer o medo que  bom?

Cristo: O medo bom reconhece-se por trs coisas:

1.- Pela sua origem:  causado pelas convices salvadoras do pecado:

2: Impele a alma a acercar-se de Cristo para a salvao:

3.: Gera e conserva na alma uma grande reverncia para com Deus, para com a sua palavra
e seus caminhos, mantendo-a constante e terna, e fazendo-a temer de se apartar deles, para
outro lado, ou de fazer qualquer coisa que possa desonrar a Deus, alterar a sua paz,
contristar o Esprito Santo, ou dar ocasio a que o inimigo tome alguma vantagem.

Esperana: Estou de acordo. Creio que disseste a verdade. Mas dize-me: ainda no samos
do terreno encantado?

Cristo: Vais aborrecido de nossa conversao?

Esperana: No, mas desejava saber onde estamos.

Cristo: Ainda nos falta perto de uma lgua para sairmos deste terreno. Mas, voltando ao
assunto: os ignorantes no conhecem que tais convices, que os atemorizam, so para seu
bem e por isso procuram afog-las.

Esperana: E como procuram faz-lo?

Cristo: 1.: Crem que esses temores so obra do demnio (sendo, na verdade, de Deus), e
por isso lhe resistem com a coisa que tende diretamente  sua runa, 2.: Pensam tambm
que os tais temores tendem a prejudicar-lhes a f, quando (desgraados que so!) nenhuma
tm, e por isso endurecem contra eles os seus coraes. 3.: Supem que no devem temer,
e por isso, apesar de seus temores, tornam-se vmente confiados. 4.: Julgam que esses

                                           - 100 -
                                     O Peregrino
                                _____________________

temores tendem a aviltar a sua prpria santidade, antiga e miservel, e por isso lhes
resistem todas as foras.

Esperana: Eu mesmo experimentei algumas dessas coisas, porque antes de me convencer
passei pelo que acabas de dizer.

Cristo: Bem. Deixemos por agora o nosso vizinho Ignorncia, e passemos a outra coisa
proveitosa.

Esperana: Da melhor boa vontade. Prope tu essa nova questo.

Cristo: Conheceste na tua terra, haver dez anos, um tal Temporrio, que era nessa poca
homem bastante fervoroso em religio?

Esperana: Perfeitamente. Ainda no me esqueci: ele morava em Sem-Graa, aldeia que
dista cerca de meia lgua de Honestidade, em uma casa junto  dum tal Retrocesso.

Cristo: Isso mesmo. Vivia com ele debaixo do mesmo teto. Pois esse Temporrio esteve
uma vez muito bem encaminhado. Creio que nessa poca tinha alguma convico de seus
pecados e do estipndio que se lhes deve.

Esperana: Lembro-me disso perfeitamente. A sua casa no distava mais do que uma lgua
da minha, e muitas vezes veio ele ter comigo, banhado em lgrimas. Contristava-me, e no
perdi de todo as esperanas que nele fundava. Est, porm, visto que nem todos os que
clamam:Senhor!:, so cristos.

Cristo: Temporrio disse-me uma vez que estava resolvido a fazer-se peregrino, como ns
agora somos, mas travou conhecimento com um tal Salvao-Prpria, e deixou a minha
amizade desde ento.

Esperana: J que falamos dele, investiguemos a razo da sua apostasia repentina, e da de
outros como este.

Cristo: Essa investigao pode ser muito proveitosa. Agora, porm,  a tua vez de
comear.

Esperana: Na minha opinio as razes so quatro:

1.: Ainda que as conscincias desses homens estejam acordadas, os seus coraes no tm
diferena alguma. Por isso, quando termina o poder do pecado, acaba tambm o motivo que
os levou a tornarem-se religiosos e voltam naturalmente aos seus costumes antigos, assim
como vemos voltar o co ao seu vmito, e a porca lavada a rojar-se na lama (II Pedro 2:22).
Buscam avidamente o cu, s porque compreendem e temem os tormentos do inferno: mas
logo que resfria e enfraquece esta apreenso e este temor, tambm resfriam e enfraquecem


                                           -
                                           101
                                      John Bunyan
                                 _____________________

os desejos que tinham, do cu, da salvao, e por isso, passado o delito e o temor, acabam
esses desejos, e voltam aos antigos hbitos.

2.: Outra razo  a de no serem temores de Deus, mas dos outros homens, e o temor do
homem  um lao. De modo que, parecendo vidos pelo cu, enquanto bramem em torno
deles as chamas do inferno, logo que esse terror passa acodem-lhes outros pensamentos,
tais como  bom ser cauteloso e que no  muito prudente meter-se em aflies
desnecessrias, voltando assim a fazer as pazes com o mundo.

3.: Tambm sucede servir-lhe de tropeo a vergonha mal entendida, que costuma
acompanhar a religio: so orgulhosos e altivos, e a religio  vil e desprezvel a seus olhos:
e por isso, uma vez perdido o sentimento de infortnio e da ira vindoura, voltam ao antigo
modo de viver.

4. - Aflige-os muito a idia do pecado, e pensam nele com terror: no gostam de
contemplar as suas misrias, pois, ainda que a primeira considerao os levassem a se
refugiarem onde se refugiam os justos, e onde estivessem seguros, como atribuem esses
pensamentos ao pecado e ao terror, uma vez que se tornaram insensveis s suas convices
e ao temor da ira de Deus, endurecem voluntariamente os seus coraes e escolhem
precisamente os caminhos que mais contribuem para este engrandecimento.

Cristo: Creio que falas com bastante acerto, porque a causa principal  a falta duma
mudana no seu corao e na sua vontade, pelo que se assemelham ao acusado, que quando
est na presena do juiz, treme e parece arrepender-se do ntimo do corao, quando a nica
causa que o move  o temor do patbulo e no o horror do crime cometido. Dai a liberdade
a esse ru, e v-los-eis continuar a matar e a roubar como dantes: mas, se o seu corao
tivesse mudado, teria tambm mudado a sua conduta.

Esperana: J que te expus as razes da volta destes homens ao antigo, explica-me tu agora
a maneira por que essa falta se efetua.

Cristo - Eu to digo:

1. - Desviam os seus pensamentos, quando lhes  possvel, da meditao e da lembrana de
Deus, da morte e do juzo futuro.

2. - Abandonam pouco a pouco, e gradualmente, os seus deveres particulares, como so: a
orao, o refreamento das concupiscncias, a vigilncia em si mesmos, a dor dos pecados,
etc.

3. - Vo esfriando no cumprimento dos deveres pblicos, como: a leitura e pregao da
palavra, o trato com outros cristos, etc.




                                            - 102 -
                                      O Peregrino
                                 _____________________

4. - Comeam a censurar as pessoas piedosas, e isto duma maneira infernal, para terem
desculpa aparente de lanarem fora a religio, com o pretexto dalgumas fraquezas que
descobriram naqueles que a professam.

5. - Passam a aderir e a associar-se a homens carnais, lbricos e levianos.

6. - Em seguida entregam-se secretamente a conversaes carnais e levianas, estimando
ver fazer outro tanto a alguns que so tidos por honrados, para coonestarem o seu
procedimento e poderem prosseguir mais ousadamente.

7. - Enfim, comeam a mofar abertamente de certos pecados, dizendo que so de pouca
monta, e:

8. - Endurecendo-se desta maneira, manifestam-se tais quais so. E assim, lanados no
abismo da misria, se um milagre da graa o no evita, perecem para sempre nos seus
prprios enganos.




                                            -
                                            103
                                     John Bunyan
                                _____________________

Captulo 20
Cristo e Esperana passam pela terra habilitada, atravessam o rio da Morte, e do
entrada na gloriosa Cidade de Deus.


Depois das agradveis prticas que acabo de referir, vi, em meu sonho, que os peregrinos
tinham j passado a terra encantada, e estavam  entrada do pas de Beul (Isaas 62:4-12;
Cantares 2:10-12).

Mui doce e agradvel era o ar desse pas que atravessavam, e onde se alegraram por algum
tempo. Recreavam-se em ouvir o canto das aves e a voz das rolas, e em ver as flores que
juncavam os prados. Nesse pas o dia  permanente, brilhante o sol em todo o seu
esplendor, pelo que est inteiramente fora dos limites do Vale da Sombra da Morte e do
domnio do gigante Desespero; nem dali se avista a menor parte do Castelo da Dvida.

Achavam-se os peregrinos muito prximos da Cidade para onde iam, e mais duma vez
encontram habitantes delas, pois os Resplandecentes costumavam passear por aqueles
stios, que ficavam por assim dizer, dentro dos limites do cu. Foi nesse pas que se
renovou o contrato entre o Esposo e a Esposa, e, assim como eles se rejubilam mutuamente,
assim goza com eles o seu Deus. No faltava ali, nem trigo, nem vinho, pois havia
abundncia de tudo quanto tinham buscado em toda a sua peregrinao.

Ouviam-se grandes vozes, que partiam da cidade, exclamando: "Dizei  filha de Sio: Eis
aqui vem o teu Salvador, eis aqui a sua recompensa com Ele";.

Finalmente, os habitantes do pas chamaram-se povo santo, redimidos do Senhor, etc.

Ditosos eles! Quanto mais se internavam naquele pas, maior era o seu regozijo; e, quanto
mais se aproximavam da cidade, tanto mais perfeita e magnfica era a vista que se
patenteava a seus olhos. Era a cidade construda de prolas e pedras preciosas, as ruas
caladas a ouro, de modo que o brilho natural e o reflexo dos raios do sol fizeram com que
Cristo adoecesse de desejos. Esperana tambm se sentiu atacado desta enfermidade, pelo
que se detiveram um pouco para descansarem, exclamando no meio da sua ansiedade: "Se
encontrares o meu amado, faze-lhe saber como de amor estou enfermo; (Cantares 5:8). Em
breve ser fortaleceram e, achando-se mais dispostos a arrastar com a enfermidade,
prosseguiram no seu caminho, aproximando-se da cidade, cada vez mais.

 beira da estrada havia excelentes vinhas e deliciosos jardins. Encontraram o jardineiro e
perguntaram-lhe a quem pertenciam vinhas e jardins to formosos. Respondeu-lhes que
eram propriedade do Rei, e que tinham sido plantados para seu deleite e consolao dos
peregrinos. Mandou-os entrar nas vinhas, e ofereceu-lhes os mais primorosos cachos;
mostrou-lhes os passeios em que o Rei se deleitava; e terminou por convid-los a dormirem
ali.


                                          - 104 -
                                    O Peregrino
                               _____________________


E vi que, enquanto dormiam, falavam mais do que em toda a sua viagem; e, tendo notado
isso, disse-me o jardineiro: "No tens de que te admirar.  da natureza do fruto destas
vinhas entrar suavemente e falar aos lbios dos que dormem." (Cantares 7:9).

Quando acordaram, prepararam-se para entrar na cidade, mas, como j disse, sendo esta de
ouro fino (Apocalipse 21:18), era tal o reflexo do sol, e to altamente glorioso, que no
puderam contempl-los com a face descoberta (II Corntios 3:18). E vi que lhes saram ao
encontro dois homens com vestidos reluzentes como o ouro, cujos rostos eram brilhantes
como a luz, e lhes perguntaram donde vinham, onde se haviam hospedado, que dificuldades
e perigos, que consolaes e prazeres, tinham encontrado pelo caminho. Satisfeitas estas
perguntas, disseram-lhe: "S vos faltam duas dificuldades a vencer: entrareis, em seguida
na cidade."

Cristo e o seu companheiro pediram-lhes logo que os acompanhassem. Os homens
responderam que aceitavam da melhor vontade, mas preveniram-nos de que teria de vencer
pela prpria f, e assim caminharam juntos, at avistarem a porta.

Chegados ali, vi que entre eles e a porta havia um rio; mas no havia ponte alguma por
onde se pudesse passar, e o rio era muito profundo. Ao v-lo, os peregrinos ficaram muito
assustados, mas os homens que os acompanhavam disseram-lhes: Ou haveis de atravess-lo
ou no haveis de chegar  porta.

No h outro caminho? Perguntaram os peregrinos.

H, responderam os homens, mas s para dois, que so Enoque e Elias, aos quais foi
permitido passar por cima do rio desde a fundao do mundo, o que a mais ningum foi
permitido at agora.

Comearam ento os peregrinos, e especialmente Cristo, a desconsolar-se a olhar para um
e outro lado; mas no podiam encontrar caminho por onde evitassem o rio. Perguntaram
aos dois companheiros se a gua era igualmente profunda em todo o rio. Responderam-lhes
que no, mas que isso lhes devia ser indiferente, porque o encontrarem-na mais ou menos
profunda dependia da f que tivessem no Rei do pas.

Decidiram-se, pois, a entrar na gua; mas, apenas o fizeram, comeou Cristo a submergir-
se, e a bradar a Esperana: Afundo-me nestas guas, passam sobre mim todas as ondas.

Respondeu-lhe Esperana: Tem coragem, irmo! Eu alcancei o fundo, e acho-o seguro.

Ah! Meu amigo, exclamou Cristo, rodearam-me as dores da morte, e no verei a terra que
mana leite e mel. Nisto caiu sobre Cristo grande horror e obscuridade, de modo que nada
podia ver. Perdeu parte dos sentidos, de modo que no podia recordar-se nem falar com
acerto de nenhum dos doces refrigrios que tinha encontrado no caminho. Todas as
palavras que pronunciava davam a entender que tinha horror e se aterrorizava de morrer

                                          -
                                          105
                                      John Bunyan
                                 _____________________

naquele rio e de no chegar a entrar pela porta da cidade. Os circunstantes tambm
observavam que ele tinha dolorosos pensamentos do pecado que cometera, tanto antes
como depois de se fazer peregrino. Igualmente se notou que o afligiam aparies,
fantasmas e espritos maus, o que se depreendia das palavras que soltava.

Mui grande era o trabalho de Esperana para conservar fora da gua a cabea de seu irmo.
Algumas vezes submergia-se inteiramente, o que o deixava quase meio morto. Tratava-se
de o consolar, falando-lhe da porta e dos que ali estavam esperando, mas Cristo respondia:
 a ti,  a ti que esperam; sempre foste Esperana desde que te conheo; ah! Por certo que,
se eu fosse aceito por Ele, levantar-se-ia para me ajudar, mas, por meus pecados, trouxe-me
ao lao e abandonou-me nele. Nunca, respondeu Esperana: esqueceste sem dvida o texto
em que se diz dos maus: No atendem  sua morte e no h firmeza na sua ferida; no
participam dos trabalhos dos homens, nem com os homens sero flagelados (Salmos 73:4-
5). Estas aflies e trabalhos, por que ests passando neste rio, no so sinal de que Deus te
haja abandonado; e apenas servem para te experimentar, e para ver se te lembras do que
tens recebido da sua bondade, e se vives dEle nas tuas aflies.

Estas palavras fizeram com que Cristo ficasse muito pensativo, pelo que Esperana
acrescentou:

Confia, irmo, Jesus Cristo te sara. Ao ouvir isto, Cristo exclamou em alta voz: Sim, o
vejo, e ouo que me diz: "Quando tu passares pelas guas eu serei contigo, e os rios no te
submergiro; (Isaas 43:2).

Assim iam se animando mutuamente, e o inimigo nada pde contra eles, de modo que os
deixou, como se estivesse acorrentado, at passarem o rio. A profundidade das guas ia
decrescendo, e em breve encontraram terreno em que puderam firmar os ps.

Que grande consolao experimentaram, quando viram outra vez na margem oposta os dois
Resplandecentes que, saudando-os, lhes diziam: Somos espritos administradores, enviados
para servio em favor dos que ho de ser herdeiros da salvao. E cada vez se
aproximavam mais da porta.

Deve-se notar que a cidade est edificada sobre uma grande montanha, mas os peregrinos
subiam-na com facilidade, porque iam pelo brao dos Resplandecentes; alm do que tinham
deixado atrs de si, no rio, os seus vestidos dos mortais. Subiam, pois com a maior
agilidade, apesar de estarem mais altos do que as nuvens, os fundamentos sobre que se
assenta a cidade. Com que prazer eles transpuseram as diversas regies da atmosfera;
falando entre si docemente, e cheios de consolao por terem atravessado o rio a salvo, e
por terem a seu servio to gloriosos companheiros!

Quo agradveis lhes era a conversao que tinham com os Resplandecentes! Ali, diziam
eles, h uma glria e uma formosura inefveis; ali est o monte Sio e a Jerusalm
Celestial, a companhia de muitos milhares de anjos e os espritos dos justos j perfeitos
(Hebreus 12:22-24). J estais perto do Paraso de Deus, onde vereis a rvore da vida e

                                           - 106 -
                                      O Peregrino
                                 _____________________

comereis do fruto imarcessvel. Recebereis, quando entrardes, vestidos brancos, e o vosso
trato e conversao com Rei durar pelos dias de toda a eternidade (Apocalipse 2:7; 4:5;
22:5). No tornareis a ver ali o que veis e senteis na regio inferior da Terra, isto , dor,
enfermidade, aflio e morte, porque tudo isso  j passado (Isaas 65:16-17), Ides juntar-
vos com Abrao, com Isaque, com Jac, e com os profetas, a quem Deus livrou do mal
futuro, e ora descansam em seus leitos, por haverem andado em justia. Ides receber
consolao por todos os vossos trabalhos, e gozo por toda a vossa tristeza: recolhereis o que
semeastes, isto , o fruto de todas as vossas oraes, e das lgrimas e sofrimentos que pelo
Rei passastes no caminho da vossa peregrinao (Glatas 6:7-8).

Cingireis coroas de ouro, e gozareis a perptua vista e presena do SANTO, porque ali o
vereis como Ele  (I Joo 3:2).

Servireis continuamente com louvores, com vozes de jbilo e com ao de graas. quele a
quem desejveis servir no mundo com bastante dificuldade, por causa da fraqueza da vossa
carne. Os vossos olhos regozijar-se-o com a vista, e vs mesmos com a doce voz do
Altssimo; recuperareis a companhia dos amigos que vos precederam, e recebereis com
alegria todos aqueles que vos precederam, e recebereis com alegria todos aqueles que vos
seguirem no lugar santo. Ser-vos-o dados vestidos de glria e de majestade, e quando o
Rei da glria vier das nuvens, ao som da trombeta, como sobre as asas do vento, vireis vs
com Ele; quando se assentar no trono do julgamento, assentar-vos-eis a seu lado; quando
pronunciar a sentena contra os que obraram iniqidade, ou sejam anjos ou homens, tereis
tambm voz nesse julgamento; e, quando voltar para a cidade, voltareis com Ele ao som da
trombeta e ficareis com Ele para sempre (I Tessalonicenses 4:13-17; Judas 14:15; Daniel
7:9-10; I Corntios 6:2-30.

Quando iam chegando  porta, eis que uma multido das hostes celestiais saiu ao seu
encontro, perguntando: Quem so estes e donde vieram? Responderam os Resplandecentes:
So homens que amaram nosso Senhor quando estavam no mundo, e tudo deixaram pelo
seu santo nome; enviou-nos Ele para os trazermos aqui, e temo-los acompanhado na sua
desejada viagem, para que entrem e contemplem o seu Redentor face a face, com grande
gozo. E as hostes celestiais deram vozes de jbilos, e exclamaram: "Bem-aventurados os
que so chamados  ceia do Cordeiro." (Apocalipse: 9).

Ao ouvirem estas palavras, os msicos do Rei tocaram em seus instrumentos suaves
melodias, que ressoavam nos cus, e com vozes e gestos de alegria, cantando e fazendo
soar seus instrumentos, saudaram uma e mil vezes aos que vinham do mundo. Puseram-se
uns  direita, uns  esquerda, uns adiante, outros atrs, como para os acompanhar e
perseverar nas regies superiores, enchendo os espaos de sons melodiosos, de modo que
parecia que o prprio cu tinha vindo receb-los; era a marcha triunfal mais formosa que se
tem visto.

Tudo indicava aos dois peregrinos quo bem-vindos eram  cidade, e com quanta alegria
eram recebidos. J a avistavam, j ouviam os alegres repiques de todos os sinos que
saudavam a sua chegada. Oh! Que pensamentos to alegres e arrebatadores lhes acudiam ao

                                             -
                                             107
                                      John Bunyan
                                 _____________________

verem o jbilo da cidade, a companhia que iam gozar, e para sempre! Que lngua ou que
pena poderiam exprimi-los?

Ei-los chegados  porta da cidade, sobre a qual viram gravadas, com letras de ouro, as
seguintes palavras: "Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestimentas no sangue do
Cordeiro, para terem parte na rvore da vida e para entrarem na cidade pelas portas."
(Apocalipse 22:14).

Bateram com fora, e logo apareceram por cima da porta os rostos dos que moravam l
dentro... Enoque, Moiss, Elias... que, perguntando quem batia, obtiveram esta resposta:
So dois peregrinos que vieram da cidade da Destruio, pelo amor que tm ao Rei deste
lugar. Ento, cada um dos peregrinos entregou o pergaminho que recebera no princpio, e,
tendo sido esses documentos levados ao Rei e lidos por Ele, mandou abrir as portas aos
peregrinos, para que entrasse a gente justa, guardadora da verdade. (Isaas 26:2).

Vi-os, ento, entrar, e que, depois de terem transposto a porta, foram transfigurados e
receberam vestidos que resplandeciam como ouro, e harpas e coroas que lhes foram
entregues, para que, com as primeiras entoassem louvores, e as segundas lhes servissem de
distintivo de honra. Ouvi tornarem a repicar os sinos da cidade, em sinal de regozijo, ao
mesmo tempo que os ministros do Rei diziam aos peregrinos: "Entrai no gozo do nosso
Senhor!; (Mateus 25:23). E eles responderam com alegria e efuso: "Ao que est assentado
no trono, e ao Cordeiro, seja bno, honra e glria e poder, para todo o sempre!;
(Apocalipse 5:13).

Aproveitei o momento em que se abriam as portas para eles passarem, e olhei para dentro;
eis que vi a cidade que brilhava como sol; as ruas eram caladas a ouro, e passeava por elas
uma multido de homens com coroas na cabea, palmas e harpas de ouro nas mos,
cantando louvores.

Vi tambm que uns tinham asas, e que cantavam sem interrupo: "Santo, Santo, Santo  o
Senhor." E tornaram a fechar as portas, e eu fiquei de fora, cheio de pesar, pois anelava por
entrar e gozar as coisas que tinha visto.

Pena foi que o meu sonho no acabasse com to doces impresses. Depois de fechadas as
portas, olhei para trs e vi Ignorncia, que chegava  margem do rio; passou depressa e sem
metade das dificuldades que os peregrinos tinham encontrado. E aconteceu assim, porque
estava ali um barquinho chamado V-Esperana, que o ajudou a passar na sua barca.
Ignorncia subiu tambm a montanha em direo  porta, mas ningum foi ao seu encontro
para o ajudar, nem para lhes dirigir uma palavra de estmulo ou de consolao. Chegando 
porta, olhou para o letreiro que a encimava. Comeou a bater, supondo que franqueariam a
entrada, mas os que lhe apareceram por cima da porta perguntaram-lhe donde vinha e o que
queria. Respondeu-lhes Ignorncia: Comi e bebi presena do Rei, e Ele ensinou nas nossas
ruas. D-nos ento o diploma para o mostrarmos ao Rei. Ignorncia procurou em seu seio,
mas nada encontrou. No tinha diploma algum. Disseram-lhe, pois: No tens diploma?
Ignorncia nada respondeu. Comunicado o Rei o que acontecia, ordenou Ele aos

                                           - 108 -
                                      O Peregrino
                                 _____________________

Resplandecentes que atassem Ignorncia de ps e mos, e o lanassem fora; e vi que o
levavam pelos ares at a porta que eu tinha visto na fralda da serra, e que dali o
precipitaram.

Fiquei surpreendido; mas serviu-me isto de importante lio, pois fiquei sabendo que da
porta do cu h caminho para o inferno, do mesmo modo que o h na cidade da Destruio.

E nisto... acordei, e vi que tudo fora um sonho.




                                           FIM



                         Esta obra foi digitalizada por Carlos_Boas

                                carlos_boas@hotmail.com




                                            -
                                            109
